Neste Café com Cheirinho encontramos dois discos, cantados em português, com urgência e música lá dentro! Diferentes no modo e no conteúdo, a estreia dos Avesso e o segundo registo de Murro tem mais do que os une do que os separa. Texto: Nuno C. Lopes


Três anos (e algumas mudanças) depois de “Misantropo” os setubalenses Murro regressam com “Dissertações de um Cidadão Comum Desesperado, Prestes a Cometer um Atentado” (Raging Planet). O, agora trio, agarra nos destroços alcançados com a estreia e com a entrada de Gonçalo Ventoinha (bateria) não baralham mas voltam a dar (essencialmente) umas valentes “castanhadas” numa sociedade adormecida mas que, sem qualquer dúvida, se encontra prestes a explodir. Ao longo dos 11 temas do disco o trio abana os alicerces e atira uma realidade, tantas vezes cruel e desconcertante, com letras simples, rebeldes mas, acima de tudo feitas de histórias que podem, muito bem, ser as de cada um de nós. O trio encontra na realidade do cidadão comum o rastilho para fazer “soar os alarmes” sociais e os problemas de uma sociedade que se perde pelos motivos errados e que, a passos largos, se desagrega de si mesma. Os Murro são a verdade e realidade em estado bruto feitas à bruta e a palavra continua a ser uma arma que o trio não deixa calar. O trio está mais violento, ou talvez não, porque a vida real assim o é, violenta, cruel, explosiva.

Mais a norte o quarteto Avesso encontra nesta mesma podridão social a sua musa mas, ao contrário de Murro, o quarteto é mais filosofal e, consequentemente, mais light. Compostos por elementos vindos de áreas tão díspares como o Jazz ou o Grind, o quarteto é mais do que uma banda um projecto artístico, sem amarras e encontra nos escritos de Pessoa e Omar Khayyan algumas das maiores influências. Com música cerebral e pensada, o quarteto faz da sua estreia um, quase, manifesto social onde o pensamento e a razão contrastam com a condição humana e tudo o que a corrói por estes dias, sem que isso magoe, embora magoando quando se observa o estado “podre” de um Mundo em modo destrutivo. “Desassossego” é um disco feito de urgência, um disco que pretende despertar a consciência (cada vez mais) adormecida e incapaz de reagir perante a sua própria degradação. Ao longo dos 14 temas a banda traz a luz e a esperança intercalada com o negrume e uma, quase, mendigação social numa total ausência de agregação que contrasta com um desfasamento que começa no indivíduo e extravasa para a sociedade cosmopolita. “Desassossego” é um lançamento conjunto Raging Planet e Roma Inversa.