(Opinião) POSTAS DE PESCADA - "Público ou Equipa de Filmagem?»

De regresso aos textos de opinião, o Nuno C. Lopes manda as suas Postas de Pescada sobre o tudo e sobre o nada e tudo o que está no meio.

Quando comecei a frequentar concertos, primeiro como espectador e, mais tarde, como divulgador, jornalista, fotógrafo e, acima de tudo, casmurro, a tecnologia estava longe daquilo que hoje nos é apresentada. Eram também outros tempos: um concerto nos anos 90 não era apenas um concerto — era celebração, união e, pela sua raridade, um verdadeiro acontecimento.
Por isso, cada concerto é uma história e muitas dessas histórias vivem hoje em memórias que o cérebro guarda de forma (quase) fotográfica, com ou sem flash.
O tempo passou, eu passei com ele e tudo evoluiu. Ainda assim, há coisas que me continuam a irritar, embora compreenda que façam parte do preço da evolução.
Tudo aquilo que faço publicamente rege-se por regras, mais ou menos intrínsecas, que procuro cumprir religiosamente, tal como muitos dos meus pares. Por isso, é frustrante ver pessoas que se marimbam para o acontecimento e para o verdadeiro “seize the moment”, passando o concerto inteiro de telemóvel na mão, a filmar aquilo que, provavelmente, acabará por servir pouco mais do que ocupar espaço na memória do dispositivo.
Não acredito que filmar um concerto na íntegra — ou, pior, assisti-lo através de um ecrã — seja realmente guardar um momento. Afinal, será que foi para isso que se foi ao espectáculo?
No fundo, o que mais me frustra é perceber que as regras de uns parecem não ser as regras de outros. Mas também sei que este é o preço a pagar por algo que, cada vez mais, parece difícil de encontrar: equilíbrio e noção.

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