(Opinião) POSTAS DE PESCADA - "A Arte Não Se Cala"

De regresso aos textos de opinião, o Nuno C. Lopes manda as suas Postas de Pescada sobre o tudo e sobre o nada e tudo o que está no meio.

Esta semana ficou marcada pela actuação das Lambrini Girls num dos festivais mais históricos do país — o mais antigo, realizado pela primeira vez ainda durante o Estado Novo. Só isso já torna irónico tudo o que aconteceu depois.

As Lambrini Girls, banda de Punk Rock que conta com uma luso-descendente nas suas fileiras, eram até há pouco tempo pouco conhecidas por cá. Bastaram duas palavras para exporem a cólera dos acólitos de um partido fascista, aparentemente incapazes de lidar com a crítica, o sarcasmo e o confronto público.

Depois surgiu o habitual argumento: «não se deve misturar música com política». Uma alarvidade que ignora séculos de arte interventiva. Do intervencionismo nacional ao Punk, passando pelo Heavy Metal, pelo Hip Hop, pelo Gospel ou pelos Blues, são inúmeros os exemplos de música usada como veículo de crítica, contestação e consciencialização. Dizer o contrário é desconhecer não só o papel da arte, mas também uma parte substancial da história da Humanidade.

Mais do que um ataque à banda, à organização, ao público ou aos melómanos, o episódio tornou-se um ataque à própria arte, à cultura e à liberdade de expressão. E há uma ironia adicional: no mesmo festival actuou o Body Count, banda cuja carreira também aborda problemas sociais, raciais e políticos. Alguém se indignou?

No fundo, a verdadeira ofensa não foram as «meninas», mas as «virgens ofendidas» que, com as suas reacções, acabaram por dar ainda mais força à ideia de que a canção é uma arma. Enquanto uns tentam calá-la, milhares continuam a celebrar a liberdade de ouvir, cantar, protestar e questionar aquilo que está mal.

E isso, meus caros, é algo que nenhum partido ou acólito consegue calar.

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