HellHeaven: Olá, e parabéns pelo vosso novo álbum de estúdio, «Helios». Como se sentem em relação a ele e quais são as vossas expectativas?
Phillip: Obrigado. Estamos extremamente satisfeitos com o resultado. É também um dos nossos trabalhos mais pessoais, e a mensagem vem do coração. Esperamos que este novo álbum abra novas portas para que possamos chegar a mais pessoas com a nossa mensagem e visão do mundo.
HellHeaven: Já lançaram duas faixas, “Ascension” e “The Hierophant Way”. Como estão a ser recebidas? Porque escolheram estas duas músicas como singles (especialmente considerando que uma delas é bastante longa)?
Phillip: Até agora, a resposta tem sido fantástica. Não li quase nenhum comentário negativo, mas mesmo que fossem muitos, continuaríamos a defender o nosso trabalho. Escolhemos “The Hierophant Way” não só por acharmos que é uma grande música, mas também porque é o ponto alto do álbum. Além disso, faz sentido dado o conceito do álbum, que analisa criticamente o mundo atual como cheio de distrações. Foi uma decisão ousada, mas intencional, lançar uma faixa de 11 minutos como primeiro single, num mundo onde todos estão distraídos e a sofrer de falta de atenção. Já “Ascension” é uma faixa a meio do álbum, fazendo parte da Odisseia rumo à iluminação. O clímax só pode ser compreendido com contexto, e é isso que “Ascension”, tal como as outras músicas, descreve. Um aspecto mais geral é que, para nós, ambas as faixas representam bem o sentimento e as camadas que o álbum oferece.

HellHeaven: O conceito central de «Helios» é a procura da iluminação, não através da fuga, mas como conquista. De onde surgiu esta ideia? Tomou uma abordagem puramente filosófica ou também moldada por experiências pessoais?
Phillip: A ideia principal é a conquista em vez da fuga, que é amplamente inspirada pela filosofia de Nietzsche e pelo pensamento hermético. A conquista precisa de ser vivida e absorvida, não apenas lida. As minhas próprias lutas pessoais como as tenho enfrentado reacenderam a chama do conhecimento filosófico, transformando-o em algo em que realmente acredito. Partilhar as minhas visões filosóficas com os outros é um grande privilégio. A iluminação não é uma viagem pacífica, não se trata de escapar ao caos e transcendê-lo. Trata-se de encarar a luta e recusar-se a ser moldado por algo exterior. És tu quem acende a chama, não ficas à espera que ta entreguem. Portanto, é tanto filosofia como experiência vivida, ambas indissociáveis. As ideias filosóficas fornecem uma linguagem acessível para descrever o que experiencio.
HellHeaven: Esta iluminação deriva da superação de obstáculos e do aperfeiçoamento pessoal, sendo “forjada pela luta”. Vês esta luta como parte essencial do crescimento pessoal? Ou pode um crescimento substancial também ocorrer sem adversidades?
Phillip: A luta não significa necessariamente sofrimento. O crescimento não tem de ser uma experiência traumática, mas exige resistência. É preciso mantermo-nos firmes, reagir, insistir e levar as coisas até ao fim; é assim que se ultrapassam os obstáculos. Isto pode ser alcançado através da disciplina e de um esforço continuado. A dor pode fazer parte do processo, mas não é indispensável. Porém, o crescimento não é possível sem resistência. Por vezes, pode parecer que crescer é mais fácil ou que requer menos esforço, porque a resistência envolvida se tornou menos visível; mas ela continua lá. Sem resistência, não há verdadeiro crescimento: há apenas a aquisição de informação. É preciso criar espaço para que algo novo possa emergir, e é precisamente o processo de ultrapassar a resistência que permite essa transformação. O conceito de luz forjada versus luz emprestada é um exemplo disso. A realidade é construída através da luta; essa luta não precisa de ser violenta, mas tem de envolver resistência.
HellHeaven: “Hélios” refere-se ao antigo deus grego que personifica o sol. Conceitos como força, conquista e o próprio sol têm sido associados ao simbolismo masculino em diferentes culturas. Curiosamente, “die Sonne” é gramaticalmente feminino em alemão. Pensaste nisso ao desenvolver o conceito de «Hélios»?
Phillip: Sinceramente, não foi aqui tido em conta. Mas admito que, em retrospectiva, o contraste entre o alemão e o grego neste contexto é interessante. Hélios é um conceito mitológico interessante para mim – a conquista do céu, sendo consumido e remodelado a cada ciclo. Este projeto procura algo mais elementar do que os enquadramentos culturais ou as forças da luz propriamente ditas.

HellHeaven: Existem várias ligações a temas gregos ao longo da vossa discografia. Dirias que há uma progressão temática, ou uma narrativa filosófica ou espiritual mais ampla, a ligar os álbuns (especialmente os mais recentes)?
Phillip: «Okeanos» e «Ethos», de facto, bebem de uma fonte semelhante. Mas não diria que estão realmente ligados. A maioria dos álbuns recentes teve as letras compostas pelo nosso baterista, David; mas esse não foi o caso de «Helios», e as motivações foram diferentes.
HellHeaven: Lukas Massinger é o membro mais recente da banda, tendo começado a tocar ao vivo com os Firtan em 2024. «Helios» é o seu primeiro álbum com a banda. Ele contribuiu para moldar a sonoridade do álbum?
Phillip: Ele juntou-se à banda depois de as composições já estarem finalizadas, por isso ainda não teve influência no som. Mas tenho a certeza de que a sua influência se fará sentir no futuro.
HellHeaven: Tiveram alguns convidados (James Dorton, Christian Höll e Markus Stock) no álbum. Como se desenvolveram estas colaborações?
Phillip: Precisávamos de uma voz grave para aquela parte em “The Hierophant Way”. Como sabíamos que o James era nosso fã desde o segundo álbum, convidámo-lo para assumir esse papel. O Christian também toca com a Klara noutra banda (Vinsta), por isso a ligação foi fácil. Precisávamos de uma textura adicional na faixa de encerramento, e ele acrescentou-a com o saxofone. Quanto ao Markus, acontece sempre espontaneamente em estúdio, uma vez que também é nosso produtor.
HellHeaven: «Helios» é, na verdade, o vosso segundo lançamento de 2026. No início deste ano, lançaram “Live at Summer Breeze”. Porque vos pareceu ideal registar esta apresentação ao vivo em particular? Como vêem, nos dias de hoje, o papel dos lançamentos de álbuns ao vivo relativamente aos de estúdio?
Phillip: Talvez tenha sido o nosso maior concerto, e ainda me arrepio só de pensar nele. Simplesmente pareceu-me correcto escolher este espectáculo; o festival é muito profissional, o som é óptimo e há uma excelente facilidade de gravação, e o público estava mesmo entusiasmado. Por isso pareceu-me o momento perfeito para capturar. Nunca tínhamos pensado activamente em fazer um álbum ao vivo, mas, nestas circunstâncias, simplesmente tínhamos de o fazer. Em geral, acho que os álbuns ao vivo podem ser ainda melhores do que os discos de estúdio; captam a energia pura e crua da performance das músicas.
HellHeaven: Os Firtan estão no activo há mais de quinze anos e «Helios» é já o vosso quinto álbum. Olhando para trás, qual te pareceu ser o maior ponto de viragem na vossa evolução?
Phillip: «Okeanos». Foi com este álbum que encontrámos uma sonoridade mais singular. Além disso, a entrada de novos membros moldou drasticamente a evolução: David na bateria, Klara no violino e Chris na guitarra. Todos contribuíram enormemente para o que os Firtan são hoje.
HellHeaven: O vosso som foi inicialmente descrito como pagão. Tendo um carácter especial com os instrumentos acústicos e os cânticos ritualísticos, lembrando mais a abordagem atmosférica alemã ao black metal do que a famosa cena norueguesa dos 90s. Como vês hoje esses elementos no contexto da identidade e evolução dos Firtan?
Phillip: Para ser sincero, já não vejo nada de pagão na nossa música e nas nossas letras. Para mim, o paganismo é uma ideologia espiritual, e nós não seguimos essa ideologia. No passado, tínhamos interesse no aspeto mitológico e talvez até venhamos a incorporar algumas destas ideias no futuro, como fazemos com outras mitologias, mas não estamos presos a nenhuma destas crenças. Funcionam como ferramentas para nós. Portanto, não diria que realmente Firtan evoluiu do paganismo para outra coisa, uma vez que não surgiu do paganismo propriamente dito. Além disso, rejeitamos os rótulos, pois tendem a ser demasiado limitados para descrever o que fazemos.

HellHeaven: Dado o quão atmosférico e complexo o novo material parece ser, qual é o desafio de transpor estes arranjos para os palcos sem perder a profundidade? Planeiam apresentar «Helios» ao vivo em Portugal?
Phillip: Como usamos samples ao vivo, não é muito desafiante. Mas tendemos a limitar os backing tracks ao que é realmente necessário, especialmente agora com o novo disco. E, claro, planeamos visitar Portugal o mais breve possível; já estamos em contacto com alguns organizadores, mas ainda não está nada definido.
HellHeaven: Dada a vossa experiência, que conselhos dariam a bandas mais jovens?
Phillip: Se realmente acreditam no que estão a fazer, continuem. Não desistam, não recusem oportunidades e certifiquem-se de que se rodeiam de pessoas que partilham a mesma motivação. Outra coisa importante é pensar fora da caixa quando se trata de composição, rejeitar rótulos e clichés, não ter medo de experimentar algo novo.
HellHeaven: Obrigado pela disponibilidade. Em relação a entrevistas, a que pergunta gostarias de responder, mas que nunca ninguém fez (e qual a resposta)?
Phillip: Alguma vez te preocupaste com a possibilidade de todo este processo de forjar crescimento ser apenas outra forma de aprisionamento? Uma história que contas a ti próprio para dar sentido à luta, em vez de algo que corresponde realmente à verdade?
Para ser sincero, acredito que esse é um cenário possível. Esta filosofia corre o risco de se tornar uma armadilha por si própria. Se tudo for uma luta, acabamos por criar resistência para podermos sentir que estamos a crescer. Na minha opinião, não é possível escapar completamente a esse risco, e aceito essa dúvida sem tentar eliminá-la através de argumentos. Mas, se deixasse de questionar este enquadramento, já estaria preso numa jaula. Esta é a resposta mais coerente que consigo dar no contexto deste disco. No entanto, isto não é uma certeza, mas uma ideia sobre a qual me atrevo a reflectir.
HellHeaven: Por fim, gostarias de deixar uma mensagem aos vossos fãs/nossos leitores em Portugal?
Phillip: Há muito tempo que não tocamos em Portugal. Aguardamos com expectativa e esperamos ter notícias concretas para os nossos fãs portugueses sobre alguns concertos ao vivo. Por isso, fiquem atentos aos próximos anúncios. Espero que os possamos visitar em breve.
Os Firtan atreveram-se ainda a dissecar, em Discurso Directo, cada tema do seu novo álbum «Helios».

Himsa - É a introdução melancólica, que molda o que está para vir. A atmosfera sombria e triste define o tom de um mundo em decadência.
Kalika’s Tongue - Uma música dinâmica, inspirada no death metal, mas também nos interlúdios atmosféricos clássicos dos Firtan. Utiliza o demónio Kali como representante do pecado, que só pode ser derrotado por um ser superior, aqui representado por Kalika. As pessoas vêem-se como vítimas, dependendo completamente da fé e de factores externos.
Ambrosia - Uma música pesada, com maior influência do black metal. O protagonista sente-se cada vez mais atraído por estes factores externos em busca de auxílio, encarando estas entidades como uma espécie de ambrosia para o seu sofrimento e fragilidade. Mas também começa a surgir a dúvida.
Solis Currus - É atmosférica do início ao fim, sem deixar de ser pesada. É a primeira vez que o protagonista percebe que se pode libertar.
Ascension - Cativante e repleta de riffs furiosos de black metal. Basicamente, trata-se da Alegoria da Caverna. No contexto do álbum, o protagonista enfrenta agora uma nova realidade, deixando para trás a sua antiga “realidade”.
Wide Open Eye - Uma música rápida com muitas camadas, e um trabalho mais lúdico, de guitarra. O protagonista tem agora os olhos completamente abertos.
Helios - O cerne do álbum, por assim dizer. Uma música altamente dinâmica e inicialmente lenta, que mais tarde acelera o ritmo. É aqui que se inicia a transformação que o protagonista percebe que precisa de enfrentar e superar.
The Form Revealed - Uma melodia cativante com riffs rápidos. Revela a verdadeira nova forma do protagonista, à medida que este emerge do processo de transição, embora ainda não o tenha alcançado por completo.
Revealing Prana - Um breve interlúdio instrumental. Reflete os retoques finais da transformação.
The Hierophant Way - O clímax. Uma faixa longa e altamente eclética com muito para digerir. Reconta a história do início ao fim e conclui a transformação. Mas permanece a questão de saber se é sequer possível alcançar a iluminação e de que forma esta “nova” pessoa poderá agora influenciar o mundo à sua volta.
Shadows of a Dawn Unborn - Uma peça acústica. Sugere um final pacífico, mas talvez seja apenas romantismo. Terá o protagonista realmente alcançado a iluminação? E haverá sequer algo que possa ser alcançado?
