(Entrevista) ABOVE THE OCEAN - "A música é nada mais do que um meio para purgar ou descompactar essas emoções que todos sentimos"

Os Above The Ocean, banda de Modern/Alternative Metal de Évora, cruzam peso, melodia e eletrónica e preparam o álbum de estreia. Entrevista: João Gama.

HellHeaven: Olá! Sendo uma banda recente, gostaria de começar por vos pedir que falassem da história da formação e percurso do grupo.
João: Mantemos a mesma formação desde o início da banda: o José Saruga na voz, o André Vicente na guitarra e voz, o Pedro Santos na guitarra, o André Bagorro no baixo e eu, João Carvalho, na bateria. A ideia de formar a banda surgiu inicialmente do Pedro e do Saruga, que me convidaram para fazer parte do projeto no final de 2021. Em 2022 surgiram os Andrés, e consideramos esse momento como o início da banda, o ano em que se consolidou a nossa primeira e actual formação, e começámos a ensaiar e compor o repertório que tocamos hoje. Diria que aconteceu tudo de forma bastante natural. Todos eles já se conheciam, maioritariamente por fazerem parte da cena de metal eborense já há alguns anos, e o Pedro e o Bagorro são amigos de infância. Eu sou mais novo que o resto do pessoal e conheci-os apenas quando entrei para a banda. 

HellHeaven: E qual foi a origem do nome "Above the Ocean"? E qual é o seu significado? 
André: Podíamos alegar que a escolha do nosso nome se baseou numa decisão super bem estruturada, com um conceito por trás que se alinhava desde o início com a nossa visão para a banda, mas a verdade é que o conceito só surgiu depois da escolha do nome, e só então se alinhou com a nossa própria filosofia de banda. Cada membro fez uma selecção de 2-3 nomes que gostava e no final o vencedor foi o nome "Above the Ocean" (o nosso baixista nunca foi muito fã do nome e sempre disse que ia arranjar outro melhor, esperamos por esse momento até hoje). Apesar de ter sido uma escolha aparentemente arbitrária, a verdade é que o nome "Above the Ocean" se alinha de forma quase poética com a mensagem que tentamos transmitir nas músicas. O acto de se manter "acima do oceano" é um acto de resistência, de uma recusa profunda de desistir independentemente da ondulação ou adversidade circundante, de ser capaz de navegar pelo desconhecido até uma qualquer costa onde se avista a promessa de um "eu" reformulado, inabalável. É essa, no fundo, a essência por trás do que fazemos.

HellHeaven: Em 2025 venceram o concurso de bandas para tocar no Comendatio Music Fest. Como sentem que essa experiência vos abriu portas? 
João: O Comendatio foi uma experiência fantástica e até hoje um dos nossos concertos favoritos. Foi o primeiro grande festival em que tocámos e tivemos o prazer de partilhar o palco com bandas de que somos fãs e nos influenciaram. Abriu-nos não apenas a porta para tocar no festival, mas também nos permitiu chegar a um público que na sua maioria nunca tinha ouvido falar nos Above the Ocean, e pudemos mostrar-lhes quem somos da melhor forma possível: a tocar ao vivo. 

HellHeaven: E que bandas foram essas que vos influenciaram? 
André: As nossas influências são bastante variadas, abrangendo diferentes subgéneros dentro e fora do metal. Temos uma base muito "core" (Trivium, August Burns Red, Parkway Drive), mas também se destacam traços de nu metal e groove metal, nas nossas composições. Há inclusive uma clara influência mais moderna, presente no nosso uso de samples electrónicos e sintetizadores, para acentuar certos riffs e melodias, que deriva obviamente de nomes como Architects, Wage War, While She Sleeps, Bring Me the Horizon e Spiritbox. 

HellHeaven: Diriam ter um público-alvo? 
André: Para quem gosta de uma sonoridade centrada no metalcore, com influências muito melódicas, e aliada a uma tensão entre som nostálgico e moderno, as nossas músicas têm certamente algo para oferecer. Dito isto, quando compomos não temos propriamente um público-alvo em mente. Arriscando-nos a soar algo pretensiosos, a verdade é que nós os cinco acabamos por ser, numa primeira instância, o próprio público-alvo – se nós não gostarmos de ouvir o que tocamos, como podemos esperar que os outros gostem? Isso acaba por estar aliado ao facto de que nunca tentámos ter um tipo específico de sonoridade, existe uma linha guia, que é a nossa identidade musical enquanto indivíduos, extrapolada para o contexto da banda, mas cada música é livre de explorar um aspecto diferente das outras desde que nos transmita algo, e que possamos sentir que se enquadra na nossa visão colectiva. 

HellHeaven: O vosso single mais recente é “Worthless”. Se tivessem de escolher apenas uma música para apresentar os Above the Ocean a alguém que nunca vos ouviu, seria esta? A música teve também direito a videoclipe: podem falar-nos um pouco do seu conceito? 
João: Isto pode ser síndrome de música nova, mas diria que sim. É uma música de contrastes, tem momentos super pesados e também partes bastante melódicas e até épicas. Acho que consegue conjugar várias facetas nossas numa só música. A "Therapy" seria outra boa música para nos apresentar, por exemplo, pois também tem vários elementos do nosso som conjugados numa só música, inclusive eletrónica, que não utilizámos na "Worthless".

HellHeaven: E o que podes revelar acerca do conceito do seu videoclipe? 
João: Os videoclipes anteriores contam uma história à volta da música, em contraste, este é mais focado na banda e na performance para transmitir visualmente a energia sonora da "Worthless”. Como a própria música, o vídeo vive dos contrastes: as cenas gravadas à noite, num estacionamento na zona industrial de Évora, e as cenas diurnas, no meio da natureza. Não temos dinheiro para grandes produções visuais, por isso apostamos em cenários que resultem sem muita edição ou caracterização. Aqui a antítese entre o caos da parte industrializada da cidade e a paz e beleza natural da ribeira nos arredores serve para representar visualmente o contraste entre os momentos mais agressivos e os momentos mais melódicos da música. 

HellHeaven: A vossa sonoridade assenta nesses contrastes entre agressividade e melodia. Procuram com eles atingir alguma forma de equilíbrio? Ou alcançar a catarse? 
André: Esse contraste entre momentos melódicos e agressivos, além de sonicamente ser uma opção estilística que gostamos bastante e com a qual nos identificamos, é também algo que se tem enraizado no ADN da banda música após música. Conceptualmente, essa dualidade entre luz/escuridão, pesado/leve, melódico/dissonante, está muito presente nas temáticas abordadas nas letras escritas pelo nosso vocalista (José Saruga), existindo quase uma "dança" perfeita entre o instrumental e os vocais, que permite a nós e aos ouvintes ter esses preciosos momentos de catarse. Nós procuramos sempre um equilíbrio, seja nas músicas individualmente ou como um todo, e tal como na vida existem momentos de amargura, tristeza e violência, mas também de afirmação, realização e amor-próprio. A música é nada mais do que um meio para purgar ou descompactar essas emoções que todos sentimos, e se de alguma forma a mensagem ressoa com os nossos ouvintes, a missão já foi cumprida.

HellHeaven: Sendo de Évora, sentem que há alguma grande diferença em fazer (este tipo de) música no Alentejo?
João: Hoje em dia, com a internet e as redes sociais, já não existe tanto aquela cena de uma banda 
ser daqui ou ser dali, pelo menos a nível de lançar ou divulgar música. Mas estamos numa cidade relativamente pequena, longe das metrópoles, o que se calhar traz alguns problemas que não teríamos se vivêssemos em Lisboa, por exemplo. Como seria de esperar, aqui há menos locais para ensaiar e fazer concertos. Por outro lado sinto que, por Évora ser uma cidade pequena, tivemos mais facilidade em construir uma comunidade local de fãs e amigos. Geograficamente, é muito prático tocar na área de Lisboa, é perto de Évora e dá para ir e voltar no mesmo dia sem haver grandes custos associados. Já aconteceu tocarmos na Margem Sul a uma sexta-feira e precisámos de tirar folga do trabalho: saímos de Évora ao fim da tarde, parámos para uma bifana em Vendas Novas, seguimos viagem, fomos dar o concerto e voltámos no mesmo dia. Já uma ida ao norte mal planeada é uma sova financeira na conta da banda (que também já aconteceu). 

HellHeaven: O vosso álbum de estreia está previsto para 2027. Podem revelar algo mais acerca dele? E, entretanto, têm mais datas agendadas para tocar ao vivo? 
André: A gravação do álbum tem sido um processo longo, mas também muito pessoal e gratificante. Tem sido tudo feito com uma logística muito DIY, e não temos de momento nenhuma editora em vista com que colaborar, o que faz com que o álbum seja provavelmente editado de modo independente. Devido a isso, e a por vezes a vida pessoal de cada membro se meter no meio, ainda não temos uma data em concreto para o lançamento, mas há um título pensado que já nos acompanha há algum tempo e que traduz perfeitamente o caminho traçado por nós até aqui: «Navigate the Unknown». É com esse sentimento de navegar pelo desconhecido que temos trabalhado, à nossa maneira e ritmo, nas músicas que irão fazer parte do álbum. Além das músicas que tocamos atualmente ao vivo, nas quais se inserem os quatro singles que lançámos até ao momento, quem já nos acompanha pode esperar algumas surpresas ainda por estrear. 

HellHeaven: Obrigado pela disponibilidade. Em relação a entrevistas, a que pergunta gostariam de responder mas nunca vos foi feita (e qual a resposta)? 
João: É sempre bom poder falar sobre a banda e nossa música. Uma pergunta que é feita muitas vezes é: qual foi o nosso melhor concerto ou o mais memorável? Nunca é fácil escolher um, mas uma vez perguntaram-nos: qual foi o nosso concerto mais surpreendente ou inesperado? E já essa é uma história engraçada que gosto de contar: Fomos convidados para tocar na FNAC de Évora duas semanas após o nosso primeiro concerto, não para fazer um showcase acústico, mas mesmo para tocar o nosso set barulhento a uma tarde de Sábado no shopping da nossa cidade. Foi muito giro porque havia imensa gente na loja para ver o concerto e, segundo consta, ouvia-se na outra ponta do centro comercial. Houve uma senhora que foi reclamar connosco por causa do barulho durante o soundcheck porque tinha ido trocar os manuais escolares do filho e não conseguir conversar com o funcionário em condições porque o balcão era mesmo ao lado do palco. Lembro-me perfeitamente de estar a tocar, a ouvir só o som de retorno que tinha nos fones, e do nada vejo a senhora à frente do palco a fazer movimentos bruscos e mandar-nos calar. Tivemos de acabar o soundcheck por aí, mas depois chegou o pessoal, demos o concerto e foi super fixe! Também foi o pós-concerto mais caótico e divertido da história da banda até hoje. 

HellHeaven: Por fim, que mensagem deixam aos vossos fãs/nossos leitores? 
André: A todos aqueles que nos têm acompanhado, queremos agradecer o vosso apoio, dedicação, e paciência na espera pelo álbum! Vai ser fantástico quando estiver finalmente cá fora e possamos partilhar todo este conjunto de músicas no qual temos imenso orgulho. Aos que nos estão agora a descobrir, sigam as nossas redes e apareçam num dos nossos próximos concertos que garantimos que não vão ficar indiferentes com a experiência. Para fechar a entrevista pegando na mensagem do nosso mais recente single, “Worthless”, sejam gentis com vocês mesmos, reinventem-se, e não deixem o medo e a opressão demover-vos de nada – YOU ARE ENOUGH!! 

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