(Entrevista) ISKALD - "Cada vez é mais difícil encontrar um local onde a tua cabeça possa estar sossegada!"

Com “Curse of the Mind”, os Iskald exploram os abismos da mente humana. A HellHeaven entrevista Aage Krekling. Entrevista: Nuno C. Lopes

HellHeaven: Começo por dar os parabéns pelo mais recente “Curse of the Mind”! Quais são os pensamentos e expectativas com este álbum?
Aage Krekling: Obrigado! Para nós o “Curse of the Mind” não é apenas um disco, é um ritual que tínhamos de fazer! É o nosso primeiro registo totalmente concetual sobre o tormento psicológico, é obscuro e mais claustrofóbico do que tudo o que fizemos até hoje, mas continua a ser Iskald na sua essência! Foi um desafio que colocámos a nós mesmos, quer na forma como escrevemos como na forma como tocámos juntos enquanto quinteto! Não pensamos em streamings ou números, apenas esperamos que as pessoas se sentem e façam toda a jornada da primeira Invocação até à ultima sem saltar nada! Se alguém der uma escuta por todo o disco no escuro e sentir algo de forma honesta é porque fizemos o nosso trabalho!

HellHeaven: Este disco põe fim ao vosso maior período entre discos, isso foi uma consequência das mudanças de formação ou existe algo mais?
Aage Krekling: As mudanças na formação tiveram uma grande parte de responsabilidade, sem dúvida! Decidi largar a bateria ao fim de duas décadas atrás do kit e, só isso, já leva o seu tempo a perceber como fazer! Depois a banda transformou-se num quinteto com o Isak a tornar-se o baterista a tempo inteiro e o Tobias no baixo, ao lado do Ben e do Simon! Depois também foi a vida a acontecer! Depois do “ Innhøstinga” precisámos de nos distanciar e a pandemia também veio abrandar tudo. Ao olhar para trás esses anos trouxeram às letras a honestidade que precisavam! Quando todo o conceito se tornou claro fomos para o Strand Studio no Verão de 2025 e forjámos tudo no espaço de quatorze, intensos, dias, ao vivo e de forma crua e misturado e masterizado pelo  Hallstein Sandvin logo de seguida, sem merdas!

HellHeaven: “Curse of the Mind” marca a estreia pela Dusktone, qual a vossa opinião sobre a editora e como é que eles chegaram aos Iskald?
Aage Krekling: O disco já estava acabado quando começámos a falam com quem quer que fosse! Não queríamos falar com alguém que nos pedisse para escrever singles ou reescrever temas para determinado formato! A Dusktone chegou a nós porque ouviram um disco completo, não uma coleção de temas! Eles queriam este disco conforme ele é, com as quatro Invocações e com toda a moldura Helheim intacta, não existiu pressão para alterar e esse tipo de confiança é raro e era isso que precisávamos para um disco como este! 

HellHeaven: Depois de alguns teasers lançaram “The Other Realm”, o primeiro e único single do disco. O que vos levou a escolher esta Invocação?
Aage Krekling: É o seguimento da “Invocation I”, por isso a descida começa, na realidade, com o “The Other Realm”! Foi a escolha honesta para ser o primeiro e único single do disco! Se tínhamos de escolher um tema para mostrar onde começa, só podia ser esta! Névoa, vasta, vazia, aquele sentimento de estares a entrar em algo de onde não poderás sair! É um tema que mostra tudo o que define o “Curse of the Mind”, atmosférico, agressivo e com aquela melodia fria mas que levanta questões mais do que procura respostas, pretendíamos manter o resto da história por descrever! 

HellHeaven: Ainda que no passado a parte melódica era uma forma de descrever os Iskald com este disco parece que essa parte foi, em certa medida, colocada de lado. Estás de acordo?
Aage Krekling: Não, não concordo! As melodias continuam presentes, apenas já não estão lá para te fazer sentir confortável! No passado a melodia estava presente parar abrir paisagens invernais e que levavam os temas! Actualmente eles são como um vento frio a entrar numa sala fechada, para criar tensão, desconforto e inquietação em vez de te levantar! Não abandonámos a melodia, apenas a invertemos para servir o conceito! Essa mudança é, em parte, o motivo pelo qual parece um novo capítulo e abriu a portas para a forma como podemos escrever no futuro.

HellHeaven: Será justo dizer que a Mente é, ao mesmo tempo, a nossa melhor amiga e o nossa pior inimiga?
Aage Krekling: Sim, aliás essa é a ideia base para o título do disco! O Helheim nesta história não é um local mitológico e batalhas e deuses, é o prisioneiro que reside na tua cabeça! A tua mente consegue carregar-te perante quase tudo mas também te consegue manter preso nos teus medos, dúvidas e pensamentos destrutivos. Não existem monstros externos neste disco, o campo de batalha és tu mesmo e a esperança é o fio a que precisas de te agarrar para seguires o caminho, sem qualquer esperança “barata”!

HellHeaven: Este Mundo moderno em que vivemos e os seus desafios ajudaram a moldar o que é o “Curse of the Mind”?
Aage Krekling: Não enquanto um manifesto político, mas é algo que sentes nos “bastidores” do disco! Nós vivemos na neve, com Invernos longos e onde o silêncio real é possível! Ao mesmo tempo toda a gente está, constantemente, ligada, constantemente a consumir informação e a encontrar comparações entre eles e os outros! Cada vez é mais difícil encontrar um local onde a tua cabeça possa estar sossegada! O álbum não é um comentário sobre a sociedade moderna mas essas pressões são parte do mundo que o ajudou a construir! Pesaroso, isolamento e conflitos internos são universais e tudo o ruído à nossa volta ajuda, certamente, a amplificar tudo isso!

HellHeaven: Ao fim de duas décadas na industria, e muitos mais como fans, como olham para o Black Metal acualmente?
Aage Krekling: Cresceu, é mais saudável e está mais diverso que nunca! Quando eu e o Simon começámos, em Sortland no ano de 2005, era tudo muito mais estreito! Tinhas de parecer e soar de determinada forma. Actualmente é tudo muito mais amplo, tradicional, atmosférico, experimental e com tudo o que está pelo meio! Nem tudo é para mim, mas está tudo bem! (risos) O mais importante é que as pessoas continuem a criar música de forma convicta e honesta, sem se preocuparem se é moda na Noruega ou não! Para mim o Black Metal nunca foi soar como em 1992, sempre foi sobre atmosfera e honestidade e esse espírito ainda está bem vivo! 

HellHeaven: Com o disco já nas lojas o que podemos esperar de Iskald? Alguma possibilidade de vos ver por Portugal? Qual a mensagem que deixas aos vossos fans?
Aage Krekling: Agora podemos, finalmente, levar o “Curse of the Mind” para o palco! Enquanto quinteto estamos mais fortes do que nunca, mais unidos e focados e, claro, queremos tocar ao vivo o máximo possível! Já temos algumas datas fechadas na Noruega e estamos a trabalhar em aparições em festivais e uma digressão europeia em 2027! Portugal está na lista, claro! Sabemos como vocês são dedicados e são um público barulhento e ficaríamos honrados por regressar! Por isso, a todos os fans em Portugal, obrigado por estarem connosco nestes vinte anos! Esperamos que possam dispensar ao “Curse of the Mind” o tempo que ele merece, do principio ao fim e, esperamos, em breve ver-vos em frente de um palco! 

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