HellHeaven: Olá! The Ocean entraram numa nova era: não é apenas um álbum novo, mas também muitas alterações na formação. Como estão os fãs a reagir a tudo isto, e quais as vossas expectativas?
Robin: Olá! Houve muito cepticismo quando a antiga formação terminou e muitos pensaram que seria o fim da banda. Quando começámos a gravar a bateria para o «Solaris» no Hansa Studios, começámos a revelar, com teasers, que haveria material novo. Desde então o apoio tem sido incrível. Aprecio muito que os nossos fãs sejam tão abertos a coisas que para muitas outras bandas seriam um desastre, como mudar de vocalista. Penso que estão muito habituados ao facto de fazermos sempre algo diferente a cada álbum e parecem abertos a este novo capítulo. A resposta às primeiras faixas que lançámos tem sido incrível. Não li nenhum comentário negativo, mas como não costumo ler comentários, talvez não os tenha encontrado! Já fizemos um espectáculo e escolhemos propositadamente um lugar especial, onde nunca tínhamos tocado antes, para a estreia da nova formação. Queríamos uma experiência relaxante e sem pressão, num sítio novo bastante diferente do habitual circuito europeu. Foi fantástico, num festival em Marrocos. Já estava em contacto com eles há anos e desta vez o momento era perfeito. Gravámos também uma sessão de estúdio no dia seguinte, da qual já lançámos a primeira faixa, "Beligerence" (mas há mais duas). De um modo geral, parece que todos estão muito entusiasmados com este novo capítulo, e nós também!
HellHeaven: Começaram enquanto colectivo, eventualmente estabilizando a formação. Como vês The Ocean actualmente, mais como uma banda no sentido convencional, ou como colectivo?
Robin: Boa pergunta, e honestamente não sei! O tempo o dirá! Sempre fomos um colectivo, sem medo de trabalhar com pessoas diferentes em álbuns diferentes e de introduzir novos elementos. Isso consolidou-nos numa banda com seis membros nos últimos dez anos, e agora parece que estamos a entrar novamente numa fase enquanto coletivo. Talvez isso possa consolidar-se numa banda fixa por mais 10 anos, mas não o sabemos. A maioria de nós está perto dos 40 anos e nesta fase da vida torna-se cada vez mais difícil ter tempo para dedicar a uma banda. Para já, tudo está no sítio certo. Estou muito entusiasmado por começar a fazer digressões e fazer mais música com este grupo de pessoas.

HellHeaven: Já que mencionas digressões, há três guitarristas em «Solaris»… Levarão os três para os palcos? E planeiam fazer arranjos das músicas mais antigas para incluir três guitarras?
Robin: Na maioria dos concertos, só tocaremos com dois guitarristas, pelo que seremos seis pessoas em palco. Mas, para alguns concertos especiais, como o Pelagic Fest e o festival Be Prog My Friend em Barcelona, seremos três guitarristas. Sim, estamos a rearranjar as músicas para três guitarras ao vivo. Mas na verdade, não há muito para rearranjar, porque quase todas as nossas músicas já contêm mais de três guitarras, pelo que podem ser tocadas com o terceiro guitarrista. Com dois guitarristas, focamo-nos sempre em certas partes, por isso é bom ter o apoio de um terceiro. Será uma experiência diferente, mas não é algo que possamos fazer em todos os concertos, pois quantas mais pessoas estiverem envolvidas, mais complicado e dispendioso se torna o planeamento.
HellHeaven: Esse concerto em Barcelona coincide com a data de lançamento de «Solaris». Podemos esperar que seja um evento especial?
Robin: Será a festa de lançamento não oficial do disco. Só me apercebi da coincidência da data mais tarde. Vamos tocar bastante material de «Solaris», mas não o disco na íntegra. Não faria sentido, porque a maior parte das pessoas ainda não o terá ouvido. Será uma mistura de muita música nova com algumas antigas.
HellHeaven: Loïc, o antigo vocalista, não era apenas versátil, tinha também uma forte presença e energia em palco. Pensas que os novos vocalistas se sentem pressionados?
Robin: A questão é mais para eles, mas acho que têm uma autoestima saudável e que não cederão a qualquer pressão. Inicialmente pensei que talvez o próximo álbum fosse instrumental porque não conseguia imaginar alguém para assumir o papel do Loïc. Mas, ao conhecer a Lane e o Enrico, isso mudou. São vozes e pessoas diferentes, mas transportam uma energia e um espírito semelhantes ao que fizemos no passado. E claro, ambos ainda têm de encontrar o seu papel nesta banda. Só fizemos um concerto até agora, por isso é algo que terá de surgir naturalmente ao estar em palco e digressão juntos. Esta mudança era necessária para continuarmos a ser uma banda. Estávamos num beco sem saída com as formações antigas. Este é um novo capítulo, mas queremos homenagear o legado da banda. Tocar músicas antigas é algo delicado: queremos apresentá-las de uma forma fiel ao original que os fãs adoram, mas também abraçar o facto de ser um novo capítulo. A Lane e o Enrico são vocalistas muito talentosos, criativos e dispostos a explorar e a entregar-se a este desafio. Vejo imenso potencial nisso. Estou muito entusiasmado para ver onde nos leva, especialmente na interpretação das músicas antigas. Começámos a trabalhar nisso e nos próximos concertos vamos tocar uma faixa do «Heliocentric» que não tocávamos ao vivo há 15 anos. A sensação é incrível. Parece que foi escrita como se pudesse ter sido tocada no «Solaris». Estou mesmo entusiasmado com esta perspectiva também em relação a outras faixas, incluindo algumas que talvez nunca tenhamos tocado ao vivo.

HellHeaven: Além dos novos integrantes, houve mais músicos (alguns associados ao roster da Pelagic Records) a colaborar neste álbum. Queres falar deles?
Robin: Já conheço o Simen e o Orestis há anos. Já tocamos com o Simen quando fizemos os concertos do End of an Eon para terminar o ciclo do «Holocene». É um músico incrível e eu sou um grande fã dos Spurv (das melhores coisas que ouvi em muito tempo). Ele é um tipo super calmo e um trombonista muito profissional. Tivemos cordas na maioria dos nossos discos, mas não muitos metais. E apaixonei-me pelo trombone enquanto compunha «Holocene», usando-o em todas as faixas. Em «Solaris», está presente de forma consistente, mas não em todas. Enviei algumas partes que já tinha escrito ao Simen, mas ele contribuiu com muitas partes próprias para o álbum também.
O Orestis toca nos Playgrounded, com quem fizemos uma digressão em 2022. Mas também faz um trabalho incrível como compositor, desde bandas sonoras à música eletrónica. Representa uma abordagem à música electrónica moderna que é muito rara no contexto do metal. Após a saída do Peter (teclista), o Orestis foi das primeiras pessoas com quem colaborar que me veio à cabeça.
Sou fã dos Tangerine Dream desde sempre e enquanto gravávamos a bateria, vi uma publicação do Thorsten no meu instagram, que estava a fazer algo com o Kristof Hahn, dos The Swans. Entrei em contacto com ele, apresentando-me e convidando-o ao estúdio. Tivemos uma boa conversa e foi assim que começou a nossa colaboração. Foi incrível e muito interessante. Ele é praticamente uma enciclopédia viva de sintetizadores!
HellHeaven: Imaginei que a fase moderna de Ulver pudesse ter sido uma inspiração para a sonoridade electrónica em «Solaris». Mas pelo que disseste antes talvez estivesse errado. Queres comentar?
Robin: Sou um grande fã de Ulver. São uma banda fantástica e tenho um enorme respeito pela diversidade do seu catálogo, incluindo os novos discos. Mas a nossa abordagem passou sobretudo pelas pessoas com quem já tínhamos trabalhado, e depois o Thorsten surgiu a meio. Estou muito contente com o resultado dessa componente do disco. Soa realmente fresco e contemporâneo, e isso era muito importante porque muito do material foi escrito em 2021. O Orestis e o Thorsten contribuíram muito para que ficasse a soar mais actual.
HellHeaven: Soa realmente fresco, mas também contém elementos que lembram outras eras da banda. No passado penso que referiste que a música "Jurassic/Cretaceous" te demorou anos a terminar. Nesse sentido, como foi o processo com as músicas de Solaris?
Robin: O material principal das canções foi escrito durante a pandemia, quando estava incrivelmente aborrecido, sem digressões e com tempo para compor. Quando entro em modo de composição, normalmente tudo é bastante rápido. Por vezes, consigo compor duas músicas por dia. Mas também há músicas que nunca são assim tão fáceis. "Jurassic/Cretaceous" foi uma delas, e "Simulacra" em «Solaris» também. Foi uma faixa à qual voltei várias vezes, alterando coisas e tentando encontrar a versão certa. Penso que dediquei muito mais tempo a estas duas músicas do que ao resto dos álbuns.
Praticamente todo o álbum «Solaris», tal como está no disco, foi escrito nessa altura, excepto a última faixa, "Milk of My Dreams", que é uma continuação ou variação de "Ultima Esperanza", e para mim é como que a faixa de encerramento do álbum. Foi escrita na sua totalidade no ano passado baseada numa ideia do Enrico. A estrutura base das músicas mudou pouco desde 2021, fora "Simulacra" que originalmente era uma ainda mais longa. Também a cronologia das músicas se manteve a mesma. Em geral, o processo de composição foi relativamente rápido, mas dedicámos bastante tempo, no ano passado, às vozes e letras, e também ao processo de gravação em Outubro.
HellHeaven: Conceptualmente, «Solaris» mergulha em temas como o cosmos, o inconsciente e o desconhecido. Isso lembrou-me a frase de «Pelagial»: “Change is what scares us shitless”. Consideras o desconhecido também uma fonte de medo ou, pelo contrário, de entusiasmo e inspiração?
Robin: Ambos, sem dúvida! Por natureza, o desconhecido assusta-nos, mas também é importante expormo-nos a ele e aprendermos a lidar com esse medo. Foi exatamente assim que me senti com a reformulação da banda. No início, não conseguia imaginar como continuar sem as pessoas que foram tão importantes na última década. Mas, pela minha experiência, quando enfrentamos o medo conseguimos ultrapassá-lo.
O desconhecido é algo que nos interessa enquanto artistas e exploradores. Somos movidos pela curiosidade e pela vontade de explorar algo que nunca ninguém explorou antes. Este álbum é uma ode a esse espírito: é uma viagem num barco de resgate cósmico, escapando da Terra em direção a Solaris em busca de uma espécie de utopia. Ao mesmo tempo, fazemos referência às grandes expedições do passado.
Mas isso também me fez pensar no lado negro da exploração. Muitas dessas expedições acabaram em desastres, genocídio e imperialismo cultural. Por isso, será que a curiosidade que valorizamos enquanto artistas é realmente inocente? Ou poderá esse mesmo espírito explorador conduzir à dominação e à imposição dos nossos valores sobre os outros? Acho isso muito interessante, porque na arte vemos a curiosidade como algo positivo e admirável, mas talvez também tenha um lado negro. E essas são algumas das questões que atravessam o disco.
HellHeaven: Voltando bem atrás no tempo, ao «Precambrian»: falta-lhe uma faixa relativamente ao período geológico Ediacaran. Haverá oportunidade para a criarem, como fizeram com a quarta parte de "The Grand Inquisitor" ou é um assunto encerrado?
Robin: Não és o primeiro a perguntar isso, e a razão pela qual "Ediacaran" ficou de fora de «Precambrian» é bastante mundana: não tínhamos outra faixa na altura. Sinceramente, não pensava que alguém fosse reparar, mas como disse, já não és o primeiro. Talvez deva encarar isso como um incentivo para compor o single "Ediacaran" que falta em «Precambrian», para resolver a questão de vez.

HellHeaven: Incorporam uma componente científica na vossa música, e há alguns anos um fóssil foi nomeado em homenagem à banda. Esperavam este tipo de apoio da comunidade científica?
Robin: Não estávamos à espera, e foi algo realmente especial. Mostra que muitos cientistas, especialmente geólogos, geógrafos e arqueólogos, partilham o mesmo fascínio que nós. Literalmente, em todos os concertos, há investigadores de geologia que vêm falar connosco sobre o quanto estes álbuns significam para eles e como estão felizes por sermos uma banda que aborda assuntos com que trabalham. Fico muito contente com essas conversas.
A geologia nem foi propriamente o ponto de partida para os álbuns. Quando escrevi o «Precambrian» imaginei uma espécie de música arcaica e visualizei o conceito como paisagens pré-históricas. Não tenho carreira nessa área, mas como a estudei e conheço a terminologia, fez sentido associar a música a capítulos da história da Terra. A ideia acabou por se tornar um fio condutor que atravessou vários álbuns. As letras não são científicas. Acho que seria essencialmente aborrecido escrever canções sobre rochas, mas usamos o tema como metáfora e como um ponto de partida para explorarmos outros temas. Nos álbuns da série Phanerozoic, por exemplo, a ideia do eterno retorno tornou-se o conceito filosófico central. A história da Terra funciona como uma estrutura, um esqueleto, e serve para abrir portas em várias direcções, com cada música a levar o ouvinte a lugares completamente distintos do conceito geológico.
HellHeaven: Falemos dessa eterna recorrência. Como de costume, as transições entre faixas são foram bem executadas em «Solaris», mas há aqui ainda outro nível, pois a última faixa termina de modo a conectar-se com a primeira levando-nos a um eterno ciclo auditivo. Além disso, também nas letras aparecem referências como “turning of the hourglass”. Dirias que os conceitos estão relacionados?
Robin: Estão, e és o primeiro a perceber isso! É algo que se tem vindo a repetir nos nossos discos e ainda está presente em «Solaris». E isto é um piscar de olho aos discos anteriores. Queria que este disco tocasse em loop, de uma forma a não se perceber onde começa e onde acaba. Começa com os sons da celesta e termina com os sons da celesta, basicamente na mesma tonalidade, para que a ligação seja perfeita. E sim, isto é uma forma de “audiovisualizar” a ideia de eterno retorno ou do tempo potencialmente não ser apenas uma construção linear, mas algo que pode ser concebido como um loop ou movimento circular.
HellHeaven: Obrigado pela disponibilidade. Em relação a entrevistas, a que pergunta gostarias de responder mas nunca te foi feita?
Robin: Essa é boa, mas não me ocorre nada de momento! Estou sempre feliz pelas entrevistas e pelo interesse na nossa música, especialmente este álbum, mas é inevitável haver perguntas recorrentes em que se começa a responder em piloto automático. Mas tiveste questões interessantes e fora da caixa, por exemplo, já não me perguntavam sobre Ediacaran há alguns anos.
HellHeaven: Por fim, que mensagem deixas aos vossos fãs/nossos leitores?
Robin: Estamos muito entusiasmados para regressar a Portugal e posso já dar um spoiler: estamos a planear a segunda parte da nossa digressão europeia. A primeira parte será em Dezembro, enquanto a segunda será em Janeiro/Fevereiro e contará com um concerto em Lisboa. O nosso último concerto aí foi fantástico. Estou muito entusiasmado por voltar a Portugal para o ano, já passou muito tempo desde a última vez.
