HellHeaven: Olá, e parabéns pelo novo álbum «Call Of The Void». Como te sentes em relação a ele? Quais são as expectativas?
Graham: Obrigado! Estou muito contente com o resultado. Foi um caminho árduo, com muitos atrasos, mas estou feliz por finalmente estar disponível. Espero que chegue a novos ouvintes que ainda não conhecem o meu trabalho. Para já, deixei os planos para o super iate em segundo plano [risos].
HellHeaven: Lançaste dois singles antes do álbum, “The Edge of Time” e “The Void”. Por que razão os escolheste especificamente? E como foram recebidos?
Graham: Boa pergunta! Escolhi “The Edge of Time” porque senti que representava os novos elementos deste álbum, que são um som e uma visão mais concisa e unificada. “The Void” é muito mais complexa e foi escolhida para mostrar o outro lado da minha abordagem à composição: as longas sagas com muitas reviravoltas. Estava bastante nervoso com “The Edge of Time” antes do lançamento porque não é tão complexa como as minhas músicas anteriores; achei que poderiam não gostar, mas felizmente o meu grupo principal de fãs parece ter gostado bastante. “The Void” tem sido a mais popular das duas, por isso a lição aqui é… mais complexidade [risos]!
HellHeaven: Houve também um vídeo de playthrough para “The Void”. Que tipo de lançamento achas mais importante hoje em dia: single, lyric video, videoclipe completo, vídeo ao vivo, playthrough…?
Graham: Pessoalmente, acho que um videoclipe completo é o melhor caminho. É algo que sempre quis fazer, mas nunca tive condições para o suportar. O meu orçamento para a produção de álbuns é zero, por isso preciso de reunir o máximo de recursos possível por conta própria. Isto significa criar eu todo o conteúdo que consigo, como lyric videos e playthroughs. Acho que um videoclipe completo é muito mais envolvente para os ouvintes, pois conta a história da música visualmente mais facilmente do que lyric video. Penso que, se existe uma abordagem punk ao metal progressivo, então os TVHS são a personificação disso!
HellHeaven: Ao contrário dos álbuns anteriores, que se focavam mais na sociedade, «Call Of The Void» está mais centrado na tua identidade pessoal. Podes falar mais sobre a sua inspiração?
Graham: Quando estava a compor o álbum, tive muitas ideias conceptuais, mas nenhuma delas me convenceu. Pareceu-me ser então o momento certo para contar a minha própria história e tribulações, falando sobre os momentos cruciais que me moldaram enquanto pessoa e artista. Cada música foi escrita em torno desta ideia. A mensagem geral é positiva: por mais que a vida nos deite abaixo, há sempre uma forma de ultrapassar e fazer algo positivo acontecer. Claro que, para chegar a esse ponto, é preciso sofrer. Inspirei-me muito no jogo "Dark Souls", no qual morres repetidamente até aprenderes a superar o desafio. Pareceu-me análogo à vida. Assim, escrevi sobre as minhas batalhas contra a ansiedade, a depressão, a insegurança, a síndrome do impostor e todos estes obstáculos que nos podem impedir de alcançar coisas. Esperava que ajudasse alguém por aí a perceber que também pode superar as suas próprias dificuldades. Muitas pessoas gostaram dos meus álbuns anteriores, mas não faziam ideia do que as músicas significavam, [risos], por isso quis ser menos enigmático e muito mais aberto emocionalmente.
HellHeaven: A dada altura, a música deixou de ser um hobby para ti e passou a ser uma necessidade. Encara-la como uma ferramenta de catarse? Na prática, como é que isso afectou a abordagem à composição? Sentes que isso alterou o equilíbrio entre o virtuosismo técnico e a melodia/emoção?
Graham: Sim, acho que é uma forma de catarse. Estou constantemente a compor, principalmente quando estou longe do estúdio ou dos instrumentos. Definitivamente, houve uma abordagem deliberada em relação aos sons utilizados nas músicas. Tinha tendência a afastar-me dos sons de sintetizador "Disney" e optava por texturas mais ásperas e sombrias. "The Edge of Time" é um bom exemplo disso; esta música poderia facilmente ter o dobro da duração (tinha tantas ideias escritas), mas não faziam sentido em termos da narrativa lírica sobre o sofrimento com problemas de ansiedade. A ansiedade é algo que realmente se sente fisicamente, por isso queria que a música "parecesse" muito física, um pouco insistente, se é que isso faz sentido. Sempre acreditei em refrões melódicos fortes; não adianta ser extremamente técnico só por ser técnico. Penso que as melhores bandas do mundo progressivo sempre souberam trilhar este caminho com mestria.

HellHeaven: Vários títulos fazem referência ao vazio (void) e a "caminhar pelo fogo", mas o álbum termina com a faixa "Distant Lights of Home". Dirias que o álbum é como uma viagem por um abismo sombrio apenas para encontrar um lar/esperança novamente?
Graham: O Vazio, neste caso, refere-se aos aspetos negativos da nossa própria mente. As nossas más escolhas, vícios, procrastinação, autocrítica negativa, etc. O Vazio é uma espécie de ameaça sempre presente, que não faz mais do que tentar fazer-nos render e, como diz Dark Souls, "tornar-nos ocos". Existem diferentes narrativas em torno deste conceito no álbum. "Fractured" fala sobre o dia em que soube que o meu irmão tinha falecido; aborda a perda da inocência. Uma música como “Holding on to Forever” fala sobre agarrarmo-nos à mais ténue esperança. No fundo do desespero, acho que precisamos de algo que nos guie para fora dele! “Distant Lights” fala sobre o afastamento de pessoas que exercem uma influência negativa e sobre o luto envolvido neste processo. Mas sim, depois desta resposta tão longa [risos], pode definitivamente ser descrita como uma viagem em direção à esperança.
HellHeaven: Embora TVHS continue a ser um projeto pessoal, muitos dos músicos regressaram de álbuns anteriores. Poderia dizer-se que o projeto se tem tornado mais colaborativo?
Graham: Em termos de composição, não. Eu escrevo todo o material, mas isso não significa que os músicos não possam dar o seu toque pessoal às músicas. É importante confiar nas pessoas com quem trabalho para que acrescentem o seu toque pessoal aos ritmos, harmonias vocais, etc. Estou incrivelmente grato a todos os envolvidos; merecem mais do que eu alguma vez poderia dar, porque dedicaram o seu coração e a sua alma a este material.
HellHeaven: Embora a sonoridade continue inegavelmente progressiva, também notei uma abordagem mais virada para o groove em alguns momentos (talvez fazendo lembrar Karnivool ou Soilwork). Um momento específico que me ocorre foi a abertura de “The Edge of Time”. Achas que isso incitirá mais facilmente ao headbang? Como vês a evolução da sua música?
Graham: É uma honra ser mencionado ao lado de bandas tão incríveis! Espero que sim! Como disse, “The Edge” foca-se nas minhas batalhas contra a ansiedade (algo que felizmente já não enfrento!), por isso queria uma sensação muito primal e física para esta música; algo que fizesse mexer o corpo. É muito fixe que tenhas percebido isso! Espero ter melhorado como compositor, é esse o meu objetivo final. Adoro tocar, mas para mim sempre foi muito mais gratificante compor uma música. É óptimo ouvir reacções como “Adorei o solo”, mas é sempre muito melhor ouvir algo como “Esta música é fantástica!”. Em termos de evolução, penso que melhorei a minha capacidade de saber quando explorar e quando não explorar. Nem todas as músicas têm de ser longas. Nos álbuns anteriores, sentia sempre que tinha de provar o meu valor e as coisas tornavam-se demasiado complexas. Mais uma vez, este equilíbrio é muito importante.
HellHeaven: Alguns momentos do álbum (por exemplo, em “The Tide” e “Ignite”) têm influências orientais. Esta abordagem progressiva de integração das diferentes tradições mundiais trata realmente a música como uma linguagem universal. Contudo, dado o clima cada vez mais polarizado de hoje, preocupas-te que esta abertura possa atrair acusações de “apropriação cultural”?
Graham: Não é algo com que me preocupe. Por exemplo, a música tradicional irlandesa é celebrada em todo o mundo e recebemos músicos de quase todas as nações que vêm aprender a tocá-la. Para mim, quando ouço pessoas a celebrar a cultura irlandesa, é uma honra.
HellHeaven: “The Edge of Time” foi separada em duas, porque apresentá-las consecutivamente, ou até como uma única peça maior? Achas que o público moderno já não tem capacidade de atenção para acompanhar músicas longas?
Graham: Queria-as assim separadas, sem dúvida. Ambas foram escritas sobre momentos cruciais da minha vida, mas por razões diferentes. Musicalmente, não têm muito em comum, mas conceptualmente estão muito ligadas. A primeira refere-se àquela sensação de esperar por alguma certeza terrível que nunca chega quando se está em pânico. A segunda parte é sobre uma experiência que tive e que não consigo quantificar com exactidão, como uma espécie de experiência extracorporal. Ambas foram coisas que me mudaram, mas de formas diferentes. Gosto de pensar nelas como "ordens de marcha", sabes, para tentar fazer algo significativo com o meu tempo. Pode parecer estranho dizer isto, mas nunca mudaria as batalhas que travei contra a ansiedade. Moldaram quem sou hoje e, sem elas, talvez nunca tivesse escolhido este caminho louco da criação musical. Penso que os fãs deste estilo de música ainda têm a capacidade de atenção necessária, mas provavelmente estão relutantes em ouvir bandas mais recentes. Não tenho a certeza. Pessoalmente ouço música nova a toda a hora, mas provavelmente sou de uma estirpe diferente [risos]. A geração mais nova talvez não, mas acho que há uma fome por algo significativo lá fora. Vejo isso em alguns dos meus alunos de guitarra; o scroll infinito e o conteúdo vazio não tem alma. Espero que ainda haja uma “saudade” da música com significado por aí.

HellHeaven: Falando de música nova, e considerando que a proliferação de algoritmos não dá destaque a muitas bandas novas, gostava então de te pedir que mencionasses algumas bandas (de qualquer género ou país) que os leitores possam descobrirem.
Graham: Neste momento tenho estado a gostar dos Evergrey, uma banda irlandesa chamada Tryste, Craven, Carpenter Brut e Haken, mas imagino que a maioria dos vossos leitores conheça a maioria destas bandas [risos].
HellHeaven: Referiste que, quer estejas a tocar para dez pessoas ou para dez mil, a motivação permanece a mesma. Numa época em que o sucesso é frequentemente medido por números de streaming, como o defines pessoalmente? E, tendo em conta que já passaram quase 16 anos desde o início do projecto, quais foram os melhores e piores momentos?
Graham: Essa é uma pergunta muito difícil! Para mim, o sucesso é medido pela forma como a minha música afeta as pessoas. Não vou ganhar dinheiro com isto a não ser que haja uma mudança radical no que é popular [risos]. Por exemplo, um grande apoiante do meu trabalho aqui na Irlanda faleceu antes do lançamento do álbum. Nunca chegou a ouvi-lo, mas um membro da família escreveu-me a dizer que o álbum os ajudou a sentir alguma coisa. Normalmente sou muito exigente comigo mesmo depois de lançar música, mas aquele comentário fez com que tudo valesse a pena. Esse é o maior sucesso de todos para mim. Felizmente, não houve muitos momentos difíceis! Um dos melhores foi ser entrevistado pela revista Metal Hammer. Não conseguia acreditar que me queriam entrevistar a mim, um completo desconhecido.
HellHeaven: Obrigado pela disponibilidade. Por fim, que mensagem deixas aos teus fãs/nossos leitores em Portugal?
Graham: Gostaria de vos convidar a dar uma oportunidade ao álbum! Estou muito grato a cada um de vós por ouvirem. Um enorme obrigado da Irlanda!