(Entrevista) BURACO NEGRO - "“é no underground que ainda se encontram muitas das verdadeiras pérolas da música atual”

Victor Ferreira (LordSir7Peles), de Buraco Negro, fala do álbum «53 490 000 Anos Luz» à HellHeaven. Entrevista de João Gama.

HellHeaven: Olá, e parabéns pelo novo projecto intitulado Buraco Negro e pelo vosso disco de estreia «53 490 000 Anos Luz». Como estão a banda e o álbum a ser recebidos?
LordSir7Peles: Antes de mais, obrigado pela entrevista e divulgação do meu trabalho. Surpreendentemente, estamos a receber um excelente feedback do álbum. Confesso que as minhas expectativas eram baixas, pois não acreditava que, no ritmo frenético em que vivemos hoje, o público dedicasse tempo a ouvir faixas com mais de dez minutos. Felizmente, estava totalmente enganado e tem sido uma óptima surpresa.

HellHeaven: Tendo em conta outros projectos teus mais pesados, Buraco Negro é uma surpresa. O que motivou esta “mudança” de rumo?
LordSir7Peles: Sim, noutros estou mais ligado ao death, black e thrash metal, até porque são os géneros que mais me dizem actualmente enquanto ouvinte e músico. Mas já não sou propriamente um miúdo, e as minhas raízes musicais vêm de mais longe. Cresci muito influenciado pelo rock psicadélico e progressivo dos anos 70, e pelo hard rock dos anos 80. Embora já não ouça essas sonoridades com a mesma frequência, continuam a fazer parte de mim enquanto músico, e sempre estiveram no meu percurso. Por isso, Buraco Negro não representa uma mudança definitiva de rumo, mas sim mais uma das minhas facetas.É uma oportunidade para explorar outros que me influenciam e de lhes dar voz de uma forma mais assumida.

HellHeaven: O projecto foi criado em 2023 com o Carlos Pires. Qual é a história destes três anos?
LordSir7Peles: O projeto foi idealizado por mim, pois queria fazer algo diferente há algum tempo. Não tinha uma ideia definida do que queria, nem gosto de planear demasiado as coisas; prefiro deixar as ideias fluir naturalmente e ver onde levam. Quando comecei a trabalhar com o Carlos, a intenção era criar algo essencialmente instrumental e ambiental. Fomos construindo ambientes através de samples e teclados. A música ganhou forma de maneira orgânica e fomos adicionando novas camadas naturalmente, e o projeto foi assumindo a sua identidade. Passaram anos devido a esta abordagem, sem pressas nem objetivos rígidos. Fomos desenvolvendo tudo ao nosso ritmo, deixando que a música nos mostrasse o caminho.

HellHeaven: O álbum também conta com José Martins no saxofone. Fala-nos do seu papel?
LordSir7Peles: O José surgiu já numa fase mais avançada. Apesar de estarmos satisfeitos, sentía que ainda faltava algo para fechar. Um dia, estávamos no estúdio/escola Espaço ComCordas do Carlos, onde gravamos, e o José apareceu entusiasmado para mostrar o novo saxofone. Aí fez-se luz: “É isto que falta!”. Desafiámo-lo a improvisar sobre algumas das faixas já gravadas. Foi literalmente colocar as malhas a tocar, começar a gravar e deixá-lo seguir o instinto. É incrível que muito do que se ouve foi registado logo no primeiro take. A espontaneidade desse momento acrescentou exatamente a dimensão que faltava e tornou-se uma peça fundamental da identidade do álbum.

HellHeaven: Usaram uma grande variedade de instrumentos no disco. O próprio saxofone cada vez mais surge em contextos avant-garde e progressivos. Como foi a escolha dos instrumentos?
LordSir7Peles: As coisas são sempre bastante simples. Nós, humanos, é que complicamos tudo. Já tenho problemas suficientes no dia a dia; a música é um escape. Não faz parte do problema, faz parte da cura. A nossa abordagem é muito direta: experimentamos. Se soa bem, fica. Se não, segue-se para outra coisa sem complicações. O saxofone surgiu exatamente dentro dessa lógica. É um instrumento de que gosto particularmente e cuja sonoridade sempre me fascinou. Também gosto muito de violino, mas na altura não apareceu ninguém com um debaixo do braço... e, além disso, os My Dying Bride ainda nos acusavam de plágio! [risos] O saxofone apareceu no momento certo, trazendo uma identidade própria e funcionou como elo de ligação a todas essas diferentes linguagens musicais. O mesmo se aplica aos teclados e às restantes texturas que fomos introduzindo. Cada instrumento foi escolhido porque acrescentava algo à música e ajudava a criar a atmosfera que procurávamos naquele momento.

HellHeaven: É por essa abordagem livre e improvisada que o álbum tem um pouco de tudo?
LordSir7Peles: Talvez sim! Desde o heavy metal ao jazz, passando por sonoridades mais ambientais, progressivas ou experimentais. Fomos experimentando sem limitações ou preocupações com rótulos, deixando que cada tema evoluísse de acordo como pedia. A identidade do álbum foi-se revelando à medida que as composições ganhavam forma. Apesar da complexidade e da variedade de linguagens musicais presentes na obra acho que tudo encaixou de forma natural. Curiosamente, acredito que foi essa liberdade criativa que lhe deu coesão. Apesar da diversidade de influências e abordagens, tudo soa parte do mesmo universo porque nasceu da mesma visão e da mesma vontade de explorar sem preconceitos. Se ao final existe um conceito, ele foi surgindo naturalmente do a partir do próprio processo criativo e não o contrário.

HellHeaven: Muitas vezes contrapõe-se a inovação dos 70s à actual. Mas talvez a ousadia se esconda no underground onde surgem projectos como este. Como vês o estado da criatividade musical?
LordSir7Peles: Sem dúvida é no underground que ainda se encontram muitas das pérolas da música atual. E não falo apenas de heavy metal. Nesses nos circuitos menos expostos ainda existe liberdade para arriscar, experimentar e criar sem a pressão constante dos números, das tendências ou dos algoritmos. Seria injusto dizer que todo o mainstream é mau. Mas muito do que domina o mercado actual parece ser produzido com o objetivo claro de gerar consumo e retorno financeiro rápido. Sinto-lhe uma falta de identidade, personalidade e vontade de arriscar; repetem-se fórmulas. Para mim, a criatividade nasce precisamente quando te estás a lixar para modas e tendências. Cria-se algo genuíno, apesar de muitas vezes ficar invisível ao grande público. Nunca ambicionei rockstar nem de fazer digressões financeiramente rentáveis. Não faço música a pensar em estatutos, números ou validação externa. Faço-a porque gosto, porque me diverte e é uma forma de expressão que me acompanha há muito. Se houver quem goste do resultado, tanto melhor. 

HellHeaven: O disco é uma viagem musical, espacial e temporal. De modo literal aborda uma viagem em direcção ao buraco negro encontrado na galáxia Messier 87, correcto? E simbolicamente, é uma viagem de autodescoberta, como a expressão do “olhar para o abismo” (neste caso buraco negro)?
LordSir7Peles: Excelente interpretação. Fico satisfeito por perceber que captaste muito da sua essência. Nessa leitura literal, o título e os nomes das músicas apontam para essa viagem em direção ao tal buraco negro. É uma série de etapas de um percurso que atravessa espaço, tempo e consciência. Pessoalmente, existe também uma dimensão simbólica que acaba por ser a mais importante. Sem dúvida sobre autodescoberta: uma viagem interior com quedas e recomeços, derrotas e vitórias, momentos de dúvida e clareza. Como acontece na vida, avançamos sem saber o que encontraremos, mas seguimos em frente. Assim, a ideia de olhar para o abismo está bem presente em todo o percurso. Há uma confrontação constante com o que somos, com os nossos medos, limitações e contradições. O objetivo não é fugir desse confronto, mas aceitá-lo como parte do caminho. O buraco negro representar o culminar de tudo isso, sendo simultaneamente um destino inevitável, um ponto de transformação e uma incógnita. Não sabemos o que existe para lá do horizonte, tal como desconhecemos muito do que existe nas zonas mais profundas da nossa própria consciência. Acabo por vê-lo até como uma viagem existencial. Uma jornada ao desconhecido, onde a consequência final é inevitável: mais cedo ou mais tarde, acabamos por encarar o nosso próprio abismo.

HellHeaven: Ao empregar a guitarra acústica, a faixa de abertura tem um certo sabor luso. Serviria como um ponto de partida para esta viagem. Parece também ter um cariz nostálgico associado ao passado, que se traduz no seu título. Estou a sobre-interpretar as ideias que pretendiam transmitir?
LordSir7Peles: Não, de todo. Estás certíssimo. Nada foi deixado ao acaso. A guitarra acústica, a língua portuguesa, o título "Cápsula do Tempo" e até a intro com o som de uma cassete a rebobinar foram escolhas intencionais. A ideia era precisamente transmitir essa sensação de viagem ao passado, regressando à origem antes da grande jornada que o álbum propõe. Funciona como o ponto de partida da narrativa. Antes de nos lançarmos ao desconhecido, há um olhar para trás; um reencontro com memórias, influências, raízes e momentos que nos moldaram. Daí esse carácter nostálgico. A sonoridade mais orgânica e a presença da guitarra acústica ajudam a criar essa ligação a algo mais terreno, humano e, como referes, com um certo sabor lusitano. É quase como se estivéssemos a partir de casa antes de embarcar numa viagem sem retorno. Curiosamente, foi a segunda música que compusemos para o álbum e, até considerei deixá-la de fora. Parecia-me demasiado simples e direta, e menos experimental que as outras. Mas com o evoluir do álbum e do conceito, percebi que era essencial. Precisamente por ser mais simples, próxima e emocional, acabava por desempenhar um papel fundamental de porta de entrada na narrativa.

HellHeaven: A arte do álbum é bastante atraente. O que podes revelar sobre a sua concepção?
LordSir7Peles: Tenho de confessar que sou um impostor. [risos] Estando envolvido em tantos projetos, torna-se humana e financeiramente impossível suportar os custos de trabalhar com um artista original. Tenho de trabalhar com as ferramentas disponíveis, e recorri à inteligência artificial para começar. Depois houve todo um trabalho de seleção, ajustes e aperfeiçoamento de detalhes até chegar ao que procurava.
Mas há uma pessoa que merece um destaque especial: o Vasco Reigota, da Prophetical Records. Ele foi responsável por criar o logótipo, e fez um trabalho excelente. Grande parte da identidade visual do projeto passa por esse trabalho e o mérito é inteiramente dele.
A imagem retrata um contra-torpedeiro a navegar pelo universo infinito, ilustrando a viagem representada ao longo do álbum. O navio representa a perseverança perante a adversidade. Independentemente dos obstáculos, das tempestades ou da vastidão do desconhecido, continua a avançar. É também uma metáfora sobre a vida e os nossos percursos. A escala da imagem procura transmitir uma sensação de grandiosidade e insignificância em simultâneo. Somos apenas uma pequena embarcação perdida na imensidão do universo, mas ainda assim continuamos a seguir viagem. 

HellHeaven: Com o álbum a culminar em “Buraco Negro Supermassivo”, sentem que o projecto ficou encerrado ou estamos apenas perante o primeiro capítulo desta viagem?
LordSir7Peles: Espero que seja apenas o início. Se há algo que o próprio conceito do álbum nos ensina é que o universo é praticamente infinito e que existe uma imensidão de caminhos, mistérios e possibilidades por descobrir e explorar. É verdade que essa faixa funciona como um destino final no contexto do álbum. Gosto de pensar nela como uma porta para algo maior. Afinal, não se sabe o que existe além do horizonte de eventos de um buraco negro, e essa incógnita abre espaço a inúmeras possibilidades criativas. Agora estou focado em promover este trabalho para que o descubram e assimilem. É muito cedo para falar do futuro, mas ideias não me faltam. A vontade de explorar novas sonoridades, conceitos e destinos continua presente. Se o futuro permitir, há muito universo para navegar e muitas histórias para contar dentro deste projeto.

HellHeaven: E haverá oportunidade de ver «53 490 000 Anos Luz» apresentado ao vivo?
LordSir7Peles: Para já, não está nos planos. Para reproduzir fielmente tudo aquilo que acontece no álbum, provavelmente precisaria de levar uma pequena orquestra para palco! [risos] Há demasiados detalhes para que a experiência fosse realmente fidedigna. Sei que existem várias formas de contornar essas limitações através de recursos tecnológicos como samplers, etc. Respeito quem opta por esse caminho, mas a mim não me cativa. Talvez seja uma visão antiquada, ou o meu lado de velho do Restelo a falar, mas gosto de encarar os concertos como algo mais orgânico e executado em tempo real. Por isso, agora não vejo uma forma de apresentar o álbum em palco que me deixe verdadeiramente satisfeito. Assim sendo, os nossos três fãs terão de se contentar com o disco por enquanto! [risos] Mas nunca digo nunca. A vida já me ensinou demasiadas vezes que os planos servem sobretudo para serem contrariados. 

HellHeaven: Obrigado pela disponibilidade. Em relação a entrevistas, a que pergunta gostariam de responder mas nunca vos foi feita (e qual a resposta)? 
LordSir7Peles: “Fazendo música tão incrível e excelente como a vossa [risos], porque razão não são reconhecidos e idolatrados pelas grandes massas e pelos meios de comunicação social?”
Porque nunca fomos muito bons a jogar o jogo. Não temos grande jeito para relações públicas, seguir cartilhas, agradar a toda a gente ou vender uma imagem cuidadosamente construída em troca de instantes de vedetismo. Fazemos as coisas à nossa maneira, com total liberdade criativa, mesmo sabendo que isso raramente leva à exposição mediática. A realidade é que grande parte do underground existe precisamente porque há quem prioritize a autenticidade à popularidade. E isso tem um preço. Costuma significar menos visibilidade, oportunidades e reconhecimento fora dos círculos mais dedicados. Mas também significa independência e honestidade artística. Não fazemos música para conquistar as massas, mas sim porque nos preenche. No fundo, o reconhecimento que realmente valorizamos é o de quem sente a música como nós, que continuam a procurar genuinidade no underground, que apoiam projetos independentes e que escutam a música pelo que ela é, e não pelo número de seguidores ou pela grande campanha promocional. Para nós, esse reconhecimento vale mais do que qualquer moda passageira ou momento de fama instantânea.

HellHeaven: Por fim, que mensagem deixas aos vossos fãs/nossos leitores?
LordSir7Peles: Para todos os que nos acompanham e dedicam o seu tempo a consumir o que é feito com alma: espero genuinamente que este trabalho vos proporcione momentos de puro gozo, prazer e escape, e que consigam absorver cada detalhe que aqui foi deixado. O valor da arte independente não está nos números, mas sim na ligação real que cria com quem a aprecia. Por isso, continuem a apoiar o underground, comprem o merch, vão aos concertos, partilhem os zines, passem a palavra. A roda só continua a girar porque vocês estão aí. Saudações e muito obrigado!

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