(Entrevista) PROFANE BURIAL - "Somos do underground e é aí que estamos confortáveis"

HellHeaven: Começo por vos dar os parabéns pelo mais recente “Desolate Echoes of Turmoil”! Quais são os vossos pensamentos e expectativas em torno deste álbum?
Profane Burial: Obrigado! Estamos muito satisfeitos com a forma como o “Desolate Echoes of Turmoil” ficou! Como acontece com todos os discos, passamos demasiado tempo com o material, a questionar arranjos, a produção, as vozes, letras e todos os pequenos detalhes, por isso, quando o lançamos fica sempre aquela sensação deixar algo que fez parte da tua vida seguir o seu caminho. Pensamos que neste disco criámos algo que soa a Profane Burial mas, ao mesmo tempo, levámos a atmosfera e a escrita mais longe! É mais pesado e opressivo que o “My Plateau”, todo o disco tem a sua atmosfera e identidade e isso é importante para nós! Com esta banda não almejamos ser uma grande banda ou atingir algum marco comercial. Somos do underground e é aí que estamos confortáveis. Claro que é bom quando as pessoas descobre e falam sobre os nossos discos e se sentem ligadas ao que fazemos! Se o disco chegar a pessoas que entendam a atmosfera e as ideias do mesmo, então, o “Desolate Echoes…” já atingiu algo importante! 

HellHeaven: Este é o vosso, sempre difícil, primeiro disco. Sentiram algum tipo de pressão ou responsabilidade enquanto o faziam?
Profane Burial: Não diríamos que sentimos pressão no verdadeiro sentido da palavra! Claro que existe alguma responsabilidade quando já lançaste dois discos  e as pessoas já formaram uma ideia sobre como devemos soar, mas não queremos que essa expectativa seja uma limitação! A maior responsabilidade foi, talvez, sobre nós mesmos. Não queríamos fazer um “My Plateau” de novo, esse disco tem a sua identidade e fizemos o que queríamos nesse tempo, com o “Desolate…” queríamos ir para qualquer lado e deixar que a música se desenvolvesse de forma natural. O grande perigo do terceiro disco é que podes ficar demasiado consciente do que as pessoas esperam de ti, é aí que começas a pensar se a música é pesada o suficiente, rápida o suficiente ou que soe a algo que já se fez nos discos anteriores, esse é pensamento que procuramos fugir porque, se assim não for, corremos o risco da música perder a sua identidade! Também há a responsabilidade de garantir que há uma razão de ser para a existência do disco, não queremos lançar algo só porque sim! Por isso, existe responsabilidade mas não pressão, assim que começámos a trabalhar no álbum torna-se mais em deixar que a música siga a sua direção e nos leve!

HellHeaven; O “Desolate Echoes…” marca, também, o vosso período mais curto entre discos, depois do lançamento do “My Plateau” em 2024! Existiu algum pico de criatividade ou é um sinal de onde os Profane Burial se encontram actualmente como banda e músicos?
Profane Burial: É a combinação de vários fatores! Não lhe iríamos chamar um pico criativo! Todo o material apenas se juntou mais rápido desta vez e estávamos numa situação em que o podíamos trabalhar sem ter de esperar alguns anos até o gravar. Entre os dois discos parece existir um curto período mas existiu muito trabalho pelo meio. Ficámos mais familiarizados com a nossa forma de trabalhar e isso permitiu ganhar tempo! Em simultâneo crescemos como músicos e escritores e sabemos melhor o que queremos desta banda e isto não quer dizer que nos tenhamos fixado numa fórmula, antes pelo contrário, conhecer a fundação torna mais fácil de construir algo por cima. Os dois discos são muito diferentes, o “My Plateau” tinha um som mais Black Metal, com mais distorção, enquanto que o “Desolate…” é mais cheio, mais quente e massivo. Não nos transformámos em pessoas extremamente produtivas, apenas chegámos a um ponto em que tudo se juntou mais rápido! 

HellHeaven: De certa forma começaram a responder à minha questão, dado que o “My Plateau” era mais teatral. Sentiram a necessidade de fazer um disco mais negro e profundo?
Profane Burial: O disco anterior era mais teatral e mais Black Metal e, para este disco, queríamos algo mais interno e psicológico. Acho que a maior diferença tem a ver com o sitio de onde as ideias vieram. O novo material tem mais traição, colapso psicológico, decadência individual ou estar preso em algo que te está a destruir e isso acaba por levar a música para um local mais negro. Não queríamos fazer uma versão mais agressiva do “My Plateau”, queríamos uma agressividade diferente, que fosse menos uma força externa a atacar mas algo a crescer dentro de ti. Existe muita da identidade de Profane Burial mas a parte emocional mudou, é mais fria, claustrofóbica e leva para locais mais desconfortáveis.

HellHeaven: Com tudo isso que descreveram, onde se encontraram, mentalmente falando, para criar estes “ecos de desolação”?
Profane Burial: Estes ecos surgem das consequências das experiências que não desaparecem depois dos eventos acontecerem. Traumas, traições, ódio, culpa, conflito, tudo isso pode ficar dentro de ti e fazer eco durante muito tempo depois do silêncio. O disco não conta uma história linear, em vez disso os temas exploram diferentes aspectos de colapsos e existencialismos com a mente humana no centro de tudo mas com alguns elementos cósmicos e demoníacos que espelham o que está a acontecer internamente. Gostamos de pensar que todos esses elementos não são separados da experiência humana e que podem ser interpretados como manifestações de algo que já está dentro de nós. Este disco fala sobre o que aconteceu, coisas que foram feitas, coisas perdidas e da forma como podem moldar alguém depois desses eventos. 

HellHeaven: Com isso em mente, e olhando para o Mundo actual, torna-se mais fácil fazer um disco como o “Desolate…”? De alguma forma isso “facilita” na criação de música?
Profane Burial: Infelizmente não falta material para servir de base! O Mundo pode ser um local muito perturbador e há excesso de estupidez, violência, ambição e conflito há nossa volta! Mas o negrume nesta banda é pessoal, contudo o que acontece no mundo, certamente, que influência o nosso estado mental mas a musica não é um comentário aos eventos actuais. Estamos mais interessados no lado negro da natureza humana, essas coisas não mudam assim tanto! As pessoas podem criar sociedades mais avançadas e tecnologias, mas continuamos a carregar um instinto destrutivo dentro de nós e, numa forma estranha, isso torna os temas intemporais! Por isso sim, o mundo pode dar inspiração mas não diríamos que o caos torne a escrita mais fácil, por vezes até torna mais difícil separar o que queres expressar de todo ruído à tua volta! 

HellHeaven: O disco anterior foi lançado pela Crime Records e o novo tem selo da These Hands Melt. Como se sentem na vossa nova “casa”?
Profane Burial: Todas as editoras têm a sua forma de trabalhar, a sua rede e as forças e fraquezas! Aprendemos muito com todas as editoras com quem trabalhámos  e temos uma ideia muito mais clara do que podemos esperar de uma editora e de como podemos contribuir. Este lançamento também teve alguns desafios logísticos, em particular com os formatos físicos! O mais importante para nós é que o álbum foi lançado e as pessoas já o podem descobrir.

HellHeaven: Estão numa espécie de segundo capítulo na vossa carreira. Como olham para o vosso percurso e qual poderá ser o próximo passo nos Profane Burial?
Profane Burial: Achamos que ainda estamos no processo de perceber até onde este caminho nos vai levar! Nunca existiu um grande plano! A banda formou-se em 2013 e temos vindo a crescer de forma gradual ao longo dos anos. Cada álbum tem sido um passo em vez de ter uma estratégia planeada! O que sabemos é que não queremos repetir mo próximo álbum algo que já tenhamos feito. Já existem algumas ideias para o próximo disco e estão a seguir uma direção, ainda, mais estranha! Existem elementos que tínhamos a intenção de entrar num outro projecto mas que encontraram o seu caminho nos Profane Burial. Também temos trabalhado numa peça longa que vai entrar em terrenos mais atmosféricos e num espaço mais cósmico. O objectivo não é fazer algo mais “pesado” ou “rápido”, queremos qye a música seja uma jornada e que seja se possa descobrir novos detalhes a cada audição. Queremos continuar a criar desafios a nós mesmos sem perder a nossa identidade. Se o próximo disco sair mais imprevisível e psicologicamente perturbante que os antecessores, vamos considerar isso uma boa direção! 

HellHeaven: Qual a vossa mensagem para os vossos fans em Portugal?
Profane Burial: Antes de tudo, agradecer a oportunidade e atenção pelo que se passa no underground norueguês! Portugal tem uma tradição Metal e audiência muito apaixonada e é sempre bom ver pessoas de outras partes do globo ligarem-se com a música criada num outro ambiente! Não esperem que sejamos uma banda que segue modas para agradar, vamos continuar a fazer a música que achamos correta para nós, mesmo que isso signifique seguir uma estrada mais estranha e obscura. Ouçam o novo disco, de preferência quando tiverem um tempo sozinhos e possam mergulhar no disco! Obrigado por manterem o underground vivo! 

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