HellHeaven: Olá! Parabéns por «The Theatre of Existence». Como está a ser recebido?
Matt: Tem sido uma experiência incrível e que nos deixa humildes. Dedicas-te e trabalhas tanto em algo sem saber como irão reagir, e agora que o álbum saiu as pessoas estão a ser tão simpáticas... Tem sido realmente incrível.
Andy: Tem sido bastante avassalador, na verdade. Podes esperar que gostem, mas até realmente lançares o disco, nunca saberás realmente como será recebido. Tem sido bastante gratificante.
HellHeaven: Antes de continuar com o álbum, gostaria que nos falassem da história da banda.
Matt: Tudo começou em 2015, quando trabalhava num programa de televisão numa ilha ao largo da costa do Panamá. A ideia surgiu quando alguém me perguntou porque não tinha uma banda. Procurei outros músicos, já tendo uma ideia clara do que queria, tanto em termos musicais como de estrutura. Sabia que queria uma vocalista feminina e tocar um metal sinfónico com outros elementos menos explorados. Depois de alguns anos a experimentar e a trocar de músicos, em 2017 juntaram-se a nós o Hugo (baterista) e o Jamie (baixista) e começámos a dar concertos.
Andy: Eu entrei no final de 2018 e tive o raro privilégio de ser fã dos Tales of Perdition antes de me juntar a eles. Acabei por fazer a primeira parte de um concerto da banda, numa altura em que as agências de concertos de Londres não se preocupavam muito com os géneros musicais. O Matt disse-me que, se tocasse guitarra de sete cordas, convidar-me-iam para a banda. Voltou a contactar-me depois de nos cruzarmos mais algumas vezes. Aceitei o desafio e entrei na mesma altura que a vocalista anterior, Maria. Foi interessante passar de fã a membro da banda e acompanhar a sua evolução por dentro.

HellHeaven: Falavas da Maria, porém a vossa vocalista actual é a Alea. Como a encontraram?
Matt: A banda já teve três vocalistas. A primeira era uma amiga e foi a primeira a interessar-se pelo que fazíamos. Depois tivemos a Maria, que esteve connosco durante alguns anos e gravou o EP. Entretanto, a pandemia mudou tudo. Já conhecíamos a Alea e quando começámos a procurar uma nova vocalista, ela abordou-nos e perguntou se podia fazer uma audição.
Andy: Tocámos numa competição de metal, em que várias bandas competiam pela oportunidade de actuar num festival. A Alea participou com a outra banda dela e foi também nessa altura que conhecemos a London Metal Coalition. Quando se juntou, ela trouxe uma energia e um entusiasmo diferentes e já conhecia algumas das nossas músicas, por nos ter visto ao vivo. Percebia-se que tinha interesse genuíno e mergulhou de cabeça no projecto. Foi perfeito!
HellHeaven: Em relação às batalhas de bandas e à London Metal Coalition (LMC), como é que isso vos tem favorecido?
Matt: Fazemos parte da LMC, um colectivo de bandas independentes de metal que procura promover a colaboração, partilhar conhecimentos e informação, apoiar os concertos uns dos outros e criar uma sólida network. Assim que soubemos da sua existência, quisemos logo fazer parte e foi a melhor decisão que tomámos. Conhecemos grandes amigos e muitas outras bandas, incluindo a Alea. Organizamos concertos e eventos em conjunto, e, no final de Agosto, há um festival anual. É também uma excelente forma de conhecer pessoas de outras áreas da indústria, como fotógrafos, editores de vídeo e jornalistas. Vale a pena salientar que não há dinheiro nisto. Se todas as bandas competirem entre si, ganha quem gastar mais e fizer mais barulho. Faz mais sentido trabalharmos em conjunto, sobretudo numa época em que o streaming e as redes sociais parecem dominar tudo. Preferimos apoiar os outros e receber esse apoio em troca.
Andy: Antes da pandemia, a cena era bastante competitiva e as bandas pouco se ajudavam, pois todos buscavam os lugares de destaque. Depois da pandemia, algumas começaram a questionar essa atitude. Embora os eventos da LMC não nos tenham trazido directamente muitos concertos (além das eliminatórias da competição), as bandas que aí conhecemos abriram-nos muitas outras portas. E como o dinheiro não é o principal objectivo, os lucros de eventos como o Coalition Fest podem ser investidos na contratação de bandas maiores, que atraem público novo. Adoro os The Hell e nunca pensei vir a partilhar um cartaz com eles – uma oportunidade que surgiu graças à LMC. O mais importante é tocar com bandas que admiramos e apoiarmo-nos mutuamente. Deveríamos fazer um franchise da LMC [risos]. Seria bom ter um intercâmbio internacional, e penso que já se discutiu uma parceria com os EUA.

HellHeaven: E para fugir a esse viés do streaming, recomendem algumas bandas mais jovens ou menos conhecidas para os nossos leitores descobrirem.
Matt: Da LMC, recomendo os Tempest Saint, uma banda de rock com excelentes vocalistas e músicos muito porreiros, e os Open Sight, que têm uma estética inspirada nos filmes de terror dos anos 50/60 e uma sonoridade muito própria, com influências de bandas como Queens of the Stone Age e System of a Down. Fora desta comunidade, descobri recentemente os Seven Spires e fiquei completamente impressionado. No final do concerto, fui logo comprar uma T-shirt.
Andy: Há uma banda do norte de Inglaterra chamada LN que é absolutamente fenomenal. Vimo-los ao vivo e também tivemos a oportunidade de tocar com eles em Cambridge, juntamente com os Stormborn, que têm uma sonoridade muito Judas Priest. Recomendo também os Hemlock, com quem tocámos recentemente: são excelentes músicos e muito divertidos. Da LMC, destaco ainda os Call of Fenrir, que lançaram recentemente o álbum de estreia e têm uma sonoridade de death metal com temática viking. Por fim, recomendo Noctule, o projecto a solo de Serena Cherry, vocalista dos Svalbard. É um trabalho de black metal atmosférico inspirado em vídeojogos como Elden Ring e Skyrim. A forma como constrói todo aquele universo musical é fantástica. Espero que consiga reunir uma banda para chegar aos palcos, porque não consigo parar de ouvir o álbum.
HellHeaven: E para além desse reconhecimento entre bandas, sentem que já começam a ter uma base de fãs?
Andy: Durante muito tempo, era habitual ver amigos nossos na audiência. Aos poucos, começámos a reconhecer caras que apareciam em vários concertos, mas que não eram amigos de nenhum de nós. Também temos visto bandas que conhecemos através da LMC aparecerem nos nossos concertos por gostarem da nossa música, e não apenas por amizade. No concerto de apresentação do álbum, no mês passado, estava nervoso por não saber quantas pessoas apareceriam, mas tivemos uma adesão fantástica. Havia muita gente que não esperava ver. Até houve uma rapariga dos EUA, que estava a viajar por Inglaterra e quis assistir a um concerto de metal em Londres antes de partir. Acabou por vir ao nosso!Como a maioria dos nossos concertos é em Londres, é natural vermos muitas vezes as mesmas pessoas. Mas, quando tocamos fora da cidade, esses reencontros têm outro significado. Já tocámos duas vezes em Cambridge e, na segunda, estava lá quem nos tinha visto na primeira e quis voltar.
Matt: Tem sido uma evolução lenta, até porque sabemos que este género não é dos mais populares, embora haja cada vez mais interesse. Ao longo destes dez anos, temos tentado chegar ao maior número possível de pessoas, sabendo que o reconhecimento leva tempo. Já fui reconhecido uma vez, quando dois tipos se aproximaram e me perguntaram se eu era o Matt dos Tales of Perdition. Fiquei embaraçado, mas também achei incrível! Foi uma sensação estranha, mas muito gratificante.
HellHeaven: Falemos do álbum «The Theatre of Existence», consideram-no um trabalho conceptual?
Matt: Não diria que seja. O álbum é uma espécie de diário e reúne músicas em que trabalhamos durante estes dez anos. “The Theatre of Existence” era, na verdade, o título de uma música antiga que nunca chegámos a concretizar, mas que me ficou na memória. Acho que é uma boa metáfora para a própria existência, sobretudo hoje em dia, em que somos quase avatares na Internet, todos a representar o nosso papel no palco do mundo.
Andy: Exactamente. Embora não exista uma ligação conceptual directa entre todas as músicas, o título resume bem a nossa perspectiva e a ideia de contar a história da banda até agora. O álbum percorre diferentes fases, desde temas mais antigos até canções recentes. Por exemplo, «Diary of the Paranoid» é uma música bastante antiga, enquanto «A Universe Away» só foi tocada ao vivo pela primeira vez no concerto de apresentação do álbum.
HellHeaven: É interessante referires que «Diary of a Paranoid» seja uma das músicas mais antigas, porque foi a que mais me agarrou no álbum. O que acham que a torna tão especial?
Andy: Foi uma das músicas que me conquistou quando conheci a banda como fã, e fico contente por gostares. É também uma das músicas a que as pessoas mais voltam e que une ouvintes com gostos musicais diferentes. Tem um riff viciante e várias secções que mantêm o interesse.
Matt: É engraçado como as pessoas se queixam de algumas músicas serem demasiado longas, mas esta é uma das que mais se destaca, apesar de ter cerca de oito minutos.
Andy: Até temos reparado que muitos ouvintes preferem músicas longas. Antigamente, até gozavam connosco: «Não podem escrever algo mais curto?» Mas isso acontecia quando o metalcore moderno estava no auge e se procuravam músicas cada vez mais curtas. Percebemos que não iríamos fazer esse tipo de música e que quem gosta realmente de nós costuma gostar de Iron Maiden, que não são conhecidos por escreverem músicas curtas. Eu e o Matt alternamos na composição: sou melhor a escrever músicas mais curtas e essa tem sido a minha tendência. Mas, quando fazemos músicas longas, não estamos a falar de doze minutos de repetição constante de verso e refrão, como numa música da Taylor Swift. Queremos que os temas evoluam, com várias secções diferentes, mantendo o ouvinte curioso sobre o que se seguirá e evitando a monotonia. Não alongamos as músicas só porque sim. Correndo o risco de soar pretensioso, duram o tempo que precisam de durar.
HellHeaven: Acabou por ser uma surpresa que tendo vários singles “Diary…” não seja um deles. Querem comentar?
Matt: No geral, escolhemos os singles entre as músicas que ainda não tínhamos lançado. Já tínhamos editado «Diary…» e queríamos dar a conhecer outros temas. Temos algumas ideias para um vídeo de «Diary…», mas ainda não posso garantir que se concretizem. Para o lançamento do álbum, quisemos apostar em músicas mais curtas e directas, que também servissem de incentivo para ouvir o álbum completo. «Reignite», por exemplo, acabou por se tornar uma das nossas músicas mais ouvidas, o que nos surpreendeu bastante e nos deixou muito satisfeitos. Nunca podemos ter a certeza absoluta do que devemos fazer; no fundo, tentamos tomar a melhor decisão possível. De qualquer forma, continuo satisfeito com tudo o que lançámos.
HellHeaven: Gravar e produzir o álbum por conta própria pode ser um desafio, mas também pode ter o seu lado divertido. Como foi a vossa experiência?
Matt: Tivemos liberdade para fazer tudo à nossa maneira, mas foi um processo exigente. Como não tínhamos orçamento para passar muito tempo num estúdio, fizemos tudo nós próprios, aproveitando os conhecimentos do Hugo. Fizemos muitas gravações em casa e recorremos a plugins para criar sonoridades que, de outra forma, exigiriam uma orquestra. Não me arrependo de nada, mas o álbum acabou por demorar dois anos e meio, em vez do ano que tínhamos previsto.
Andy: O Hugo provavelmente não concordará com o lado divertido [risos]. Também foi fascinante acompanhar a evolução do Hugo como produtor ao longo destes dez anos. Todos os nossos lançamentos foram produzidos por ele, e o seu trabalho tem melhorado a cada álbum. Tem motivos para se orgulhar do resultado.

HellHeaven: E quem ficou a cargo das orquestrações?
Matt: Eu e o Hugo trabalhamos em conjunto. Primeiro, eu estruturo os arranjos orquestrais e depois ele desenvolve as ideias. Eu sou melhor a improvisar enquanto ele tem formação clássica. Complementamo-nos muito bem.
Andy: Temos a sorte de contar com um baterista que, além de ser excelente na produção, tem formação clássica. Quando nos envia apenas a parte orquestral o resultado parece uma banda sonora de cinema. É uma das etapas de que mais gosta, sobretudo pela liberdade experimental – por vezes, até introduz discretamente alguns samples para ver se damos por isso [risos]!
HellHeaven: Mencionaram Tales of Perdition como metal sinfónico. Contudo há aqui algo fora do convencional: não há a típica vocalista operática e muito do instrumental parece ter influência no heavy metal. Como vêm a vossa identidade?
Andy: É uma questão com que temos sempre dificuldade, porque temos influências muito diversas. Como o Matt costuma dizer, somos uma versão mais pesada de Nightwish e mais leve que Epica. Mas há bem mais, e não queremos limitar-nos a essas referências. Também falamos de NWoBHM porque as pessoas identificam frequentemente a influência dos Iron Maiden. Fico contente que tenhas achado refrescante a ausência de vocais operáticos, e curioso sobre como nos definirias.
Matt: Sempre valorizei a tradição do heavy metal. A música que fazemos resulta simplesmente do tipo de canções que me surgem na cabeça e que quero compor. Combinamos várias influências e acho que funciona, embora outros possam discordar.
HellHeaven: Além dos vários subgéneros, vocês também têm um lado mais nerd, com músicas inspiradas em vídeojogos. Sentem que o metal é uma comunidade inclusiva ou ainda persistem estereótipos e algum tribalismo?
Andy: Acho que é uma mistura. Sobretudo em Londres, o metal é quase uma grande família: basta ver alguém com uma T-shirt de uma banda de que gostamos para sentir uma ligação imediata. Ainda no outro dia o revisor no comboio tinha uma tatuagem de HIM e foi o suficiente para começarmos a falar! Apesar de a cena ainda poder parecer intimidante para quem está de fora, é muito mais inclusiva do que antigamente. A LMC é um bom exemplo, tal como as Metal Valkyries, que promovem a participação de mulheres e pessoas não-binárias, e a London Metal Pride, cujas iniciativas permitem também ultrapassar o estereótipo do macho-man. A diversidade musical também é enorme, e haverá sempre quem critique as bandas escolhidas para festivais, não representando necessariamente a maioria. Em festivais vemos pessoas de origens muito diferentes unidas pelo gosto pela música, mesmo que não ouçam as mesmas bandas. Para mim, o metal sempre foi acolhedor e ajudou-me a encontrar pessoas com quem me identifico, incluindo os membros dos Tales of Perdition.
Matt: O metal sempre foi importante para quem se sentia deslocado ou não encontrava o seu lugar. Talvez por muitos de nós termos passado por isso, exista uma maior disponibilidade para ouvir e apoiar os outros. Também há uma ligação natural entre o metal, a fantasia e os videojogos, porque todos permitem explorar outros mundos. Sou um fã de videojogos e Bloodborne inspirou «Hold Down the Hunter» e, em parte, outra música nossa. «The Outer Pale» também tem inspiração num videojogo. No fundo, o mais importante é sentir que pertenço a alguma coisa.

HellHeaven: E para além de tocarem no Reino Unido, gostariam de vir a Portugal?
Andy: Claro! Nunca tocámos fora de Inglaterra e queremos chegar a outras cidades britânicas. Temos poucos recursos e não temos transporte próprio, o que dificulta as deslocações, sobretudo com uma bateria. A nossa vocalista é italiana e gostaríamos de actuar em Itália. Também temos um convite dos Dreamslain para tocar na Noruega. O principal obstáculo é financeiro, mas esperamos aproveitar oportunidades, nomeadamente em festivais. Tocar noutro país seria um sonho.
Matt: Para o ano, vamos definitivamente tocar no estrangeiro. Aproveito para lembrar que comprar merchandising é uma das melhores formas de apoiar bandas que não estão entre as maiores. Faz uma diferença enorme, mesmo para bandas de média dimensão.
Andy: E, se houver promotores ou agentes a ler, ouçam o nosso álbum e, se gostarem, convidem-nos para tocar no estrangeiro. Adoraríamos ir!
HellHeaven: Obrigado pela vossa disponibilidade. Em relação às entrevistas, a que pergunta gostariam de responder, mas que nunca ninguém fez (e qual seria a resposta)?
Matt: Gosto dessa, é divertida! Gostaria simplesmente que me perguntassem como estou e se certificassem de que estou bem. A saúde mental é importante, e para os que estão a ler: cuidem-se e falem com alguém. Os tempos estão difíceis e o mundo complicado.
Andy: Esta é uma pergunta horrível [risos]! É definitivamente a pergunta que não quero que me voltem a fazer porque não sei a resposta.
HellHeaven: Por último, que mensagem deixam aos vossos fãs/nossos leitores em Portugal?
Matt: Devíamos ter aprendido português! Obrigado por acompanharem a comunidade metal. Ouçam o nosso álbum, vejam os videoclipes e sigam-nos nas redes sociais. Apoiem também as vossas bandas favoritas: se tiverem possibilidades, comprar merchandising é uma das melhores formas de ajudar. E vão a concertos! Descobrem bandas novas e fazem amizades.
Andy: Isso dá-nos motivação para continuar. Mas até ouvir música, interagir com as bandas nas redes sociais e demonstrar interesse já faz diferença. Quem sabe se, um dia poderão dizer que eram fãs dos Tales of Perdition antes de nos tornarmos grandes?! O apoio aos artistas independentes é cada vez mais importante, sobretudo perante novos desafios, como a música gerada por AI. Esse apoio ajuda também as salas de concertos e as publicações independentes a continuar.