Há coisas que me irritam e me tiram do sério. Duas delas, embora em campos distintos, têm o extraordinário condão de me fazer umas deliciosas “cócegas no palato”!
Enquanto pessoa que estudou Jornalismo e que, de certa forma, o exerce, custa-me assistir ao espectáculo deprimente de ver uma profissão tão importante ser tratada com uma mistura de ignorância, desprezo e arrogância por quem, aparentemente, nunca se deu ao trabalho de conhecer sequer o Código Deontológico.
E depois há os especialistas de bancada que confundem opinião com notícia, comentador com jornalista e “eu acho” com factos. Uma espécie de jornalismo de bolso, feito à medida das próprias convicções, onde a realidade é apenas um incómodo que se remove com um bloqueio nas redes sociais. É uma ignorância quase artística, ao alcance de demasiados mentecaptos e negacionistas — palavra que, convenhamos, ganhou uma legião de fãs nos últimos anos.
O Jornalismo, salvo quando é deliberadamente transformado em espectáculo sensacionalista, é um dos instrumentos fundamentais da liberdade e da democracia. E talvez seja precisamente por isso que incomode tanto quem prefere a informação devidamente domesticada, embrulhada e entregue sem perguntas incómodas.
(Isto é uma opinião. Não é uma notícia. A diferença não é assim tão difícil de perceber.)

Entretanto, nos Estados (Des)Unidos da América, assiste-se a mais um episódio do já longo espectáculo de degradação da relação entre poder e imprensa. Expulsar jornalistas da Casa Branca porque fazem perguntas incómodas é, no mínimo, uma extraordinária demonstração de alergia ao contraditório. O Príncipe Laranjinha parece continuar convencido de que governar é uma espécie de concurso em que só pode existir uma resposta: a dele.
E depois ficam os “pequeninos”, aqueles que acham que o problema não está em quem mente, contradiz-se ou inventa disparates, mas em quem tem a ousadia de os denunciar. Para estes, aparentemente, o jornalista é culpado porque apontou a mentira — uma lógica tão brilhante como culpar o termómetro pela febre.
Pessoas como Trump, e todos os seus pequenos imitadores, não são apenas um problema para o Jornalismo. São um problema para a liberdade, para o contraditório e para uma sociedade que ainda queira chamar-se democrática. Porque quando a informação passa a ser inimiga só porque incomoda, estamos perante um caminho particularmente perigoso.
Escolher um lado é uma opção. Fingir que não vemos os sinais é outra. E essa última não é coragem, independência ou inteligência: é pura e simplesmente estupidez.
E sim, antes que alguém se perca pelo caminho: isto é uma opinião. Não uma notícia. Convém saber a diferença.