“My Ghost” é o nono disco para os noruegueses CREST OF DARKNESS e promove uma jornada pelos cantos mais obscuros e negros do seu líder Ingar Amlien. A HellHeaven esteve à conversa com o músico onde, para além do disco se falou de Satanismo e, claro, da Noruega dos anos 90! Entrevista: Nuno C. Lopes

HellHeaven: Começo por dar os parabéns por “My Ghost”, que é o vosso nono disco. Quais são os teus pensamentos sobre o disco e, ao fim de tantos anos, ainda consegues ter expectativas?
Ingar Amlien: Obrigado pelas palavras! Devo admitir que estou muito satisfeito o “My Ghost”! Nunca lancei um disco com o qual não estivesse satisfeito mas este é, sem dúvida, um ponto na minha carreira! A receção tem sido muito boa e isso é porreiro! Existe muito trabalho para um lançamento deste género e muita coisa tem que “bater certo”! Quando me questionas sobre expectativas posso dizer que estou muito entusiasmada quando lanço música na actualidade tal como quando no inicio da carreira, talvez por isso tenha mantido a acendalha todos estes anos, assim como o desejo de criar nova música entusiasmante! Tenho muito energia que tem de ser largada em algum sitio e, nesse sentido, o trabalho nos Crest of Darkness é, para mim, pura terapia! (risos)
HellHeaven: Desde o artwork até ao conteúdo do disco, “My Ghost” parece ser o vosso disco mais pessoal. Quais foram os desafios a que se propuseram desta vez?
Ingar Amlien: Existe muito de mim neste disco e pareceu muito natural usar uma foto do meu alter ego na capa e na promoção de todo o disco, para criar uma ligação. Enquanto estava a criar o “My Ghost” tinha o desejo de ir mais fundo no universo da banda, de forma a que nunca tinha ido. Estes são os meus pensamentos e visões mais negras e que foram trazidos para os COD e, ainda que a música e as palavras possam ser interpretadas de forma ampla é importante para mim que exista um sentido de coesão e coerênciano que crio, e isso também se aplica no “My Ghost”.
HellHeaven: Antes do lançamento do álbum a “Call of the Moon” foi lançada em vinil e foi muito bem recebida. Como sentiste essa receção e como olhas para este interesse em torno de formatos como a cassete ou vinil, especialmente nesta era digital?
Ingar Amlien: A resposta que tivemos do single foi muito boa e, enquanto apreciador de vinil, fiquei muito satisfeito como a edição foi recebida! Acho que este renascimento do vinil é fantástico! Ver a popularidade a crescer, mesmo nas gerações mais novas, faz ver que o formato está a voltar em força. Percebo que seja mais fácil e conveniente, e mais barato, fazer stream, e isso é válido para a música como para os livros! Alguns livros que te dizem muito vais querer ter na prateleira e é um símbolo de um trabalho intelectual que é importante para ti! Um vinil ou um CD tem a mesma função, seja pela capa, letras ou a variada informação, o formato físico transforma-se num simbolo da música! Como podes ver sou um fan dos formatos oldschool (risos) e não há nada melhor do que estar sentado a escutar um álbum do inicio ao fim!

HellHeaven: O “My Ghost” é um disco concetual onde o ouvinte pode entrar no lado negro da mente, contudo parece ser muito mais do que isso. Qual o conceito e mensagem de todo o álbum?
Ingar Amlien: Vou tentar não ser demasiado específico a responder a esta questão! (risos) Claro que tenho os meus pensamentos, ou respostas, mas penso que tem que existir espaço para a interpretação quando estás nesta “jornada” pelo meu lado negro! As canções e as letras, como um todo, pretendem levar o ouvinte para mais perto do seu próprio lado negro e, quando falo disto, é importante clarificar que estou a falar de força interior. Acredito que este disco pode ser o gatilho, de muitas formas, para qualquer ouvinte do disco, dependendo do seu background, As pessoas podem fazer diferentes associações e encontrar elementos que sejam importantes para elas! Tenho noção que posso estar a ser demasiado pomposo, mas não sei como explicar isso. Para encontrares o teu lado negro tens de conhecer o lado do outro! O que posso dizer é que para aqueles que estiverem prontos para esta jornada mágica pelo universo dos Crest of Darkness vão acabar por entender!
HellHeaven: Um dos temas que me despertou a atenção foi o “Sacrificed to the Sun”, devido à inclusão do trompete. Como é que surgiu essa ideia e como olhas para o resultado final do tema?
Ingar Amlien: Estou muito satisfeito e agradado com a presença do Roy Nikolaisen e do seu trompete! A ideia de o ter no álbum estava lá desde o inicio e esse tema parece ter sido feito para ter esse instrumento! Existem várias formas de manter o ouvinte interessado, podes criar música monótona, mas sugestiva, de forma a colocar o ouvinte numa espécie de transe, e tenho vários elementos disso na minha música mas, a variedade é o mais importante neste disco e, ouvir este disco do inicio ao fim pode, no melhor, levar o ouvinte numa jornada mental e criar, espero, imagens pelo caminho, quase como se fosse parte de um filme. A “Sacrificed to the Sun” pode ter um papel muito importante nesse contexto por ser diferente e inesperada, ainda que, na minha opinião, encaixa perfeitamente no que é o disco.

HellHeaven: Depois de tantos anos na industria já assististe a muitas mudanças. Como é que vês o Metal actual e em especial o Black Metal?
Ingar Amlien: O Metal enquanto género está forte, talvez mais forte do que nunca! Existe muita diversidade, mesmo nos géneros mais extremos! O termo Black Metal ainda está bem vivo mas acho que ficou muito mais difícil colocar as bandas numa determinada caixa! Por exemplo, os Crest of Darkness sempre foram colocados na caixa do Black Metal mas não sei se é aí que encaixamos! Algumas pessoas têm uma visão muito limitada do que pode ser Black Metal e acho que derrubamos algumas dessas fronteiras mas, de qualquer das formas, isso não interessa muito porque nós, e outras bandas, apenas tentamos fazer a melhor música possível e essa é a força motora! Tal como no inicio, ainda antes do termo Black Metal existir. As bandas queriam fazer algo novo, algo mais cru e diabólico do que existia na altura e que pudesse chocar e abrir os olhos das pessoas e que não era guiado pelo desejo de atingir o sucesso financeiro, muito pelo contrário, na altura o que era importante erafazer parte do underground! Com o tempo muitas bandas dos anos 90 atingiram um grande estatuto e algumas continuam a ter um grande sucesso comercial e é completamente compreensível. As pessoas e a música estão sempre numa evolução constante e isso aplica-se, também, ao Black Metal, muito boa música foi criada, e continua a ser, com raízes no Black Metal, contudo, em qualquer um dos casos, o que deve ser julgado é a música e o género não é importante, são apenas termos usados numa tentativa de descrever expressões musicais.
HellHeaven: A ideologia Satânica e a obra de LaVey continua a ter uma grande influência na tua obra, até porque tentas sempre trazer a ideia de que qualquer pessoa pode ser o seu Deus. Esse é o verdadeiro sentido de ser Satanista?
Ingar Amlien: Esse é, possivelmente, o ponto mais importante que coloco no meu conceito de Satanismo! Ninguém pode decidir, a não o indivíduo, sobre o seu interior e, num sentido simbólico encorajo todos os seres humanos a se considerarem os seus próprios deuses, encorajo as pessoas a serem mais egoístas e, acho que devo clarificar este ponto, porque quando digo para serem egoístas não digo para passarem por cima de toda a gente para conseguirem avançar ou fazer algo para atingir esse objectivo, não precisas de ter um grande status ou meios para ser um “verdadeirao” Satanista, isso é um erro, até porque encorajo as pessoas a serem mais independentes e acreditarem mais em si mesmas e na sua intuição. Muitas pessoas estão infelizes porque tentam atingir objectivos sobre os quais não estão apaixonadas, acabando por ser mais importante ir ao encontro das expectativas dos outros do que a delas próprias. Se seguires a tua chama negra podes levar uma vida rica e completa sem que seja preciso ter o carro ou a casa mais fixe da rua, o que falo é de usares a tua força e fazer as escolhes certas e que te sirvam na plenitude! Trata-se de seres tu mesmo, conheceres-te e usar as tuas forças. Se tiveres uma força interior forte não interessa o sucesso que possas ter à superfície. A felicidade e liberdade podem ser encontradas quando sentes que estás a viver a tua vida e, com isso, regressamos ao ponto de partida de que qualquer pessoa deve ser o seu próprio Deus. Depois existe aquele simbolismo em seres o teu próprio Deus em contraste em acreditar num deus sobrenatural que faz as regras da tua vida e controla o teu destino. Distancio-me desse tipo de pensamento e podes ver isso, por exemplo, no Cristianismo, em que parecem ter as ferramentas para manter as massas em baixo… mas isso é uma outra questão!
HellHeaven: No inicio dos anos 90 o Black Metal ganhou atenção devido a todos os acontecimentos na Noruega e que se espalaharam por toda a Escandinávia. Consideras que esses eventos, e a sua publicidade, ajudaram o género a crescer? Como vês a questão das igrejas incendiadas e dos assassinatos?
Ingar Amlien: Não há dúvida de que tudo isso trouxe uma enorme publicidade, o que acabou por levar o género para outros patamares! Acho que não conheço ninguém que, nos dias de hoje, apoie de forma aberta o que aconteceu e muitos distanciaram-se dessas acções! Não sou a melhor pessa para responder mais do que isto mas acho que quando um fenómeno surge e é suportado por um determinado grupo de pessoas jovens essas coisas podem acontecer. Quando surgiu esse ambiente Black Metal nos anos 90 era importante que parecesse duro e forte, o mais possível, tinhas de ser diabólico e destrutivo e isso, em conjunto com outros factores, ajuda a explicar todos esses acontecimentos, mas não te sei responder de forma clara, o que sei é que o que aconteceu foi extraordinário na história recente da Noruega.
HellHeaven: Olhando agora, com a distância do tempo, consideras que essas pessoas acabaram por distorcer o sentido de ser Satanista e estavam mais interessados em atenção ou haveria algo mais?
Ingar Amlien: Essa é uma questão interessante! Antes de responder deixa-me esclarecer que as pessoas podem perceber esta questão de formas diferentes e ter opiniões diferentes! No Black Metal as trevas e o diabo sempre foram adorados como oposição a Deus e Cristianismo. Todos concordamos nisso, mas a relação com Satanás e Satanismo e o seu lugar no estilo pode ser discutido! Se alguém lê a Bíblia e acredita, literalmente, que há um mundo preto e branco onde Deus e Satanás representam o Bem versus Mal e vive de acordo com essa premissa, então estamos a a falar de uma fé diferente do que o Satanismo moderno acredita. É verdade que o Satanismo absorveu muito do simbolismo do Cristianismo e outras religiões, no entanto, é errado dizer que o Satanismo moderno representa o “Mal”. As bases do Satanismo moderno baseia toda a sua filosofia em conhecimento científico e não em superstição. Existem pessoas que se dizem adoradores do Diabo e acreditam no Demónio, ou Satanás, como entidades reais, mas isso não é o Satanismo moderno. O LaVey dizia que as pessoas têm a religião dentro delas e, baseado nisso, ele criou uma religião para ateístas, que pudesse dar as ferramentas e um ponto de inicio para se articularem com uma religião sem que tivessem que acreditar em seres sobrenaturais, Deuses ou um Mundo Sobrenatural. Os rituais da religião Satânica funcionam a um nível psicoterapêutico e a ideia é que a pessoa possa desenvolver através do ritual. Da mesma forma que um indivíduo pode encontrar agressão, ódio e maus sentimentos, outro pode encontrar o amor e bondade. Tudo acontece num ambiente seguro e ninguém é ameaçado mas há um grande impacto em todos os participantes! Os rituais também podem ser feitos sem companhia e acredito que muitos Satanistas vivem no anonimato com a a sua fé. Acho que a conclusão que tiramos é que não podemos dizer que Black Metal é sinónimo de Satanás. Enquanto os Satânicos podem ser diversos e não, obrigatoriamente uniformes, o Black Metal é, antes de tudo, uma forma de expressão.

HellHeaven: Com o disco já nas lojas, o que podemos esperar dos Crest of Darkness no futuro? Estiveste em Portugal recentemente com os Conception, será que esta é a altura perfeita para trazeres a tua banda cá? Que memórias tens da passagem dos Conception?
Ingar Amlien: Gostava muito de ir a Portugal com os Crest of Darkness em 2025! Temos falado sobre tocar mais ao vivo e estamos a trabalhar nisso, mas ainda não te consigo dizer nada, a não ser que é a nossa prioridade! Tenho muitas memórias dos concertos de Conception em Portugal! Fomos muito bem recebidos e conhecemos muitos fans! Faz sentido que muitos fans conheçam os Crest of Darkness, ainda que saiba que não temos a maior audiência do Mundo, sabemos que vocês são fans muito dedicados e isso é mais do que razão para querermos ir aí!
HellHeaven: Qual a mensagem que deixas para os fans e para os nossos leitores…
Ingar Amlien: Para todos os leitoires da HellHeaven e todos os outros deixo as minhas negras saudações! Stay Metal!