(Entrevista) HEAVENWOOD - "o meu foco mental estava apontado para a idealização e concretização do fechar deste ciclo"

Nuno C. Lopes conversa com Ricardo Dias, mentor dos Heavenwood, sobre o novo álbum, superação, legado e a evolução do metal nacional.

HellHeaven: Começo por agradecer o teu tempo e, claro, dar os parabéns pelo novo disco! Qual o teu pensamento sobre o disco agora que ele está cá fora?

Ricardo Dias: Obrigado. Que todo o processo de concepção e realização deste sexto álbum foi uma empreitada das pesadas (no bom sentido). O factor tempo na realidade nunca me preocupou, aliás Heavenwood nunca foi na debandada de ter a obrigação de editar um disco de X em X anos, mas o facto de ter consciência e experiência de toda a engenharia e processos  que existem associados a um lançamento de um disco para uma banda como Heavenwood dá imenso trabalho. É necessário a participação de um sem número de pessoas e estruturas para o lançamento ao nível mundial de uma banda com 30 anos de legado musical. Não serve de nada gravar e editar digitalmente, para a posição que a banda ocupa neste vasto universo, abaixo de muitos e acima de muitos, é indispensável apresentar um disco com todos os padrões de qualidade exigidos. Isso leva tempo, até porque felizmente os álbuns de Heavenwood tem resistido á prova do tempo e ainda hoje imensos fans dos mais distintos países escutam clássicos como o primeiro álbum “Diva” de 1996 ou “Swallow” de 1998. Sinto que este disco faz e fará parte da história de Heavenwood e da história Historia do Heavy Metal nacional.

HellHeaven: Este terá sido, porventura, o mais desafiador disco de Heavenwood, até pelos problemas de saúde que enfrentaste. Em algum momento pensaste em desistir? Como estás de saúde actualmente?

Ricardo Dias: Nunca, jamais me passou pela cabeça tal. Por mais negro que o cenário estivesse na altura desse acidente e outras situações associadas indiretamente, o meu foco mental estava apontado para a idealização e concretização do fechar deste ciclo “The Tarot of the Bohemians”. Os fans mereciam, eu merecia. É assim que eu vejo as coisas. Não obstante esse terrível acidente e stand-by na minha vida pessoal de mais de 2 anos em recuperação diária, alguns temas deste novo álbum já tinha sido escritos consoante a inspiração. Alguns foram inclusive lançados digitalmente e em formato Demo porque eu desejava que os fans tomassem conhecimento que alguma coisa estava a ser preparada, foi uma forma de acompanharem toda a obra desde o esboço. Por regra, as bandas não seguem muito esta via mas eu, pessoalmente, até considero ser interessante um fan ter a noção de todos os processos de transformação de uma ou mais músicas. Nos dias de hoje é cada vez mais importante manter e fortalecer esta união e corrente invisível entre o Artista e o Fan.

HellHeaven: Talvez por esses desafios todos, esta segunda parte do "The Tarot of the Bohemians", ainda que siga o conceito do antecessor, ganha contornos mais pessoais e, ao mesmo tempo, mais reflectivo sobre a condição humana. Concordas? Será este o disco onde expões mais as tuas fraquezas e o disco mais pessoal?

Ricardo Dias: Concordo, aliás este álbum foi tratado da forma mais humana e orgânica possível, em termos de mundo físico porque para metafísico o conceito em si chega e sobra. É um disco fora das normas e estereótipos da conjuntura actual, exige dedicação e audições. Acreditem em mim quando digo que os temas soarão diferentes consoante o vosso estado de espírito no momento de escuta. É uma espécie de ritual.
Não é o disco onde exponho mais a minha questão pessoal, tem nuances onde me identifico com algumas das cartas maiores arcanas apresentadas. Acabo por fazer um jogo duplo, onde alguns temas carregam uma dupla leitura e interpretação, nesse sentido. O álbum não é nenhum manual técnico de tarot, primeiramente é baseado nos estudos que o Papus (Dr Gerard Encausse) fez no século XVIII e que não se relacionam com o conceito moderno do Tarot. Envolve muito mais ferramentas e chaves de acesso á relação entre o Homem e o Universo, entre o Microcosmo e o Macrocosmo. É uma experiência musical e sensitiva para cada um de nós, que escute além da tradicional experiência de simplesmente escutar. 

Heavenwood: Neste momento és, na verdade, o único membro efectivo nos Heavenwood. Como foi estar na posição de, quase, um musico a solo e quem são os musicos que te acompanham? Existe a possibilidade desses musicos te acompanharem ao vivo ou isso nem sequer está nos planos?

Ricardo Dias: No final de contas, pouco ou nada mudou em termos de dinâmicas de composição. Em estúdio contei com a colaboração do Eduardo Sinatra, enquanto baterista e também como responsável pela captação e engenharia do som. Além disso foi uma peça importante em determinados aspectos da produção do disco antes de rumar para França e ser misturado e masterizado pelo Niko HK Krauss, no VAMACARA Studio.

HellHeaven: Ainda que a identidade Heavenwood esteja bem presente no álbum existem novas sonoridades que, ainda que não tão distantes, possam ser coordenadas para uma nova versão da banda. Sentiste essa necessidade de trazer algo novo ou, por outro lado, foi onde a música te levou?

Ricardo Dias: Penso que a intenção de desejar que o disco soasse o mais humano e orgânico possível ajuda a criar uma sonoridade e identidade própria. O maior desafio foi também o de criar dimensão e opulência sonora sem recorrer exclusivamente aos truques digitais actualmente e normalmente utilizados em estúdio. Eu queria que a força, presença e feeling viessem de mim e do Eduardo Sinatra na bateria, não de determinado plugin exclusivamente. As gravações demoraram imenso tempo, eram feitos inúmeros takes á mínima falha. Foram utilizados amplificadores clássicos a válvulas assim como guitarras também elas clássicas, por exemplo. De todos os instrumentos que gravei sinceramente o mais trabalhoso até é a voz porque Heavenwood utiliza, desde sempre, uma técnica de composição e camadas de vozes que no final resultam em uníssono naquilo que ouvimos hmmmm imaginem orquestração de voz. Dá imenso trabalho mas é o que é.

HellHeaven: "The Tarot of the Bohemians" é lançado pela Mighty Music. Como é que eles te surgem no caminho e como te sentes nesta nova casa? 

Ricardo Dias: Heavenwood estava sem editora, após a edição de 2016 da Part I via MASSACRE RECORDS. Foram estabelecidos vários contactos e neste caso decidi prontamente em trabalhar com uma estrutura escandinava pelos mais variados motivos. A MIGHTY MUSIC / TARGET GROUP DENMARK e a sua equipa tem sido a estrutura que Heavenwood necessitava para em 2026 surgir esta Part II. 

HellHeaven: Ao fim de tantos anos, décadas mesmo, como é que olhas para o Metal que se faz por cá e quais as diferenças maiores que encontras?

Ricardo Dias: Existe uma enorme evolução técnica e até grupos com conceitos bastantes interessantes. Sinto que esbarram com algo ao fim de 2 edições discográficas ou depois de terem corrido as “capelas” todas em Portugal. Não é nada fácil, aliás é muito mais difícil nos dias de hoje conseguir entrar no circuito internacional de rádios, magazines, tours porque nos dias de hoje talento apenas não chega. 

HellHeaven: Também na forma como se consome música tudo se alterou. Como olhas para os novos hábitos e como convives com o digital e com as novas plataformas?

Ricardo Dias: Vejo como uma ferramenta apenas, um caminho e alternativa e que eu é que tenho o poder de decisão se pretendo escutar um álbum em Vinil, CD ou digital. Não me sinto na obrigação de comprar disco A, B ou C por simpatia apenas, o digital serve para eu sentir a vontade e necessidade de adquirir uma Obra. Também possibilita a rápida criação de pontes e promoção entre novas bandas emergentes além fronteiras.

0