(Entrevista) SHORES OF NULL - "a música ainda é uma das poucas coisas que nos dá um verdadeiro sentido de propósito e conexão”

Com o lançamento de "Homesick" em Outubro e estreia no River Stone Fest, a HellHeaven esteve à conversa com os Shores of Null. Entrevista: João Gama

HellHeaven: Olá, e parabéns pelo novo álbum «Homesick». Como se sentem em relação a ele? Quais são as expectativas e como têm sido recebidos os singles: “Bleed to Life”, “Son of the Tide” e “Two Mountains”?
Emiliano: Estamos super entusiasmados! Acabámos de começar a promover «Homesick» ao vivo e mal podemos esperar para voltar à estrada. Os primeiros singles foram muito bem recebidos pelos nossos fãs e não podíamos estar mais felizes!
Davide: Lançar um novo álbum é sempre um momento especial, independentemente do número de discos que já se tenha feito. Vive-se com estas músicas durante muito tempo, trabalha-se cada detalhe e, em algum momento, é preciso deixá-las ir e ver no que se tornam quando pertencem a outras pessoas. Não temos expectativas específicas em termos de números ou algo do género. Com o nosso trabalho, esperamos que o álbum chegue ao maior número de ouvintes possível e que possa apresentar Shores Of Null a quem ainda não nos conhece, mas o mais importante para nós é que o disco encontre o seu público. Até agora, a resposta às novas músicas tem sido muito encorajadora. Começámos também a tocar as três músicas ao vivo, e a reação tem sido ótima, o que é sempre um bom sinal. São três canções bastante diferentes, por isso acho que já deram às pessoas uma ideia bastante ampla do que esperar de «Homesick», ao mesmo tempo que deixam muito para descobrir no álbum.

HellHeaven: Como o título sugere, o álbum gira em torno de um conceito saudosista, seja por um lugar, uma memória ou uma pessoa. Ao mesmo tempo, parece abordar um outro tema: o medo intrínseco da mudança. Estas temáticas foram desenvolvidas de forma consciente ou foram surgindo naturalmente durante o processo de composição?
Davide: Estes temas surgiram de forma bastante natural durante o processo de composição. Não começámos com a intenção de fazer um álbum sobre casa, nostalgia ou o medo da mudança. Só depois de ter escrito algumas letras e, eventualmente, intitulado uma das canções de “Homesick”, é que comecei a perceber a frequência com que ideias semelhantes iam regressando: a memória, a pertença, a ausência, a relação com o nosso passado e a dificuldade da libertação. Acho que o medo da mudança está muito associado a tudo isto. Por vezes, agarramo-nos a lugares, pessoas ou até mesmo a memórias dolorosas simplesmente porque nos são familiares. Deixar algo para trás, mesmo quando sabemos que é necessário, significa aceitar que uma parte de nós também vai mudar. Algumas letras são pessoais, outras vêm de histórias e experiências de pessoas que me são próximas. Com elas o que me interessava era explorar emoções que possam ser simultaneamente profundamente individuais mas também universais.

HellHeaven: Ao ouvir «Homesick» pela primeira vez, reparei numa estrutura coesa, que o torna um álbum distinto, e não apenas uma coleção de músicas. Há uma transição gradual de um som gótico para doom, com a música a tornar-se progressivamente mais sombria e nostálgica. Que vos parece esta interpretação?
Emiliano: Gostamos sempre de selecionar cuidadosamente as faixas dos nossos álbuns para criar um fio condutor que transporte o ouvinte para uma experiência sonora genuína. Penso que foi uma evolução natural que se desenrolou à medida que as canções foram ganhando forma. Pode dizer-se que em «Homesick» o conseguimos fazer melhor do que nunca.

HellHeaven: “Another Breath” e “Disappear” revelaram-se como faixas perfeitas para terminar o álbum, pois reúnem muitos dos elementos que definem o disco. Nesse sentido, o que vos levou a escolher outras faixas como singles/vídeos?
Davide: Ao escolher os singles, geralmente procuramos música que possa funcionar como uma introdução a um lado específico do disco, sem revelar muito do todo. Tendemos a escolher faixas diferentes que ofereçam uma antevisão do que as pessoas podem esperar, sem revelar tudo. Ainda queremos que as pessoas tenham algo a descobrir quando «Homesick» for finalmente lançado, e há algumas músicas que talvez façam mais sentido quando ouvidas no contexto do álbum completo. É a parte complicada de escolher singles: queres dar às pessoas um gostinho do disco, mas não queres servir a refeição toda antes mesmo de se sentarem à mesa.
Emiliano: Neste caso, a escolha de faixas específicas para singles foi feita também tendo em conta as nossas reacções emocionais ao ouvir o material extensivamente após o álbum estar finalizado.

HellHeaven: A produção sonora é outro aspecto que sobressai aqui. O disco soa mais “arejado”, com uma atmosfera mais leve, em contraste com o aspecto usualmente mais denso e “opressivo” do doom. Concordam? O que mudou na vossa abordagem à produção?
Davide: Sim, penso que é uma observação pertinente. Não diria que procurámos conscientemente fazer com que o álbum soasse mais leve ou menos opressivo, mas provavelmente demos mais espaço para as músicas “respirarem”. «Homesick» é ainda um disco pesado, mas há mais espaço entre os diferentes elementos e uma maior ênfase na melodia e na dinâmica. Muito disso vem da própria composição, mas também da quantidade de trabalho que dedicamos à pré-produção. Passámos muito mais tempo a refinar os arranjos antes de entrar em estúdio, primeiro individualmente e depois com o nosso produtor, Marco “Cinghio” Mastrobuono. O seu envolvimento no processo criativo ajudou-nos a ver as músicas sob uma perspetiva diferente.

HellHeaven: O álbum soa inequivocamente a Shores of Null, com as suas características melodias sombrias. Mas também há aqui algo novo que resultou num som mais dinâmico como dizias, e a certa altura até me veio Amorphis à memória. O que vos inspirou nesta direção melódica?
Emiliano: Acho que as “diferenças” que referes são provavelmente o resultado desse tal processo de composição que realizamos em colaboração próxima com o nosso produtor. Ao contrário dos nossos álbuns anteriores, queríamos envolvê-lo desde a fase de pré-produção para garantir que tínhamos contribuições externas constantes. Isto deu certamente um grande impulso às faixas que compõem «Homesick».

HellHeaven: Os Shores of Null estão no ativo desde 2013 e a banda não sofreu alterações na formação desde então. Falem-nos desta equipa vencedora. 
Davide: Penso que manter a mesma formação durante todos estes anos foi um dos factores mais importantes na evolução da banda. Envelhece-se juntos, passa-se por diferentes experiências, tanto como músicos como pessoas, e tudo isso reflecte-se inevitavelmente na música. Passada mais de uma década, conhecemo-nos muito bem. Compreendemos os pontos fortes, os instintos e, provavelmente, as limitações uns dos outros também. Isto cria um nível de confiança que não se constrói de um dia para o outro e que nos permite ser muito mais honestos uns com os outros enquanto trabalhamos em músicas novas. Obviamente, não somos as mesmas pessoas que éramos em 2013, mas acho que o facto de termos crescido juntos, em vez de termos de reconstruir constantemente a química dentro da banda, fez uma enorme diferença. Existe uma história partilhada por detrás de tudo o que temos feito, e acredito que isso transparece na música.

HellHeaven: Dada a vossa mais de uma década de carreira, estão a par de que se torna cada vez mais difícil descobrir novas bandas com uma indústria dominada por algoritmos. Nesse sentido, poderiam recomendar algumas bandas mais jovens ou menos conhecidas para os nossos leitores descobrirem (de qualquer género ou país)?
Emiliano: Com certeza! Recomendaria definitivamente ouvir: Invernoir, Ponte Del Diavolo, Bianca, Ars Onirica, e Inno.

HellHeaven: «Homesick» será editado a 16 de Outubro, mas antes disso, a 19 de Setembro, vão tocar no River Stone Festival em Portugal, ao lado de bandas como Wolfheart e Der Weg Einer Freiheit. Quais são as expectativas para este evento? E o que podem os fãs esperar?
Emiliano: Iremos ao River Stone Fest depois de três concertos aqui em Itália: Metal For Emergency, Suburbiae Unexpected Fest e um concerto na nossa cidade natal, Roma, com os Soen. Já estamos a tocar músicas do novo álbum, como “Bleed To Life”, “Son Of The Tide” e “Two Mountains”. Até agora, o público tem reagido muito bem às novas canções e esperamos a mesma recepção em Portugal. Temos grandes expectativas para o festival; como sempre, promete ser um dia fantástico, repleto de grande música e bandas incríveis.

HellHeaven: Obrigado pela vossa disponibilidade. Em relação a entrevistas, a que pergunta gostariam de responder, mas que nunca vos foi feita (e qual a resposta)?
Davide:  Essa é uma óptima pergunta! Talvez gostasse que alguém nos perguntasse porque é que ainda sentimos necessidade de fazer isto depois de tantos anos. A resposta seria provavelmente que, apesar de tudo o que envolve estar numa banda, o stress, os sacrifícios financeiros, as inúmeras horas a viajar, ensaiar e trabalhar em coisas que ninguém vê, a música ainda é uma das poucas coisas que nos dá um verdadeiro sentido de propósito e conexão. Todos nós envelhecemos, as nossas vidas mudaram e provavelmente sabemos muito mais sobre as dificuldades deste mundo do que sabíamos quando começámos os Shores Of Null. Mesmo assim, continuamos a sentir a mesma necessidade de criar algo em conjunto. É por isso que ainda cá estamos.

HellHeaven: Por fim, que mensagem gostariam de deixar aos vossos fãs/nossos leitores em Portugal?
Emiliano:  Mal podemos esperar para subir ao palco e partilhar a nossa música convosco. Vemo-nos dia 19 de Setembro no River Stone Fest!
Davide:  Até breve. Mal podemos esperar para tocar em Portugal pela primeira vez.

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