HellHeaven: Então, Igor, vamos começar pelo fim. Falemos de Songs to the Moon. Como te sentes em relação ao novo disco e quais são as tuas expectativas?
Igor Sydorenko: É engraçado porque, sempre que trabalho num álbum novo, começo por adorar as músicas. Depois, quando começamos a trabalhar nelas com os restantes elementos da banda e a gravá-las, passo a odiá-las. Penso: “Ninguém vai gostar disto. É tão diferente, é tão estranho.” Cada música soa diferente da anterior, o que eu adoro e que é, aliás, o meu objetivo enquanto compositor: gosto de fazer coisas diferentes. Mas, a certa altura, perdes a confiança nas músicas. Depois há todo aquele longo processo de mistura, em que ouves as canções vezes sem conta, e começas a odiá-las ainda mais. Depois fazemos uma pausa, passa algum tempo enquanto trabalham na capa e em tudo o resto, escolhemos os singles e, de repente, ouves um deles como alguém que não o escuta há seis meses. E pensas: “Na verdade, isto nem está mal.” Ouves a música como uma pessoa diferente, como se nunca a tivesses ouvido antes, e pensas: “Uau, isto é mesmo bom. Isto soa mesmo a Stoned Jesus!”. É uma verdadeira montanha-russa.
HellHeaven: Entendo perfeitamente o que dizes! Neste momento, sentes que “Songs to the Moon” é um dos teus discos favoritos de Stoned Jesus?
Igor Sydorenko: Neste momento, adoramo-lo. É um dos meus álbuns favoritos dos Stone Jesus, o que é muito bom. (risos)

HellHeaven: Dirias que é o melhor disco que fizeram desde o início da carreira? E como vês o crescimento e a evolução dos Stone Jesus?
Igor Sydorenko: Não diria que é o melhor disco desde o início dos Stoned Jesus, porque este álbum tem um objetivo muito específico. É um disco sombrio e muito pessoal, e essa é precisamente a ideia. Reflete o lado mais introspetivo dos Stoned Jesus, o lado mais pessoal da minha composição. Se gostaste das músicas de Songs to Sun, como “Quick Send” e “Lost in the Rain”, vais gostar muito de Songs to Moon. Já houve pessoas que me perguntaram: “Porque é que não fazem um disco mais sombrio?” E, obviamente, há agora muitas razões para o fazer. A vida não está a ficar mais fácil. Há muitas emoções diferentes a atingir-nos e muitas situações diferentes a acontecer. Nos últimos anos, escrevi algumas músicas e pensei: “Isto provavelmente não é para os Stoned Jesus, é demasiado sombrio.” Mas, quando tens um conjunto dessas músicas e percebes que, no fundo, continuam a soar a Stoned Jesus, pensas: “Está bem, isto pode ser um álbum dos Stoned Jesus — mas vai ser um álbum muito sombrio.” E chegou o momento. Songs to Moon está aqui e é o disco sombrio.
HellHeaven: Recomendarias o “Songs to the Moon” como ponto de partida para conhecer os Stoned Jesus?
Igor Sydorenko: Provavelmente não!(risos) Acho que deveriam começar pelos discos anteriores, por Songs to Sun ou por algo mais clássico, como Seven Thunders ou The Harvest. Mas este álbum vai surpreender muita gente, tanto fãs novos como antigos. Não é, contudo, o disco que mostra a 100% tudo aquilo de que os Stoned Jesus são capazes.
HellHeaven: E como vês o crescimento e o caminho dos Stoned Jesus neste momento?
Igor Sydorenko: Gostaria de pensar que existe crescimento e progressão, e espero realmente que isso se reflita na minha composição, na forma como os álbuns são lançados e na maneira como a banda toca. Mas, obviamente, há muitos fãs que querem que fiquemos presos a uma única direção. E não os censuro, porque essa é uma das características do rock atualmente: é um género muito orientado para a nostalgia. Toda a gente quer que as bandas antigas toquem as músicas antigas. Toda a gente quer que as bandas façam digressões de 40.º aniversário dos seus álbuns favoritos. E penso que essa é uma das razões pelas quais o rock já não é tão popular como era. Existem algumas bandas mais jovens a fazer coisas maravilhosas, música experimental, como os Black Midi ou algo mais mainstream, como os Fontaines D.C., que são provavelmente uma das minhas bandas atuais favoritas com guitarras. Mas são muito poucas. Sempre que tocamos num festival de metal maior, fico um pouco triste porque há muitos jovens que seguem cegamente os padrões antigos do rock. Não querem realmente explorar e experimentar porque, para eles, primeiro vem a tradição e só depois a música. Preferem ouvir metal muito tradicional, muito alinhado com aquilo que as outras pessoas da comunidade metal à sua volta ouvem! Mas eu ouvi Metallica pela primeira vez através de Reload, e Reload e Load continuam a ser os meus álbuns favoritos dos Metallica. Por isso, nunca fui tradicionalista. Para mim, é sempre importante quebrar barreiras e experimentar coisas novas. É importante evoluir e fazer coisas diferentes. Fico contente se os tradicionalistas continuarem a acompanhar-nos e a compreender aquilo que estamos a fazer. Fico mesmo muito feliz com isso. E, se não compreenderem, é uma escolha deles. Podem sempre voltar ao primeiro álbum e ouvir “Black Magic”! (risos)

HellHeaven: Este é um disco muito sombrio, intenso e imersivo, mas também reúne uma grande variedade de influências. Em “Under the Skin”, por exemplo, senti referências aos primeiros Fear Factory, enquanto noutras músicas encontrei outras sonoridades. Onde estava a tua cabeça quando escreveste estas músicas e como surgiu este álbum?
Igor Sydorenko: Gosto quando as pessoas encontram diferentes influências na minha música. Curiosamente, nunca ouvi Fear Factory, embora tenha visto um concerto deles quando tocámos no mesmo festival e tenha ficado impressionado com aquela abordagem pesada, agressiva e quase esmagadora. Talvez essa experiência tenha influenciado “Under the Skin” de alguma forma! A ideia de fazer um álbum mais sombrio e menos direto já existia há algum tempo, e Songs to Moon acabou por reunir material escrito em diferentes períodos, incluindo músicas que tinham ficado de fora de Mother Dark e outros temas mais lentos e sombrios. Apesar dessas diferentes origens e influências, tentei construir um disco coerente: começa de forma muito intensa e vai progressivamente ficando menos pesado até à última faixa, apenas com voz e guitarra acústica.
“The Syzygy”, o primeiro instrumental dos Stoned Jesus, surge no centro do álbum como um momento de respiração e conta ainda com um solo de Ryan Fiske, ligado à tradição do rock progressivo que conheço desde adolescente. No fundo, este disco mostra aquilo que mais gosto nos Stoned Jesus: a liberdade para experimentar diferentes influências e ultrapassar fronteiras sem deixar de fazer parte do universo da banda.
HellHeaven: Gostava que me explicasses uma frase que surge em “Velvet” que me ficou na cabeça: “I'm still falling down from high above”. É uma frase muito poderosa, profunda, sombria e pessoal. Qual o sentido desta frase?
Igor Sydorenko: Foi uma espécie de terapia para mim. Reparei que a sensação de queda aparece em muitas das minhas músicas, e acho que isso começou com Pilgrims, escrito durante o período em que perdi o meu pai. “Hans Ryshiem” começa com “fall from grace” e “Salia” aborda também a incapacidade de evitar a queda. Essa sensação de incerteza prolongou-se em Songs to Sun, influenciada pela nossa mudança da Ucrânia, pelo que está a acontecer no país e pelos anos de pandemia. Músicas como “Shadowland” e “Quick Send” refletem igualmente essa instabilidade. Em “Velvet”, comecei finalmente a questionar-me sobre essa ideia recorrente: porque estou sempre a cair? Vou chegar ao chão ou continuar a cair? Ainda hoje não tenho todas as respostas. Quando sentimos essa incerteza, é importante enfrentar o medo e tentar encontrar equilíbrio, concentrando-nos nas coisas que dão harmonia e significado à nossa vida. Por isso, mesmo enquanto caio, tento continuar a voar. Nesse sentido, “Velvet” é uma das músicas mais pessoais do álbum. Fico muito feliz com a reação do público: tocámo-la algumas vezes ao vivo e foi recebida quase como se fosse uma música antiga que toda a gente já conhecesse.
HellHeaven: Já mencionaste as tuas raízes ucranianas e tudo aquilo que tem acontecido na Ucrânia nos últimos anos, assim como a perda do teu pai, pela qual lamento muito. A banda também mudou bastante de formação e és agora o único membro original. De que forma é que todos estes acontecimentos ajudaram a moldar este álbum e o seu antecessor? E o que é que os novos elementos trouxeram aos Stone Jesus?
Igor Sydorenko: Os Stoned Jesus começaram como um projeto, com as primeiras demos gravadas e tocadas por mim. Sempre procurei trabalhar com músicos que partilhassem a minha visão, mas, quando deixa de existir entendimento ou alguém quer seguir o seu próprio caminho, prefiro encontrar outra pessoa. Apesar de me inspirar em bandas que permaneceram juntas durante décadas, como Rush, Beatles e Led Zeppelin, reconheço que ter uma visão artística muito forte e escrever todas as músicas pode tornar a colaboração mais difícil. O Yuri, que tocou em Songs to Sun e Songs to Moon, saiu antes do lançamento deste último para se concentrar no trabalho de estúdio. Continuamos amigos, conhecemo-nos há quase 20 anos e mantemos contacto, pelo que uma futura colaboração não está fora de questão. Entretanto, temos o Igor na bateria, que é também um excelente músico. Gosto desta liberdade artística: prefiro que os músicos possam seguir os seus caminhos e manter boas relações do que serem obrigados a tocar juntos por contratos ou dinheiro. Estou muito feliz por os Stoned Jesus não estarem presos a esse tipo de situação.
HellHeaven: Este álbum é o segundo capítulo da trilogia. O que podes dizer-nos sobre o último disco da trilogia?
Igor Sydorenko: Vamos começar a gravá-lo com o novo baterista, Igor, este outono! Já está escrito, porque toda a trilogia estava pronta antes sequer de começarmos a gravar Songs to Sun, a primeira parte. É material que fui escrevendo ao longo de cerca de três anos para os Stoned Jesus. Houve alguns desacordos com os elementos anteriores da banda, por isso estou muito feliz por finalmente poder lançar estas músicas. A parte final, Songs to Earth, será composta por apenas duas músicas de 20 minutos — uma de cada lado do disco. Essa ideia já existia há bastante tempo. Depois vi que os Blood Incantation tinham lançado um álbum com apenas duas músicas e pensei: “Foda-se!” E, claro, o Steven Wilson lançou o seu mais recente álbum a solo no ano passado e pensei novamente: “Porra!” Mas vai ser um álbum muito ambicioso e provavelmente o mais progressivo dos três. Songs to Sun é mais pesado e agressivo. Songs to Moon é mais sombrio, profundo, lento e introspetivo. E Songs to Earth será, essencialmente, a minha carta de amor ao rock progressivo.
Sou um enorme fã e sempre gostei deste tipo de música, sobretudo da época em que o progressivo estava mais ligado ao interesse pela composição e não tanto a uma espécie de competição técnica.
Prefiro que alguém toque algo interessante do que algo tecnicamente impressionante apenas por ser tecnicamente impressionante. Espero que seja isso que estou a levar para Songs to Earth e que seja isso que as pessoas retirem do álbum.
HellHeaven: Estiveram em Portugal há alguns anos. Quando podemos esperar voltar a ver os Stone Jesus em Portugal? Porque sentimos a vossa falta. Pelo menos eu sinto.
Igor Sydorenko: Eu também! Não sei. Portugal é um dos nossos lugares favoritos para tocar e também sentimos muito a vossa falta. Acho que a nossa cidade favorita em Portugal é o Porto. É uma cidade lindíssima e o Hard Club é fantástico. Já tocámos lá umas dez vezes, talvez mais. Lembro-me de ter ido lá com a minha namorada para um concerto e termos ficado no Porto durante um fim de semana. Divertimo-nos imenso. É uma cidade linda, um país maravilhoso e as pessoas são muito apaixonadas por música. Também tocámos algumas vezes no Sonic Blast Moledo, que é provavelmente o melhor festival para este tipo de música. O problema é sempre a logística, porque vocês estão muito longe. Para irmos a Portugal, precisamos de fazer pelo menos três concertos em Espanha. E, para chegarmos a Espanha, precisamos provavelmente de marcar cinco concertos em França. Se formos de avião apenas para tocar em Portugal, perdemos dinheiro. É longe e os voos são caros. É literalmente apenas a parte empresarial da coisa, o que é frustrante, porque adoraria voltar a tocar aí. Aliás, essa foi uma das razões que me levaram a mudar-me para a Europa. Obviamente, não foi numa situação particularmente feliz, por causa da invasão russa da Ucrânia, mas eu já pensava em mudar-me para a Europa antes disso. A Ucrânia é como Portugal, mas do outro lado da Europa. É muito longe e, sempre que planeias uma digressão, a logística acaba por significar perder muito dinheiro e muito tempo. Isso pesa sobre a banda e torna-se muito frustrante. Por isso, estou mesmo a torcer para que consigamos ir a Portugal no próximo ano. E o próximo ano vai ter um alinhamento interessante. Não vou revelar tudo agora, mas vai ser bastante bom. Vai ser parcialmente baseado no novo material, mas também haverá muitas músicas antigas que não tocamos há algum tempo. Por isso, gostaríamos muito de regressar a Portugal.
HellHeaven: E qual é a mensagem final que deixas aos teus fãs portugueses?
Igor Sydorenko: Se estiveres a cair, tenta aproveitar a queda e finge que estás a voar. Talvez, no final, comeces mesmo a voar.
