“Old Eyes, New Heart” é o regresso dos noruegueses Madder Mortem. Este é um disco mais pessoal, introspetivo e onde a dor da perda se encontra com a esperança da salvação. A HellHeaven esteve à conversa com a vocalista Agnete Kirkevaag. Entrevista: Nuno C. Lopes

HellHeaven: Começo por vos saudar pelas três décadas de carreira e que começou sob o nome de Mistery Tribe. Quais a memórias que guardas de todos estes anos e como olhas para o vosso percurso?
Agnete Kirkevaag: Muito obrigado! Nem sei por onde começar! (risos) Esta banda tem sido grande parte da minha vida, por isso talvez fosse mais fácil de falar de memórias não relacionadas com a banda! (risos) Estou muito orgulhosa do nosso caminho e não facilitamos quando se trata de música, sempre fizemos o nosso caminho e temos sido capazes de o fazer ao mesmo tempo que evoluímos. Estou muito orgulhosa dos nossos álbuns e não acho que nos tenhamos repetido, continuamos a pensar em novas formas de explorar e manter a nossa música interessante!
HellHeaven: Ao longo dos anos os Madder Mortem atingiram um estatuto de culto, no entanto nunca atingiram o sucesso que, possivelmente, ambicionavam. Como é que isso vos faz sentir? Acham que a banda está onde deveria estar em termos de sucesso?
Agnete Kirkevaag: Ia adorar não ter de ter um trabalho a tempo inteiro e me focar apenas na música, isso é uma certeza! (risos) Quando isso acontece sabes que há alturas em que tens de fazer uma pausa na banda, quando o que queria era dar prioridade aos Madder Mortem! Existem montes de coisas que teria gostado de fazer mas, provavelmente, nunca vamos ter orçamento para o fazer! Sempre senti que a nossa música pode ir mais além mas este tipo de som não vendes só a dizer que é “para os fans”ou dar um rótulo, as pessoas têm mesmo de ouvir. Contudo, acho que as coisas estão melhores para nós porque o público parece estar menos focado nos rótulos, talvez devido à facilidade com que podem aceder a música, mas depois há um problema nosso que é o facto de que somos uma “miséria” no lado comercial! (risos) Estamos tão focados em fazer música que depois a promoção, as redes sociais e esse tipo de coisas passa para segundo plano! Talvez tenha chegado a altura de colocar os Madder Mortem como um nome forte!
HellHeaven: “Old Eyes, New Heart” é o título do novo álbum lançado em Janeiro. Qual a tua opinião sobre o disco e como é que ele tem sido recebido?
Agnete Kirkevaag: Estou muito orgulhosa do disco! Encontrámos outras formas de nos expressar e de encarar os nossos temas e, penso, que estamos melhores songwriters. Penso que fazemos coisas que outras bandas não fazem, composições que são originais sem que parecem contidas ou, intencionalmente, estranhas! Adoro o facto de estarmos a levar a nossa música para outros caminhos! Se estivermos a falar de sucesso comercial, não faço ideia! Acho que se as pessoas ouvirem o disco de coração aberto este é um disco que será para a vida, até porque há muito para descobrir no álbum e acho que é um álbum honesto e que se liga às pessoas de forma real.

HellHeaven: Este álbum surge cinco anos depois de “Marrow” e muita coisa mudou no mundo. De que forma estas mudanças ajudaram a moldar o “Old Eyes, New Heart”?
Agnete Kirkevaag: As mudanças foram muitas mas penso que a nossa música sempre foi mais introspetiva! Coisas como a pandemia ou esta situação instável são mais obstáculos do que influencias directas na música que fazemos. A minha música e as minhas letras nascem das minhas emoções e raras vezes falam sobre grandes eventos no Mundo! Claro que compores e gravares durante um longo período muda a tua forma de trabalhar e o que somos, provavelmente, também mudou. Foram anos muito complicados a um nível pessoal e alguns desses desafios acabaram por ser exacerbados por tudo o que se passava à nossa volta.
HellHeaven: “Old Eyes, New Heart” é um disco muito pessoal para a banda, até porque perderam não só uma força para a bana, mas também um Pai, ainda que a presença dele esteja bem presente no álbum. Será justo dizer que este álbum é a homenagem para o Jakob e uma forma de fazer o luto? O que achas que o vosso Pai iria dizer do álbum?
Agnete Kirkevaag: Estou muito feliz por lhe prestar homenagem desta forma e que tenhamos tido o tempo suficiente para que ele pudesse pintar o artwork do disco. Teria sido fantástico que ele pudesse ter visto o produto final, mas ele sabia que estava a chegar e, pelo menos, estava feliz com isso. Não sei se a música pode tirar a tristeza, mas consegue, pelo menos, reduzir um pouco a dor. O meu Pai estaria orgulhoso! Ele ouvia muito os nossos álbuns e acho que há muita coisa que ele iria apreciar! Há alguns temas com influências barrocas que temos que vieram dele, do seu amor por Bach e de toda essa era! Por norma ele ia dizer que não tocámos alto o suficiente! (risos)
HellHeaven: Descrever o vosso som não é fácil e este novo álbum não ajuda muito a chegar a conclusões! (risos) Qual a melhor definição para os Madder Mortem?
Agnete Kirkevaag: Nunca decsobrimos um rótulo que se adequasse a nós! Claro que está mais dentro do Rock/Metal do que da Pop, mas varia muito! Para ser honesta creio que soamos a Madder Mortem e essa é a única definição que conta! (risos) Contudo, vejo algum sentido quando colocam a nossa música no Progressivo, especialmente nesta altura em que a cena Progressiva está mais virada para a música emocional que está mais aberta a explorar outros géneros e novas formas de se expressar.

HellHeaven: Gostei muito do título do álbum, não só porque nos remete para o passado com um olhar para o futuro mas, também, com o sentido de esperança, medo e todos os elementos ilimitados que surgem na vida. Estou no caminho certo na mensagem do álbum ou foi completamente ao lado? (risos)
Agnete Kirkevaag: Acho que conseguiste descrever muito bem! Acho que há mais individualidade e a visão pessoal. Acho que “Old Eyes” é o que aprendes com a experiência e de que ser cauteloso com o brilho que as coisas superficiais têm e que o “New Heart” é a importância de tentar fazer coisas novas de forma a aprender algo mais e que te permitem arriscar mesmo com as experiências que te deixam mais cauteloso.
HellHeaven: Ao fim de 30 anos de carreira ainda há algo que gostassem de fazer ou tentar? O que podemos esperar de Madder Mortem no futuro?
Agnete Kirkevaag: Existe uma montanha de coisas para fazer se tivermos o tempo e o dinheiro! Queremos andar mais em tour e visitar países onde nunca fomos, fazer mais vídeos e outras colaborações artísticas, gostávamos muito de gravar algo com uma orquestra, fazer um álbum de versões, fazer um disco em que outras bandas fizessem versões nossas… e a lista continua! Não sei como será o futuro mas vamos continuar a tentar fazer as melhores, mais honestas e apaixonadas músicas que formos capazes!
HellHeaven: Qual a mensagem que deixas para os fans portugueses de Madder Mortem?
Agnete Kirkevaag: Adoramos Portugal! Foi aí que tivemos um dos nossos melhores concertos e estamos esperançosos que possamos regressar aí! Deixo também o convite para verem o que os nossos amigos Blame Zeus estão a fazer! São muito trabalhadores, pessoas amorosos a fazer boa música e que merecem o apoio!

Desafiámos Agnete Kirkevaag a falar sobre cada um dos temas de “Old Eyes, New Heart”. Aqui fica o álbum em Discurso Direto.
Coming From The Dark: A abertura é um murro na cara, com uns riffs fantásticos do BP e do Anders. A letra fala sobre o sentimento de estar sempre de fora a olhar para dentro, sendo valorizado pelo teu trabalho e pelo que conquistas em prol dos outros e não pelo que és.
On Guard: Este tema é uma interpretação dos Madder Morten se os AC/DC, Angelo Badalementi, Leonard Cohen e Alannah Myles tivessem um filho! Fala de como as experiências do passado vão fazer com que seja mais difícil confiar em alguém na tua vida e de como um coração desfeito te deixa com fantasmas com que lidar.
Master Tongue: O riff principal deste tema é um daqueles que temos vindo a trabalhar nos últimos anos, pelo menos 10 e tentámos encaixá-lo em alguns temas sem sucesso, até agora! Sempre soubemos que a ideia era fantástica, por isso estávamos sempre a voltar a ela. A letra fala sobre pessoas que tentam ser um espelho da pessoa que estão a tentar impressionar ou aproximar, onde não há uma base, apenas reflexões e pretensões. Assim que as vês como elas são percebes que deveriam ser alvo de pena porque são incapazes de manter ligações com os outros. Essas pessoas não sabem quem são e nunca se sentirão seguras.
The Head That Wears The Crown: Este é um dos temas em que a influência de Bach é mais óbvia e tem um contraste maravilhoso com o riff orelhudo no refrão. Fala sobre as fronteiras que nunca se deve deixar as pessoas passar. Deves saber o teu valor e não te transformar num pedinte ou rebaixar, independentemente de quanto amas uma pessoa.
Cold Hard Rain: Novamente, voltamos a ter ideias antigas onde não conseguíamos encontrar o espaço para elas. Adoro a produção deste tema. A letra fala sobre depressão e desespero e, penso, que o som faz o perfeito desenho debaixo de todo o cansaço e fraqueza.
Unity: As guitarras são influenciadas pelo simples facto do BP e o Anders trazerem amplificadores AxeFX e terem um novo mundo de possibilidades. Novamente as influências barrocas são bem claras com algumas pinceladas de tons de Este. A letra fala sobre o quanto não faz sentido a negação e de como é melhor encarares as tuas emoções de frente.
Towers: Primeiro single do álbum e que teve direito a vídeo, feito pelo nosso anterior guitarrits Patrick Scantlebury! Existe um groove muito anos 70 e um vibe energético. A letra fala sobre criares defesas tão fortes que te deixam incapaz de criar relações com os outros.
Here And Now: Uma canção tipíca de Madder Morten, com algum feeling americano e que é totalmente novo para nós, adoro os versos! Lindos e serenosdurante todo o tema e com um trabalho instrumental delicado. A letra fala sobre teres o coração partido, nada mais!
Things I’ll Never Do: Uma das inspirações para este tema foi o “Paint it Black”, dos Rolling Stones e a forma como o tema segue sem se conter. É um tema estranho e perturbado, quase hóstil em alguns momentos que, quase, encaixam na perfeição na letra que fala sobre a ausência de esperança em qualquer lado.
Long Hard Road: Novamente, adoro o desenho sonoro deste tema! Foi gravado com algumas adaptações na bateria e acabámos por criar um tema sonhador e muito tranquilo! Vou deixar a letra livre para o ouvinte poder interpretar.