Tendo começado como um colectivo, os The Ocean acabaram por estabelecer uma formação mais estável, que recentemente se separou. Isto podia ter significado o fim da banda, mas Robin Staps, fundador e compositor principal, soube rapidamente reconstruir o grupo quase do zero e preparar um novo álbum. «Solaris» é um disco em que se revisitam várias eras da discografia da banda, reconhecendo-se, aqui e ali, elementos que poderiam fazer parte de álbuns distintos. Simultaneamente, emergem também em «Solaris» novas abordagens sonoras, sendo uma das mais notáveis a incorporação de electrónica, a qual irá agradar aos fãs dos trabalhos mais recentes de Ulver. Apesar dessa disparidade musical, «Solaris» consegue mesmo assim revelar-se como um disco mais coeso do que o anterior «Holocene». Talvez uma das grandes incógnitas acerca desta nova fase fosse a identidade do sucessor de Loïc Rossetti, o vocalista anterior, e eis que surgem em cena não um, mas dois novos vocalistas: Enrico Tiberi (Tapewhore) e Lane Shi (Otay:onii). Tiberi é uma aposta segura para promover o legado de Rossetti, conseguindo soar algo familiar mas deixando o seu toque pessoal. Já Shi é uma escolha complementar e que, de certa forma, concede à nova sonoridade uma qualidade algo reminiscente da colaboração dos Cult of Luna com Julie Christmas em «Mariner». Dada a qualidade do álbum, é difícil escolher a melhor faixa; é, porém, mais fácil salientar que “Simulacra” é uma das mais longas que a banda já gravou, ultrapassando os 17 minutos, e que tem também um dos refrões mais orelhudos. O álbum é surpreendente e exige várias audições para se irem descobrindo novas camadas e detalhes. Um deles é a conexão entre a última faixa “51°28'30" S, 73°6'11" W” e a primeira “52°30'11" N, 13°26’12" E”, pois a transição entre ambas é feita com a mesma melodia, permitindo que o disco funcione num loop contínuo. Este encerrar do círculo associa-se ainda a temas líricos encontrados neste disco como “I have turned the hourglass while I am still trying to connect the dots” [“Virei a ampulheta enquanto ainda tento ligar os pontos”]. Estes pequenos detalhes e ligações a vários níveis elevam o conceito do álbum como um todo. Como já nos habituaram, The Ocean criam trabalhos conceptuais e grandiosos, e o novo disco não é excepção. Texto: João Gama
(Review) THE OCEAN – «Solaris» – Pelagic Records
Publicado há 2 horas
• Reviews