SVALBARD- "quando tens uma canção que reflita o que estás a sentir, isso quer dizer que já não estás sozinho, esse é o objectivo"

The Weight of the Mask” é o mais recente álbum dos britânicos SVALBARD e foi o mote para a conversa com a, muito simpática, Serena Cherry que, não só desvendou os segredos do álbum como do sucesso da banda. A entrevista é do Nuno C. Lopes


 


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HellHeaven: Os Svalbard estão já na segunda década de carreira, como é que olhas para o percurso da banda e para o que foram os primeiros 10 anos?


Serena Cherry: Os últimos 10 anos têm sido fantásticos e tem sido feito de sentimentos fantásticos! Especialmente por termos feito este percurso juntos e tanto eu, como os meus companheiros de banda, podermos partilhar todos os passos deste caminho1 Temos adorado cada segundo, desde tocar em pequenos clubes para duas pessoas, de dormir no chão para tocar no Hellfest este ano, é incrível! Poder partilhar estas experiências enquanto crescemos como banda e aumentamos o número de pessoas que nos ouvem e sentir essas diferenças! Ver que as pessoas estão mais dentro da nossa música, a saberem as letras e a virem aos concertos tem sido muito caloroso e estamos muito satisfeitos com o percurso!


 


HellHeaven: Para ti, enquanto mulher, e existindo cada vez mais mulheres no meio, sentes alguma diferença de tratamento em relação ao passado?


Serena Cherry: Estamos a viver tempos muitos excitantes para as mulheres na música e para as mulheres no que ao Metal diz respeito. Adoro o facto de poder ir a um festival e ver tantas mulheres fantásticas em bandas e em cima do palco porque há dez anos atrás não era esse o caso, nessa altura eu seria, talvez, uma das poucas mulheres e não estávamos muito representadas! (risos) Agora há muito mais representatividade e as mulheres já são Metal! (risos) É fantástico ver tantas mulheres a actuar e as mudanças surgem também no tratamento. Há 10 anos atrás recebia comentários do género: “és groupie?” ou “para rapariga dás-lhe bem!”, até ao ponto de ficarem surpresas por estar ali uma mulher ou não me deixarem entrar nas salas porque pensarem que era a namorada de alguém..vivi isso tudo! (risos) Já não acontece há algum tempo, por isso, acho que as coisas estão muito melhores para as mulheres! (risos)


 


HellHeaven: As mudanças não se ficam por aí, também em termos sociais, especialmente depois da pandemia. Isso trouxe alguma mudança na forma de trabalhar dos Svalbard e como olham, enquanto banda, para o que vai acontecendo no Mundo?


Serena Cherry: A pandemia foi uma situação muito frustrante para nós enquanto banda, para ser honesta contigo ela veio tirar alguma da alavancagem que estávamos a ter, foi um sentimento horrível ver as digressões canceladas, concertos cancelados! Essencialmente o que fazes foi rotulado como não essencial, ao ponto de começares questionar porque o fazes! Deixas de ver o futuro e nem sabes o tempo que as coisas levam a curar, simplesmente continuas sem aquilo que te faz sentir vivo! Enquanto banda, como vivemos todos em cidades distintas, nem nos podíamos encontrar, não podíamos fazer música em conjunto e foi necessário encontrar o nosso ritmo novamente depois da pandemia e sentir-nos uma unidade novamente! Foi muito desmotivador quando tudo isso aconteceu!


 


HellHeaven: Como é que foi quando se reencontraram novamente?


Serena Cherry: Foi fantástico! (risos) Depois de tanto tempo afastados foi lindo estarmos juntos numa sala de ensaio a fazer uma jam, foi como uma reunião com os teus amigos ou com a tua família, foi como se uma parte da tua luz regressasse para ti, foi incrível! Sinto-me muito grata e há uma coisa que posso dizer que o Covid me deu, sinto-me muito mais agradecida por poder estar em cima do palco, sempre tive esse sentimento mas agora está num nível muito mais alto! Ao mesmo tempo estou mais contemplativa nos concertos e a usufruir cada momento com os restantes membros da banda, são coisas que vou guardar porque nunca se sabe o que pode acontecer!


 


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HellHeaven: É engraçado que digas isso porque os Svalbard são muito mais que uma banda, são um grupo de amigos e a comunicação parece ter um papel muito importante na vossa relação, mas também na tua escrito. Como é que tudo isso influenciou o novo álbum?


Serena Cherry: Quando regressámos após a pandemia tínhamos muita frustração que poderíamos canalizar para o novo álbum, talvez por isso alguns dos temas deste álbum são mais pesados e agressivos! Isso aconteceu porque estávamos frustrados por não conseguirmos tocar e isso sente-se ao longo do disco, mas também podes sentir alívio! Quand regressámos existia o sentimento de: estamos de volta, estamos a tocar, somos capazes! E isso trouxe uma outra dinâmica ao disco. O facto de sermos amigos seja com que seja fácil deixarmo-nos levar por estes temas mais duros e escrever temas mais directos. É confortável porque somos todos amigos e já nos conhecemos bem, e isso dá-nos o conforto de poder chorar em frente uns dos outros ou poder mostrar as nossas emoções mais obscuras e isso faz com que nos apoiemos sempre nestas situações!


 


HellHeaven: “The Weight of the Mask” é, para ti, um disco muito pessoal dado que não te limitaste a falar das tuas emoções mas debruças-te sobre temas como a saúde mental ou o isolamento, o que, cada vez mais, é uma norma. Como pode a música salvar uma vida?


Serena Cherry: Essa é uma grande questão! Acho que o poder de resiliência e de escrever temas que possa descrever o que uma pessoa está a passar, como a escuridão que possa levar essa pessoa a sentir-se sozinha nela mas, quando tens uma canção que reflita o que estás a sentir, isso quer dizer que já não estás sozinho, esse é o objectivo dos Svalbrad, fazer com que as pessoas que, por exemplo, estejam a batalhar com a depressão, com um problema mental ou um mau período não se sintam sozinhas e que estes temas estão contigo, não te vão curar ou ensinar a fingir um sorriso, os nossos temas são feitos para te fazer sentir confortável e confortar e acho que dessa forma uma canção pode salvar uma vida, não ter medo de mostrar as emoções e mergulhar na escuridão!


 


HellHeaven: A tua escrita é muito direta e pessoal, existe algum receio de que te estejas a expor demasiado ou é algo que tens necessidade de fazer?


Serena Cherry: Não podemos silenciar o que nos vai na cabeça nos tempos difíceis, especialmente nos últimos três anos com a pandemia! Faz-te sentir vulnerável e frágil para escrever estes temas! Faço letras concisas e óbvias de forma a que quem leia as letras entenda a escuridão e as profundezas da minha tristeza. Isso faz com que te sintas frágil porque parece que andas com o coração debaixo do braço para que todos o vejam, mas não queres que isso te defina, não queres apenas ser esta pessoa que luta com a depressão e, ao mesmo tempo, penso que é importante expressar, de forma genuína, a tua emoção na música. Nunca serei capaz de fingir uma emoção diferente ou pretender ser obscura, não quero escrever dessa forma porque é uma forma de me ligar às pessoas e quero ter esse poder de “encaixe” com as letras, por isso é uma faca de dois gumes, pode expor-me e mostrar as minhas fraquezas e criar letras muitos frias e cortantes mas, se ajudar alguém que as ouça para mim está perfeito!


 


HellHeaven: “The Weight of the Mask”, qual o sentido deste título e o que representa?


Serena Cherry: O peso da máscara é uma representação, é simbólico! Quando falo assim quero dizer que é a pressão externa das sociedades, dos amigos, da família, os amigos e a tua vida. O facto de teres que mostrar que está tudo bem quando não estás e teres de usar está máscara para mostrares que está tudo bem, porque se o fizeres de outra forma há o pensamento de que não vais ser tolerado e que não podes mostrar os teus pensamentos negativos. Enquanto sociedade somos ótimos a falar sobre saúde mental mas não somos tão bons a falar sobre as doenças mentais e a aceitar a realidade da depressão, por isso não é confortável ou fácil estar deprimido na nossa sociedade. É algo que é visto de forma muito crítica e há quem chame de “depressivo” ou esse tipo de coisas. Por isso, “The Weight of the Mask” simboliza a pressão de parecer estar feliz e a pressão de agir perante as outras pessoas. A máscara também é uma espécie de barreira isolante que te bloqueia em ti mesmo e te previne de estar ligada com o Mundo, o que representa a espiral descendente e a natureza cíclica da depressão.


 


HellHeaven: O mais recente single é o “How to Swim Down” que teve direito a um vídeo cinco estrelas. Qual a história do tema e como surgiu a ideia para o vídeo?


Serena Cherry: O “How to Swim Down” é uma história de amor! Uma história de uma amor não correspondido e que te coloca uma chama ardente no peito por alguém que sabes que nunca vai saber e que nunca vai descobrir! É uma adoração à distância mas na letra faço a analogia de estar num Mundo em guerra emq ue o teu papel é de estar na retaguarda a curar as pessoas e não estar obviamente na frente das batalhas que estás a travar. Acho que é simbólico deste amor à distância e usei essa analogia no tema. O vídeo retrata isso mesmo!


 


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HellHeaven: Quais são as expectativas em relação a “The Weight of the Mask” e qual o feedback que já receberam até ao momento?


Serena Cherry: A receção que temos tido aos temas lançados tem sido fantástico de assistir! As pessoas estar entusiasmadas com os temas e estamos a receber muitos elogios com os temas que já demos a conhecer! A “Eternal Spirits” que é um dos temas mais pesados que já fizemos estão a receber um excelente feedback e isso deixa-nos confiantes e tem sido muito bom receber estas reações. Estávamos um pouco receosos em lançar o “How to Swim Down” porque é como uma curva perante o que já tínhamos mostrado mas tem recebido um feedback excelente, com pessoas a dizer que o tema é triste e que as fez chorar, muitas pessoas disseram-nos isso e considero um elogio porque só quando fazes arte com sentimento consegues ter este tipo de reação! Quanto ao álbum, estou ansiosa que o álbum saia, trabalhámos muito tempo nestas canções e queremos muito que as pessoas as ouçam e, espero, poder tocar ao vivo, esse será o próximo passo!


 


HellHeaven: Falando em digressões que, finalmente, é possível, quais são os desafios? Especialmente porque são uma banda britânica e, infelizmente houve o Brexit. Quais são os planos?


Serena Cherry: O Brexit foi, e desculpa as palavras, fodido para toda a gente e, principalmente, para as bandas! Foi muito mau! Agora, quando temos de ir para território europeu custa três vezes mais porque tens de pedir vistos e todas essas coisas! Há muita burocracia agora o que envolve maior planeamento, logisticamente é muito difícil e parece que estás num caminho de lama e o Brexit trouxe esse sentimento de frustração porque sentimos que estamos presos! Tentamos sair o máximo possível mas estamos muito limitados! Torna-se ainda mais frustrante porque nenhum de nós pediu isto mas somos nós que sofremos as consequências. Ir aos EUA é sonho mas o custo é ainda maior e corres o risco de pagar e não ter o visto, por isso é arriscado, mas adorávamos fazer e está na lista de planos, apenas temos de encontrar uma forma de o fazer!


 


HellHeaven: Inglaterra tem estado a atravessar algum período de instabilidade, a Rainha morreu, o Charles subiu ao poder e há um crescente movimento a crescer para que regressem a UE. Como estão as coisas por aí?


Serena Cherry: Seria fantástico o país regressar à UE! O que é estranho é que há muita divisão entre os que votarão a favor e contra o Brexit e percebe-se que há uma diferença geracional porque foram os mais velhos que votaram a saída mas quem sofre as consequências são os mais novos. Espero que este nova geração se possa unir e ganhar mais poder para que possamos, quem sabe, regressar à União Europeia, porque é isso que eu e toda uma geração pretende.


 


HellHeaven: Algo que me deixa receoso são estas mudanças no Mundo, quando um membro fundador da UE sai, quando se vê um país invadir outro e, também, quando se vê uma sociedade cada vez menos tolerante e desassossegada. Como olhas para o Mundo actual e como podemos mudar tudo isto?


Serena Cherry: O Mundo actual está cheio de conflito e desinformação, ao mesmo tempo está cheio de manipulação política e de comportamentos desviantes das pessoas no poder! Acho que há uma divisão enorme entre os mais ricos e os mais pobres e a meritocracia social e a habilidade para vivermos em sociedade está nos níveis mais baixos de sempre! Acho que está tudo muito dividido e, como disseste, muito menos tolerante e isso faz soar os meus alarmes, por outro lado, existe uma nova geração que começa a surgir e estão a conseguir com a sua arte, com a sua voz e com os seus protestos mostrar que fazem parte de tudo o que acontece, e isso enche-me de esperança porque sinto que estas novas gerações estão a progedir ao contrário das gerações mais velhas. Espero que as coisas melhorem porque neste momento sinto que as coisas estão cada vez piores!


 


HellHeaven: Olhando para o futuro como vês os Svalbard daqui a 10 anos, por exemplo? Onde gostarias que a banda se encontrasse?


Serena Cherry: Gostava de andar em digressão o máximo possível e conhecer o maior número de países possível! (risos) Adorava que esta banda fosse o meu trabalho a tempo inteiro e fazer vida disto, seria fantástico! (risos) Mas o foco da banda é continuar a seguir em frente, fazer música juntos e a continuar a sentir esta chama a arder dentro de nós pelo amor à música, isso é o mais importante e especial para mim e não me importa se estamos a tocar em fresnte a milhares de pessoa num festival ou não, até podemos estar a tocar juntos na sala de ensaio, o sentimento é o mesmo! O que interessa é que daqui a 10 anos ainda tenhamos esta paixão e este desejo de criar música.


 


HellHeaven: Qual a mensagem que deixas para os teus fans portugueses…


Serena Cherry: Quero agradecer a todos o apoio que temos recebido e, para os que não nos conhecem podem sempre escutar a nossa música. Ainda não tivemos a oportunidade de ir tocar aí mas gostaríamos muito de ir aí um dia! Muito Obrigado!


 

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