
Tal como aconteceu com todos os habitantes deste terceiro calhau a contar do Sol, os australianos viram a sua vida parar quando se encontravam numa espiral de ascensão, daí que a pandemia os tenha arrastado para um estado maior de solidão e de revolta.
É assim que chegamos a este novo álbum que, ainda que encontre semelhanças com os seus antecessores, nos trazem uma banda revigorada e a querer recuperar o tempo perdido e fazem-no com a mestria que já haviam revelado. Nem sequer precisamos de muito para perceber isto mesmo, até porque uma “The World Breathes With Me”, com os seus 10minutos, desfaz todas as duvidas e “Golem” continua a prender o ouvinte, seja por uma produção eximia e por uma nuance nos australianos que conseguem, em simultâneo, ser a raiva, a doçura, a esperança em tempos de ausência de luz. Se antes poderíamos encontrar algumas coordenadas para situar a banda, desta vez os australianos estão tão dispares como um certo recomeço após um mal estar inesperado. Não sendo um álbum conceptual “Charcoal Grace” consegue ser de fio a pavio um registo obrigatório e, se duvidas existam, basta escutar a faixa titulo, um pináculo nos seus 24minutos de melodia intrínseca que nos perfura o corpo e desmonta a alma. Os australianos estão (nunca deixaram de estar!) no topo de forma e “Charcoal Grace” é um dos grandes momentos do ano. Deixar passar este álbum e sacrilégio.
Texto: Nuno C. Lopes