MASTODON: Passado, Marrow Deep e Futuro

Nuno C. Lopes e João Gama mergulham no passado dos Mastodon e enfrentam Marrow Deep, entre perdas, legado e futuro.

Com Marrow Deep, o nono álbum de uma carreira iniciada em 2000, os norte-americanos Mastodon continuam a destilar atitude e vitalidade, mesmo depois de toda a poeira que tem girado à sua volta.

Desde Remission (2002), o quarteto foi construindo uma sonoridade impossível de catalogar, mas foi com Leviathan (2004), inspirado em Moby Dick, que os Mastodon atingiram a cena com estrondo. "Blood and Thunder" e "Iron Tusk" ajudaram a moldar o futuro da banda e do Rock mais pesado, abrindo caminho para uma escalada que Blood Mountain (2006), Crack the Skye (2009) e The Hunter (2011) haveriam de confirmar. A banda crescia, reinventava-se e conquistava público e crítica sem nunca se prender a uma fórmula.
Once More 'Round the Sun (2014) e Emperor of Sand (2017) mantiveram os Mastodon no topo. Com "Sultan's Curse" chegou o primeiro Grammy, enquanto "Show Yourself" se transformava num dos maiores êxitos da sua carreira.
Mas eis que a vida começa a cobrar a sua factura. Em 2018, Nick John, tour manager e amigo de longa data, morreu vítima de cancro do pâncreas. O luto acabaria por ganhar forma em Hushed and Grim (2021), o oitavo álbum e, até então, o trabalho mais negro e progressivo da banda.
Depois veio Brent Hinds. Em Março de 2025, o guitarrista e membro fundador deixou os Mastodon. A separação, inicialmente apresentada como uma nova etapa, acabaria por ganhar uma dimensão trágica. A 20 de Agosto desse mesmo ano, Hinds morreu num acidente de viação em Atlanta. Tudo o resto deixou de importar. Ficava a perda de um amigo, de um companheiro e de um dos homens que ajudaram a construir o som dos Mastodon.

É neste cenário que surge Marrow Deep. Inevitavelmente, é o primeiro disco sem Hinds, mas é também o primeiro álbum do resto da carreira da banda. Um novo começo construído sobre uma história demasiado pesada para ser esquecida.
É estranho ouvir Mastodon sem Brent Hinds? Claro que é.
Mas os Mastodon já provaram que sabem sobreviver às tempestades. E, enquanto houver música, o mastodonte continuará a avançar.
Dos fracos não reza a história. E os Mastodon continuam a escrever a sua. Texto: Nuno C. Lopes

(Review) MASTODON – «Marrow Deep»  – Loma Vista Recordings

À exceção da saída do vocalista Eric Saner no ano em que foram formados, os Mastodon mantiveram a formação original até à saída de Brent Hinds. Esta marca então a primeira grande alteração na formação consolidada da banda ao longo da sua carreira, levantado algumas questões em relação ao futuro da sonoridade da banda de Atlanta. «Marrow Deep» surge para tirar quaisquer dúvidas, pois os Mastodon revelam-se em plena forma. «Marrow Deep» é o seu álbum mais pesado desde a fase de «Leviathan» e «Blood Mountain», sendo Bill Kelliher uma máquina geradora de riffs destruidores. Portanto, o disco promete assim agradar, especialmente, a fãs de longa data. Ao mesmo tempo, por «Marrow Deep» também permeiam alguns elementos de discos posteriores, ilustrando-o com detalhes interessantes, mais melódicos e progressivos. A atmosfera do álbum é mais escura do que antes, deixando transparecer honestamente as perdas pelas quais a banda tem passado ultimamente. Quanto às vozes, a banda ficou reduzida a dois vocalistas, e aí sente-se facilmente a falta da sonoridade singular da voz de Hinds. Contudo, Troy Sanders e Brann Dailor fizeram um trabalho impecável, salientando-se principalmente Troy cuja voz parece amadurecer cada vez melhor a cada novo álbum. Os novos membros, Nick Johnston e João Nogueira, mostram-se bem integrados sem destoar no grupo. O último acaba por brilhar um pouco mais neste disco, uma vez que há uma maior ênfase nos teclados, que, por sua vez, destacam um toque progressivo por vezes evocando bandas como Dream Theater ou Opeth.  Além de tudo isto, o disco conta ainda com vários músicos convidados, incluindo Geezer Butler, que o vieram enriquecer ainda mais. Para dissipar qualquer dúvida, com «Marrow Deep» os Mastodon afirmam a sua identidade com segurança. Texto: João Gama

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