De regresso aos textos de opinião, o Nuno C. Lopes manda as suas Postas de Pescada sobre o tudo e sobre o nada e tudo o que está no meio.

Nas últimas duas décadas assistimos a uma revolução tecnológica que transformou hábitos, formas de trabalho e modos de vida. Apresentada como um bem maior, esta mudança trouxe facilidades, mas também consequências discutíveis, visíveis sobretudo na forma como cidades e culturas foram sendo descaracterizadas.
Em Portugal, muitas cidades perderam parte da sua identidade para dar lugar a um modelo de consumo rápido, alimentado por nómadas digitais e “influencers” que privilegiam a aparência em detrimento da tradição. Entre hostels e alojamentos locais, os habitantes são afastados e a autenticidade transforma-se em cenário turístico — tudo em nome de um progresso que pouco deixa para trás.
Também na música e na arte o impacto será inevitável. Tal como aconteceu com outras revoluções tecnológicas, a inteligência artificial ameaça colocar o artista em segundo plano, reduzindo a criação a um produto gerado por máquinas.
A luta já começou e promete ser longa. Como tantas vezes acontece, o preço do progresso poderá acabar por ser pago pela própria humanidade.