
De regresso aos textos de opinião, o Nuno C. Lopes manda as suas Postas de Pescada sobre o tudo e sobre o nada e tudo o que está no meio.
Um dos produtos mais exportados do Brasil, além do futebol, são as telenovelas. Talvez por isso uma conhecida banda brasileira — e os seus actuais e antigos membros — mantenha viva uma espécie de trama (ficcional ou não) há mais de três décadas. Falamos dos Sepultura e da família Cavalera.
Mas será esta “novela” responsabilidade apenas deles? Provavelmente não. Por um lado, os dissidentes alimentam a narrativa para se promoverem, muitas vezes com pouco bom gosto; por outro, os restantes membros tentam, em certa medida, apaziguar a situação, ainda que por vezes respondam com provocações (como convites para actuações conjuntas). A isto juntam-se mais dois intervenientes: a imprensa, que amplifica o conflito por saber o impacto que tem no público, e os fãs — sobretudo os mais antigos — que resistem a aceitar que “o que foi já não volta a ser”, ignorando alguns factos.
Entre esses factos: Max Cavalera não foi despedido, tendo a ruptura sido motivada pelo afastamento de Glória Cavalera; Derrick Green já gravou mais álbuns com a banda do que Max (a qualidade é subjectiva e varia consoante a opinião de cada um); o cenário actual deu origem a várias bandas em vez de se perder apenas uma; os Sepultura não tocam temas de Soulfly ao vivo; e os irmãos Cavalera — juntamente com Glória — continuam a criticar a banda, mesmo quando esta procura encerrar o ciclo com dignidade. Ainda assim, os Sepultura mantiveram-se relevantes e em evolução enquanto músicos — algo que levanta dúvidas quanto ao percurso de Max e companhia.
No fim, tudo isto mostra que o público do metal também aprecia uma boa “novela” e, muitas vezes, tende a viver preso ao passado. Tal como acontece com tantas outras bandas após mudanças de vocalista, há quem siga em frente e quem prefira prolongar um passado que dificilmente voltará a ser futuro — pelo menos, até à próxima “temporada”.