De regresso aos textos de opinião, o Nuno C. Lopes manda as suas Postas de Pescada sobre o tudo e sobre o nada e tudo o que está no meio.
Todos nós, em algum momento, quisemos ser alguém. E, em algum momento, quiseram que fôssemos alguma coisa. Há sempre aquele sorriso dos mais velhos quando perguntam às crianças o que querem ser quando forem grandes. As respostas variam: bailarina, médico, professor, padre, jogador da bola ou músico. Os sonhos mudam, transformam-se e, muitas vezes, parecem morrer. Mas nem sempre. Às vezes, o verdadeiro chamamento surge mais tarde, quando o tempo permite recuperar aquilo que parecia perdido.
A vida dos músicos está longe da imagem de festa constante e sucesso fácil. Esse privilégio pertence apenas a alguns — e nem sempre aos melhores. O caminho exige coragem, amor, dedicação e sacrifício. Quilómetros de estrada, cidades vistas sem serem realmente vividas, deixar tudo para trás e continuar sem vacilar. Muitas vezes, o sonho deixa de parecer um sonho.
Também eu quis ser jogador de futebol e músico. Nunca quis ser médico nem engenheiro. Hoje, sou apenas alguém que escreve sobre música, da mesma forma que os músicos escrevem a sua própria arte. Três décadas depois, continuo a seguir esse chamamento adolescente, alimentado por uma infância feita de Genesis, Pink Floyd, The Exploited e tantos outros.
Dar a vida à arte — seja a criá-la ou a escrever sobre ela — implica sempre uma troca. Exige tempo, entrega e a capacidade de lidar com o vazio quando as luzes se apagam e o silêncio chega.
E, no fim, permanece sempre a mesma pergunta: o que queres ser quando fores grande?
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