
No passado dia 18 a Music Station, ali para os lados do Oriente, recebeu o regresso do Under The Doom. Numa noite que tinha os Rotting Christ e Borknagar como os mais esperados, nenhuma das bandas se deixou intimidar e todas elas se revelaram em grande forma. Texto: João Gama Fotos: Nuno C. Lopes
Teremos de começar por dizer que o Music Station é uma excelente sala e que congrega todas as condições para se tornar (mais) um local para receber grandes concertos e eventos, como aquele que aconteceu este fim-de-semana, no regresso, há muito aguardado do Under The Doom!
É certo que, neste primeiro dia, o Doom esteve mais distante e o Black Metal mais próximo, no entanto, o público que encheu a sala lisboeta não se fez rogado e assumiu todas as bandas como suas e todos os momentos como seus.
Com honras de abertura os portuenses Anzv mostraram que estão cada vez mais banda, em cima do palco a banda consegue trazer os sabores e cheiros da Mesopotâmia, carregados de um Black Metal cada vez mais eficaz e energético. Por aqui já valeu cada quilometro feito de Madrid a Lisboa por este vosso escriba. Contudo, isto era só o começo, até porque, perante uma (quase) inexistente luz, os "repetentes" Process of Guilt foram iguais a si próprios e, como sempre, os eborenses trouxeram um concerto imersivo, pujante e onde, novamente, provaram ser uma das mais virtuosas bandas do género e o público, que se começava a alojar na sala, soube receber e elevar a atuação da banda.
O Music Station é uma sala reconfortante e, entre um passeio e outro, encontra-se a multidão do Doom, que se "arrasta" entre o Merch e uma zona exterior bem confortável e que deixa que o corpo se prepare para os franceses Seth, a surpresa da noite. Tudo encaixa (quase) na perfeição. São mais de duas décadas de Black Metal da mais alta qualidade. Entre a penumbra vislumbra-se corpsepaint e um Saint Vicent com as vestes de uma homilia servida ao som de "La France des Maudits", um dos grandes álbuns do género em 2024! A banda é uma parede sonora intransponível e sedenta de negrume! Para os mais desatentos terá sido uma surpresa, para outros uma celebração. Os Seth não deixaram ninguém indiferente!
Conforme a noite ia avançando sentia-se no público o entusiasmo e a ansiedade a aumentar e, rápidamente, se percebeu que os noruegueses Borknagar eram uma das mais aguardadas! A celebrar as três décadas de existência estes senhores são porta-estandartes da mitologia e sonoridade nórdica! Poderíamos falar de ICS Vortex, um bom gigante que enche o palco com a sua imponência e na forma como maneja o seu baixo, parecendo com que o mesmo pareça um brinquedo de meninos. No entanto, a força deste quinteto está na forma como agem enquanto unidade. Thomassen é o charme, Brun a sombriedade, Nedland o calor de uma aura boreal e Rønnow o pendulo que faz o tempo perdurar além do tempo. Com o novo álbum, "Fall", como pano de fundo, de onde saíram "Nordic Anthem" e "Summits", a banda revisitou a sua carreira com temas como "Up North", "Moon" ou "Colossus", numa actuação irrepreensível e sem qualquer mácula e sim, tocaram "Winther Thrice" e "Dauden", foram imponentes!
Para o fim os Rotting Christ apresentaram-se em grande nível, a celebrar os 35 anos de carreira os gregos cedo mostraram ao que vinham: "we are Rotting Christ and we play Black Metal". Para gáudio da enchente perante si os gregos agarraram o público, sedento diga-se de passagem pelos novos e velhos clássicos da banda. Em cima do palco a banda faz dali o seu "recreio" e diverte-se enquanto desfila clássico, após clássico, enquanto o público reage com êxtase a cada nota e cada letra vociferada por Sakis Tolis. A forma como a banda arranca com "Aelo" revela bem a forma em que a banda se encontra, sendo que, do mais recente (e idolatrado) "Pro Xristou", a banda saca uma poderosa "Like Father, Like Son", intercalada com "The Sign of Existence", "Non Serviam" ou a versão para "Societas Satanas" (Thou Art Lord). Pelo meio ficaram os clássicos "Demonon Vrosis", "Pretty World, Pretty Dies" ou "...Pir Threontai" mas, ficou também a certeza que os gregos são uma força da natureza. Findo o concerto ficam as recordações de uma grande noite e a certeza de que os Rotting Christ são Deuses do Olimpo e o palco a sua casa. Imperiosos e de uma beleza mediterrânica a banda está no topo da sua forma de onde, convenhamos, parecem nunca ter saído.
Hora de regressar a Madrid com a certeza de um regresso em força do Under The Doom (já tínhamos saudades) e as memórias de uma grande noite de Heavy Metal...daquelas que deixam uma marca profunda num corpo feito de ferro e enxonfre. Todos de parabéns: público, Notredame Productions (organização), bandas e Music Station. Habemus Festival.