(Entrevista) ALKIMISTA - "a cena nacional é maior do que se vê e de muita qualidade”

Com «Contraste», Alkimista encerra a tetralogia dos elementos. Pedro Serpa falou com João Gama sobre o álbum, inspirações e futuro do projeto.

HELLHEAVEN: Olá, e parabéns pelo novo álbum «Contraste»! O que podes dizer acerca da sua recepção?

Pedro: Olá, obrigado mais uma vez pela atenção e oportunidade de divulgar este novo disco. Ainda só saiu há duas semanas, e não posso dizer muito nesta altura. À falta de concertos, espero que com a co-edição da Selvajaria Records e da Prophetical Productions consiga chegar a mais ouvidos.

HELLHEAVEN: O título «Contraste» reflecte a temática abordada no disco. Podes contar um pouco sobre os contrastes e conflitos que te inspiraram? Dirias que o disco retrata apenas conflitos pessoais, ou que se estende também a conflitos sociais (maior polarização)?  

Pedro: A minha abordagem é muito emocional. Se não for algo com que tenha resposta emotiva, não sinto que vale a pena escrever. Nem tudo é sobre mim. Gosto de manter alguma ambiguidade pois consegue alcançar mais além do que apenas o discurso na primeira pessoa. Este disco aborda contrastes nas vivências, nas relações, expectativas. Nem sempre são boas, muitas vezes dolorosas, algumas inesquecíveis. Deixo à interpretação dos ouvintes a procura do significado, que pode não ser exactamente o mesmo que o meu.

HELLHEAVEN: Nesse sentido, queres então aproveitar para aprofundar o significado de alguma(s) das músicas do disco? 

Pedro: Prefiro não explicar o significado das músicas. Para mim elas têm uma ou mais ideias e pontos de vista, mas quando as músicas saem cá para fora, deixam de ser só minhas e passam a existir nas mentes e corações de quem as ouve. Nessas novas casas elas habitam em lugares diferentes e por vezes surpreendentes.


HELLHEAVEN: Voltando aos contrastes, eles estão presentes não apenas liricamente, mas também musicalmente. Especialmente, nota-se realmente um lado mais “cru” e pesado a contrastar com as partes mais melódicas e com as vozes dos convidados. Como trabalhaste estes contrastes? Foram algo que tinhas em mente desde o início, ou foi algo a que foste dando mais ênfase à medida que surgiam? 

Pedro: Foi algo que esteve sempre presente, foi o tema de onde germinou todo o disco. Não estava nos planos compor mas as vicissitudes assim que “empurraram” e agarrei o tema para me ajudar a ultrapassar o momento e fazer algo positivo e construtivo. É algo que está na essência deste projecto, desde o primeiro disco. Em termos musicais, sempre apreciei os contrastes. Aprecio bandas que têm um espectro musical variado e também os contrastes em que cada música consegue tocar-nos de diferentes maneiras.

HELLHEAVEN: Apesar de Alkimista ser um projecto a solo, já não é a primeira vez que colaboras com o David Soares e a Rita Correia. Qual foi o seu papel nesta colaboração? Pensas que o projecto se possa estar a expandir a banda?

Pedro: Desde o «Viagem» que comecei a trazer outras pessoas para enriquecer as músicas, seja como compositores ou intérpretes. Cada um, dá um pouco de si que é único. Não só complementa, mas principalmente preenche com algo que eu não seria capaz de trazer. Não vejo o Alkimista tornar-se uma banda no sentido tradicional, mas quero continuar a trazer quem queira fazer parte dele. O David escreveu a letra a partir do tema geral do disco e trouxe a sua visão erudita ao conflicto da criação. A Rita, tal como da última vez, trabalhou a partir das melodias que tinha composto e expandiu-as, dando o seu cunho pessoal à interpretação.

HELLHEAVEN: Como já fazias anteriormente, o disco foi integralmente gravado em casa. A excepção foi a voz da Rita que foi gravada em estúdio. Também isto parece contribuir para intensificar os contrastes. Esta gravação em ambientes distintos foi propositada, ou fruto das circunstâncias?

Pedro: Em casa consigo fazer quase tudo. Embora me sinta algo contido nas gravações vocais. Recordo que apenas gravei em estúdio a minha voz no disco «Cinzas», que foi um momento pivotal na abordagem da voz. Preferia ter mais tempo livre para explorar vozes em estúdio, talvez no próximo registo. Quanto à Rita, ela gravou no estúdio onde ensaia com a sua banda, Smooth Garage, onde está mais à vontade.

HELLHEAVEN: Também a capa do disco reflecte os tais contrastes, quer em termos do contraste entre vida e morte, como na coloração. Concordas? Quem foi o artista? E quão envolvido estiveste?

Pedro: A ilustração da capa foi feita por mim. Como designer/ilustrador consigo desempenhar as várias tarefas necessárias para o grafismo acompanhar os temas dos discos. Sem querer explicar demasiado, a capa retrata um crânio decorado com lírios, aparentemente abandonado, rodeado de vegetação natural. A pessoa foi enterrada viva, apenas com a cabeça acima da terra. A cor roxa e as flores estão associadas à morte e aos costumes funerários. Estas são as imagens pictóricas mais óbvias. Como a arte pode ser subjetiva, outras interpretações ficam em aberto. Eu tenho a minha. Outros podem encontrar algo mais relacionado com as suas próprias vidas e experiências. Podem coexistir ou sobrepor-se.

HELLHEAVEN: Este disco fecha a tetralogia dos elementos que estabeleceste com os discos anteriores, e especificamente foca-se no “Ar”. A teu ver, enquanto compositor, consegues ver os quatro discos de modo independente, ou para ti são todos parte da mesma viagem e não os isolas?

Pedro: São ambas as coisas. Uma entidade independente que também forma um todo maior. Espero que no próximo disco consiga fazer algo diferente o suficiente que se desprenda deste ciclo que começou com o «Entre a Emoção e a Razão» e inicie um novo arco narrativo. Um novo caminho.

HELLHEAVEN: Voltando à questão das colaborações, ao contrário dos discos anteriores, como já referiste, «Contraste» não foi lançado de forma independente. O que podes dizer acerca da colaboração com a Selvajaria Records e a Prophetical Productions?

Pedro: Esta é a pergunta mais simples e prosaica. Ser um artista a solo custa muito. Tem de se fazer tudo: compor, gravar, produzir, projectar, divulgar. E o saldo comercial é sempre negativo. Desta forma conseguir uma co-edição, ainda por cima com duas editoras foi um alívio tremendo! Conheço o Hugo há muitos anos, ainda ele era vocalista dos Simbiose e, eu dava concertos com uma banda na adolescência (os A-M.S.). Tenho-o acompanhado e colaborado com ele no programa rádio “Positive Metal Attitude” e depois com a Selvajaria. Ele também me tem ajudado a divulgar e vender os discos e foi uma escolha óbvia para esta colaboração. E de imediato, ele também sugeriu o Vasco da Prophetical Productions, o qual ainda não tive a oportunidade de conhecer pessoalmente. Agradeço sinceramente aos dois pelo apoio nesta edição!

HELLHEAVEN: Antes de ter sido lançado o disco, revelaste o single “Porto da Raiva” com um videoclipe. Porque optaste por esta música para apresentar o álbum?

Pedro: Estive muito indeciso quanto a qual seria o single de apresentação. Dependia muito do estado de espírito do dia. Mas acabei por escolher o “Porto da Raiva” por ser uma continuação do disco anterior «Viagem» e por ter vários momentos musicais distintos que acompanham o tema do “Contraste”.

HELLHEAVEN: No passado disseste que não planeavas levar Alkimista para os palcos, este é um plano que se mantém? E, sendo esse o caso, pergunto-te então: já estás a trabalhar no próximo disco?

Pedro: À medida que enriqueço a sonoridade do Alkimista cada vez mais se torna difícil traduzir numa experiência fidedigna para os palcos. Por isso, vai continuar a ser um projecto caseiro, de estúdio. Assim que comecei a pós-produção já tinha algumas ideias fortes para o próximo disco, mas ainda é  cedo para avançar. Costumo escrever fora da caixa entre discos e nem tudo o que sai se enquadra no Death/Doom do Alkimista. Por isso, talvez me dedique a um eventual projecto paralelo…

HELLHEAVEN: Obrigado pela disponibilidade. Em relação a entrevistas, a que pergunta gostarias de responder mas nunca te foi feita (e qual a resposta)? 

Pedro: Quando me convidam para alguma entrevista lembro-me sempre de uma coisa que o escritor António Lobo Antunes disse durante uma entrevista e que o deixou a coçar o queixo: “Toda a entrevista é um exercício de vaidade”. Quanto a respostas inéditas, não me ocorre nenhuma de momento, mas será melhor assim para que aconteçam surpresas no futuro.

HELLHEAVEN: Por fim, que mensagem deixas aos vossos fãs/nossos leitores?

Pedro: Agradeço a atenção e desejo boa fortuna à Hellheaven na continuidade do seu trabalho de divulgação dos artistas nacionais. Quanto à mensagem, a cena nacional é maior do que se vê e de muita qualidade. A cena underground está a fervilhar. Há muitos músicos a compor música para todos os gostos e estilos. Apoiem os artistas portugueses. Vão aos concertos, comprem os CDs.

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