(Entrevista) CARNIFICATION - "Actualmente no continente é mais fácil para se ter uma banda de metal”

Os Carnification estreiam-se com «Walking Among Thousands». A HellHeaven falou com a banda sobre este projeto açoriano. Entrevista: João Gama.

HellHeaven: Olá, e parabéns pelo vosso álbum de estreia «Walking Among Thousands»! Como se sentem em relação a ele? Já receberam algumas reacções? 

Carnification: Muito obrigado e desde já agradecemos a oportunidade para falar da banda e também do álbum. Depois de muito trabalho, o resultado final não poderia ter ficado melhor e nós como banda estamos super satisfeitos com isso. Temos vindo a receber algumas críticas do single “Cry of the wind”, todas elas muito positivas, o que nos deixa otimistas para o lançamento do álbum.

HellHeaven: Como dizia, os Carnification estão a estrear-se, nesse sentido gostaríamos de saber mais acerca da banda. Quem integra os Carnification e como surgiu o projecto (e quando/onde)?

Carnification: Os Carnification nasceram em 1993 nos Açores, na ilha de S. Miguel. Durante o seu percurso a banda viu-se obrigada a fazer algumas paragens devido a muitos obstáculos que foram aparecendo pelo caminho e também pela vida pessoal e profissional de alguns elementos. Em 1999 foi lançada a promo track “Embracing solitude”, que recebeu enormíssimas críticas, e até levou a banda a conseguir um contrato discográfico. Em 2001 os Carnification fazem a primeira grande pausa forçada e só regressam à atividade novamente em 2009. Mais tarde banda entra em estúdio para a gravação do seu álbum e já com o trabalho bem adiantado dá-se aquele que é o acontecimento mais triste que até hoje aconteceu no seio da banda com o falecimento do nosso “irmão de armas” Paulo Castro, que para além de baixista era também o produtor do trabalho. Desmotivados, e sem acesso aos ficheiros, todo o processo ficou estagnado e com a concordância de todos os elementos, os Carnification decidem fazer mais uma pausa para clarificar ideias. Sensivelmente há 4 anos e com todas as ideias clarificadas dá-se mais um regresso e com isso uma nova entrada em estúdio para gravar o tão desejoso álbum que está quase a ver a luz do dia. Atualmente os carnification são: Luís Franco (voz), João Raposo (guitarra), Ruben Farias (guitarra), Nuno Carreiro (baixo), Gualter Couto (bateria) e nas teclas ainda temos como músico convidado o Stepan Kobyakin que também foi o produtor de «Walking Among thousands».

HellHeaven: O que está por trás do nome “Carnification”? E qual é o vosso objetivo enquanto banda?

Carnification: Por trás de Carnification existe um grupo de amigos cuja amizade perdura já há muitos anos em que todos têm uma enorme paixão pela música. O nosso objetivo passa por levar o nome Carnification e também o nome Açores o mais longe possível, pois vivemos numa ilha e apesar dos avanços tecnológicos, continuamos a viver rodeados de água. Hoje em dia já é mais fácil sair da insularidade, mas continua a ser uma pequena adversidade.

HellHeaven: Lançaram recentemente o single (e o visualizer de)  “Cry of the Wind”. Porque escolheram esta música especificamente para a primeira apresentação do disco? Consideram-na a mais representativa de «Walking Among Thousands»? 

Carnification: Esta música foi escolhida porque também ia ser lançada na coletânea «Anticiclone 2025» e já tendo trabalho adiantado, juntou-se o útil ao agradável e aproveitou-se a ideia da nossa editora em que o tema “Cry of the Wind” poderia servir como single de lançamento do álbum. Na nossa opinião a música entra bem no ouvido e também tem uma capa visualmente atrativa, por isso foi o tema escolhido mas poderia ter sido outro tema qualquer. Pensamos que no geral está um trabalho muito equilibrado a nível de músicas, em que nenhum tema se está a sobressair em relação a outra, é óbvio que depois cada pessoa terá a sua música preferida, mas para nós é difícil escolher uma.

HellHeaven: Este é um álbum de death metal melódico, mas o que pode o público esperar dele? Como o descreveriam aos fãs nas vossas próprias palavras? 

Carnification: Podemos ser suspeitos no que vamos dizer, mas para nós está um trabalho perfeito porque tem os ingredientes todos. Tem agressividade, melodia, partes rápidas e partes mais lentas, com uma bateria cheia, com teclados sinfónicos a dar uma atmosfera incrível às músicas e com uma voz cavernosa mas poética, enfim... tem tudo. Tentamos colocar a nossa alma neste trabalho e achamos que o objetivo foi conseguido. Quem adquirir o álbum e o ouvir do início ao fim vai pensar aquilo que costumamos dizer: “GRANDE VIAGEM”!

HellHeaven: E conceptualmente, de que trata o disco? 

Carnification: «Walking Among Thousands» é uma viagem conceptual através da condição e consciência humana e da sua transformação. Ao longo do álbum, exploramos temas como a dualidade, a memória, mortalidade, transcendência e o ciclo eterno do renascimento, conduzindo o ouvinte por paisagens emocionais e existenciais. Cada faixa é um fragmento da nossa jornada – desde os corredores obscuros da nossa mente até à procura de um significado pelo cosmos, onde passamos por nostalgia, nos cruzamos com os nossos sonhos e lidamos com a nossa luta interna e necessidade de deixar uma marca no tempo. O álbum constrói-se na ideia de que vivemos entre constante destruição e renovação, perdidos entre milhares de outros mas, ainda assim, em busca da nossa identidade e propósito. É uma reflexão filosófica sobre o que nos torna verdadeiramente humanos: a nossa capacidade de sentir, de cair, de renascer e de continuar a caminhar. Acima de tudo é uma mensagem de Carnification para os nossos ouvintes: mesmo caminhando entre milhares, cada passo deixa a sua marca e esta é a nossa marca no panorama do Death Metal. “We are all as one, walking among thousands”.

HellHeaven: Como diziam, o single “Cry of the Wind” já tinha aparecido na compilação «O Anticiclone 2025». O que nos podem contar acerca deste projecto e da vossa participação?

Carnification: O «Anticiclone 2025» foi  produzido pela associação Basalto Cultural em que estão presentes 28 bandas/projectos com vários estilos musicais em CD duplo (14 em cada CD). A nossa participação na coletânea aconteceu porque fomos convidados a participar nela, e aceitamos o convite sem hesitar, pois é uma coletânea toda “Made in Açores” e é uma honra estarmos ao lado de inúmeros artistas açorianos.

HellHeaven: Isto leva-nos a falar dos Açores e já mencionaram dificuldades. Falem-nos um pouco mais de como é fazer metal aí em termos de oportunidades, apoios e crescimento? Como comparam com o continente?

Carnification: Podemos dizer que o metal nos Açores teve altos e baixos. Na década de 90 foi o melhor período, havia na altura 3 bandas em cada esquina. Depois os elementos destas mesmas bandas começaram a fazer as suas vidas, uns a estudar para fora da ilha, outros a começar no mundo do trabalho e as bandas de metal praticamente desapareceram. Muito poucas ficaram no ativo e o metal açoriano praticamente “morreu” nessa altura. Nos últimos anos tem havido um crescimento no nosso metal porque algumas pessoas/entidades estão a trabalhar para que tal aconteça. Também já houve muitos apoios para este género musical e que em todos os eventos participavam sempre bandas de metal. Neste momento conta-se pelos dedos quando isso acontece. É triste, mas é a realidade. Achamos que actualmente no continente é mais fácil para se ter uma banda de metal, pois se não conseguires atuar no norte, sempre tens o centro, o sul e arredores. E nem é necessário apanhar um avião como aqui nos Açores, basta deslocares-te de carro ou carrinha para chegar a todos os locais. A localização por vezes torna-se muito importante.

HellHeaven: Quais são os vossos planos? Haverá oportunidade para vos ver apresentá-lo ao vivo? 

Carnification: Os nossos planos são em primeiro lugar fazer a maior promoção possível ao álbum. Estamos a contar com a ajuda da Ethereal Sound Works, do Museu do Heavy Metal Açoriano e de todos aqueles que puderem ajudar nesse sentido. A união faz a força! Gostaríamos de apresentar o trabalho ao vivo, mas neste momento é um pouco complicado, pois o nosso baterista reside em Inglaterra e é complicado deslocar-se para fora. Até as baterias do trabalho foram gravadas no seu estúdio, lá está, em Inglaterra. Estamos a tentar resolver este enigma mas está difícil encontrar nos Açores algum músico com as características que ele possui, pois ele é excelente. A ver vamos o que o futuro nos reserva.

HellHeaven: Por fim, que mensagem deixam aos vossos fãs/nossos leitores?

Carnification: Para quem gostar de uma boa dose de death metal melódico com algumas partes sinfónicas, deverá adquirir o nosso álbum «Walking Among Thousands» assim que for lançado e tenho a certeza que não ficarão desiludidos, muito pelo contrário, acho que ficarão surpreendidos com o que vão ouvir.


Os Carnification atreveram-se ainda a dissecar, em Discurso Directo, cada tema do seu álbum de estreia «Walking Among Thousands».


“Unlimited Thoughts” - O nosso tema de abertura mergulha na dualidade inerente à condição humana. Representa o confronto silencioso entre a luz que procuramos preservar e os corredores obscuros da nossa mente, onde pensamentos ganham forma, peso e, por vezes, o controlo. Este tema explora exatamente essa batalha íntima e diária que todos nós travamos: tentar encontrar um equilíbrio entre a esperança e o caos, entre a lucidez e o vazio e entre a razão e a emoção. Trata-se de um reflexo da nossa fragilidade perante os nossos pensamentos e a forma como a nossa mente pode ser refúgio ou prisão. 

“Cry Of The Wind” -  Aqui mergulhamos numa nostalgia, nostalgia de uma era dourada perdida, nos sonhos que ficaram suspensos no tempo e na esperança que um dia regressem. Como uma memória distante que se recusa a desaparecer, uma voz do passado que continua a habitar o presente. Tal como um fantasma que atravessa gerações, o tema reflete a saudade de algo que pode nunca voltar, mas que continua presente na nossa memória: Quase que um sentimento próximo do Sebastianismo. É a transformação do vento numa entidade simbólica: um sussurro vindo de tempos antigos, que carrega ecos de glória, perda e esperança. 

“Voice Of The Wretched Souls” -  Neste tema exploramos a tentativa de compreender o que permanece além da percepção humana: a origem da vida, a energia envolvente, a ligação invisível entre o ser humano e o universo e o mistério que se segue. A música percorre a dúvida, a inquietação e o fascínio pelo desconhecido. É uma viagem existencial através da consciência e do cosmos.

“Endless Journey” - Tal como Ouroboros, a serpente que eternamente se consome e renasce de si própria, o tema cria uma ligação direta ao significado de «Carnification» – que é a transformação da matéria, da identidade e da experiência humana através do tempo, da dor e da renovação – uma destruição que é parte essencial de um ciclo contínuo de criação e a afirmação de que a nossa jornada nunca termina e que apenas se transforma. 

“You Are The Face” -  É a representação do processo criativo, de dar vida e forma às ideias e transformar algo invisível em algo compreensível, tangível e quase humano. Entre o etéreo e o concreto, o tema procura dar rosto ao desconhecido, embelezando o caos interior através de uma linguagem poética. 

“Immortal Throne” -  Um tributo a todos os guerreiros, às suas batalhas e à determinação inabalável daqueles que se recusaram a cair no esquecimento, trata-se de uma homenagem à força humana perante as adversidades. O tema carrega o peso da luta, do sacrifício, da ambição, das derrotas e vitórias – da nossa vontade de deixar uma marca eterna no tempo. O trono aqui simboliza legado, honra e imortalização. 

“Burial Of Dreams” -  É uma reflexão do que carregamos dentro de nós: esperanças abandonadas, versões antigas do que já fomos, sentimentos que resistiram ao passar do tempo, e a forma como estas partes continuam vivas apesar de aparentemente, por vezes, esquecidas. Como flores que entre lápides continuam a florescer, tentamos transmitir que o que nos define verdadeiramente nunca desaparece por completo. É uma mistura de melancolia e contemplação que apresenta a fragilidade humana, não como decadência, mas como prova da nossa capacidade de renascer através de marcas deixadas no passado. 

“Life Trough Death”Uma espécie de II ato da “Voice of the Wretched Souls”, a continuidade de uma viagem existencial através da consciência, morte e a ligação entre o ser humano e o universo. Explora a morte não como um fim, mas sim como uma transformação – uma passagem inevitável para um novo estado de existência. É uma aceitação do desconhecido como parte essencial da existência e aceitação de que a morte pode significar o recomeço de um novo ciclo. 

“Twilight Nebular” -  Novamente dualidade – os dois lados da percepção que temos em nós: subjetivo vs objectivo, realidade contra interpretação e, como a consciência interna reage com a influência externa. “Twilight nebular” existe como os dois lados da moeda, tal como o cosmos: uma força bruta porém bela que é capaz de destruir e criar. 

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