HellHeaven: Antes de mais, agradeço o vosso tempo e disponibilidade. Aproveito para vos dar os parabéns por "Ensemble". Quais as expectativas em redor deste álbum?
JB: Antes de mais o meu agradecimento pela oportunidade que a HellHeaven nos concede, pelas tuas palavras e pelo apoio ao longo dos anos. Bem, em relação a expectativas... São as mesmas que nos discos anteriores, simplesmente, é coisa que não nos ocupa espaço no pensamento! Limitou-se, uma vez mais, a compor e a gravar a música que se sentiu que seria relevante para o desenvolvimento criativo do projecto e que fosse sinónimo de diversão em todo o processo. Existe, de momento, aquele entusiasmo porreiro com o resultado final do que temos em mãos e isso é mais que suficiente.
PBC: Para mim, a parte boa de sermos músicos amadores, no sentido em que esta não é a nossa atividade profissional enquanto fonte de subsistência, é a liberdade que isso nos proporciona. Deixa-nos totalmente livres de expectativas e de preocupações com a aceitação que um trabalho vai ou não ter. Ficaremos sempre mais satisfeitos se alguém gostar do que decidimos fazer, mas isso é só um extra. O verdadeiro gozo está em podermos fazer o que quer que a nossa visão seja no momento, sem mais preocupações nenhumas.
HellHeaven: Já lá vai mais de uma década desde a formação da banda, qual o balanço que fazem do percurso até à data?
JB: Tem sido uma aventura musical interessante até agora! Sinto orgulho em muito do que se conseguiu fazer neste tempo todo enquanto banda, creio, no entanto, que só terei uma resposta completamente objetiva a esta tua pergunta quando já não estiver envolvido nisto.
HellHeaven: Quando percorremos a vossa discografia percebemos que a banda tem evoluído a vários níveis. Qual a melhor definição? Aceitariam algo como Heavy Prog Metal?
JB: Sim...é uma possibilidade! Seria uma boa escolha para definir a nossa sonoridade perante aqueles que não fazem ideia do que somos ou do que fazemos! Sinceramente, sabes que não tenho por hábito perder tempo com esse tipo de noções e classificar aquilo que se passa musicalmente em Hourswill nunca foi um objetivo ou propósito que me fizesse particular sentido.
PBC: Aquilo que eu sinto em relação aos nossos álbuns é que cada um tem uma identidade muito própria no seu tempo. Quero com isto dizer que cada um dos temas se encaixa perfeitamente no álbum a que pertence e em nenhum outro. Isto significa que cada um dos nossos trabalhos discográficos tem o seu propósito contextual, diferente dos anteriores e, por maioria de razão, dos que se lhe hão de seguir. Talvez isto seja percebido como uma evolução, mas não é necessariamente uma evolução no sentido de aprofundamento técnico ou de sofisticação musical. São apenas diferentes etapas de experimentação da nossa própria expressão criativa. Quanto à rotulagem de género musical, tenho muita dificuldade em etiquetar o nosso som, especialmente porque se podem encontrar nele diversas referências que vêm de áreas distintas. Prefiro deixar essa tarefa para quem escutar.
HellHeaven: Depois do Inevitable, em 2014, que os Hourswill estabilizaram a formação com a entrada do Leonel, diriam que a entrada dele na banda vos deu "permissão" para entrar em outros territórios e, assim, ser uma peça chave nos Hourswill?
JB: A formação só estabilizou a seguir à edição do disco anterior "Dawn Of The Same Flesh" com a entrada do Tainan Reis para a guitarra. O Leonel foi muito importante na altura em que se juntou a nós porque nos garantiu a atividade e a continuidade enquanto colectivo ao entrar quase de imediato em estúdio para gravar aquele que viria a ser o nosso 2º disco, "Harm Full Embrace". Desde esses tempos até hoje tornou-se numa peça fundamental para todo este nosso processo, não só pelo que representa como cantor, mas, acima de tudo, pelo excelente ser humano que é.
HellHeaven: "Ensemble" é o vosso disco mais arrojado e desafiador. Qual foi o desafio a que se propuseram para este álbum?
JB: "Ensemble" é um trabalho de natureza inquieta e com elevados níveis de emotividade. A proposta foi a mesma de sempre, dentro das nossas capacidades: a de ir quebrando barreiras e aquilo que é instituído estilisticamente em termos musicais.


HellHeaven: De certa forma conseguimos fazer a ponte entre o anterior "Dawn Of The Same Flesh" e o "Ensemble", ainda que este tenha uma maior experimentação aliada a um trabalho feito de pormenores. É um risco assumido e, em simultâneo, um sinal de maturidade?
JB: Quando se terminou o processo de gravação e posterior edição do "Dawn Of The Same Flesh" senti que poderíamos ter ido um pouco mais longe musicalmente em determinadas partes e momentos. Desta vez, isso não aconteceu, houve mais irracionalidade e menos preocupação. Não se tratou de um risco, mas sim de assumir e congregar de forma espontânea a plenitude do todo que criativamente foi acontecendo. Se isso é maturidade, não serei o gajo indicado para essa análise. O que sei é que poderá haver muito de inconsciente nisto tudo, mas, como sabes, não gasto tempo a pensar nisso nem a arranjar grandes explicações para o assunto, até porque nem as há, de qualquer forma.
PBC: Diria que é, pelo menos, mais ambicioso, no sentido em que a sua compreensão – ou, pelo menos, a sua compreensão da forma como a imaginámos – exige um pouco mais de tempo e de atenção. O facto de aparecer numa era em que parece que tudo tem de ser de consumo de imediato e tudo o que tiver mais de 15 segundos de duração é aborrecido é uma infeliz coincidência.
HellHeaven: Sendo este um disco conceptual, mais ainda que o "Dawn...", este baseia-se em factos reais que, na verdade, acaba por ter algumas semelhanças, indirectas, com o Mundo actual, onde a sobrevivência está só ao alcance de alguns. Concordam com esta afirmação? Onde encontraram esta história e como foi a sua transformação em música?
JB: Sim...a sobrevivência não é para todos, não só nesta história, mas, creio que no mundo em geral ao longo dos tempos! A música surgiu primeiro e só depois a temática. O Leonel ouviu as demos que tínhamos feito e comunicou desde logo sobre quais seriam os conteúdos líricos das faixas. Tivemos de ajustar um ou outro detalhe musical, tendo em conta a seriedade do que estava a tentar transmitir, mas, no final o resultado pouco ou nada difere do que originalmente se havia planeado.

HellHeaven: Num álbum em que o detalhe assume um papel essencial, há duas faixas que sobressaem, desde logo com "Le Radeau de la Meduse", certamente a mais longa da vossa carreira. Como nasce esse tema e como foi trabalhar esse tema pelo meio de tantos andamentos e nuances?
JB: Acredita que foi uma das composições musicais mais fáceis de escrever de toda a nossa história. O tema quase que se compôs sozinho e por si mesmo! Acho que subconscientemente a coisa já estaria por se fazer ao tempo! Foi de tal forma natural a sua conceção que tudo o que se ia escrevendo fazia sentido e estava bizarramente conectado. Acabámos com 20 e poucos minutos de música que até eram para ser mais, mas, tendo em conta o processo de que te falei na questão anterior, ficou com o tempo ideal, na minha opinião. Conta, igualmente, com a participação especial do Nuno Cruz dos Thragedium nas vozes, o que ofereceu ainda mais dinâmica a toda a componente épica do tema.
HellHeaven: Depois temos "O Que a Vida Me Deu", de Fausto. Como surge este tema? Algo que a canção assume é o desarme onde Leonel e o piano assumem o papel principal. Foi um desafio para ele assumir esta Portugalidade?
JB: Foi, sem dúvida, um dos momentos mais desafiantes de toda a carreira musical do Leonel. E também, na minha opinião, um dos melhores em todo o seu longo percurso e experiência. Em relação à homenagem a Fausto, precisava de algo que me unificasse todo o conceito musical e linguístico que tinha em mente para o disco, tentei em vão escrever algo nesse sentido até que, ao olhar para a estante onde tenho os discos de música portuguesa, por uma qualquer razão, fixei-me na lombada do "Por Este Rio Acima" do Fausto e fui ouvir o álbum. Sempre fui de uma relutância ativa a versões de temas que são tão bons que não precisam de ser mexidos, curiosamente como é o caso deste "O Que A Vida Me Deu". Dei no entanto por mim a equacionar essa hipótese por toda a sua beleza musical e densidade lírica. Era o momento que andava em busca e que fecharia todo conceito de "Ensemble".
Falei com o Pedro sobre o assunto. Sendo ele um admirador da obra de Fausto, compreendeu o que se pretendia! Tínhamos de passar isto para o universo Hourswill e a melhor maneira de estabelecer esse paralelo seria através do baixo como instrumento principal. Como nos nossos discos anteriores sempre existiram instrumentais de baixo, sentimos que o caminho era óbvio! Acrescentou-se ainda a participação especial do Luís Simões dos Saturnia, que, com o seu talento instrumental e bom gosto musical, contribuiu para o enriquecimento do mesmo em termos de arranjos. Creio que ficou uma bela homenagem a um dos maiores nomes da música deste país.
PBC: A primeira coisa que eu pensei foi que o Zé me estava a por em sarilhos desnecessários. O Fausto – tenho aproveitado todas as oportunidades que tenho para dizer – é para mim o compositor mais importante da história da música portuguesa. A música é retirada do Por Este Rio Acima, disco também ele perfeito. O tema em si, grandioso na sua simplicidade desarmante, assenta num instrumental feito apenas com uma guitarra e um piano e não precisa de mais nada. Como é que eu ia arranjar um baixo que, ainda por cima, tivesse um papel central? Ao mesmo tempo, a ideia nunca mais me saiu da cabeça, comecei a fazer experiências no próprio dia e acabou por resultar na versão com dois baixos – um no lugar de guitarra e outro, acústico, no lugar de piano – que podem ouvir no Ensemble.
HellHeaven: Preparam-se para apresentar o "Ensemble", com os vossos colegas de editora, Anifernyen. O que está planeado para essa noite e qual a vossa expectativa para a receção aos novos temas?
JB: Nada de outro mundo, meu caro! (risos)
Apenas um conjunto de tipos a lutar com os seus instrumentos pela sobrevivência em cima de um palco, de forma rude, sem truques e dentro do maior espírito rock n’ roll possível! Queremos que seja um momento porreiro para nós e também para todos aqueles que marcarem presença no evento.
HellHeaven: Ao longo dos anos os Hourswill são vistos como, uma espécie de "banda maldita", sem qualquer motivo, pelo menos aparente. Acham que o "Ensemble" será um ponto de viragem dessas opiniões ou, simplesmente, já nem querem saber disso?
JB: Acho "maldita" um termo muito forte, pá!!! Gramo mais da analogia com o sapatinho de verniz brilhante que os dançarinos costumam usar, mas totalmente apertado!!! (risos) Creio que será sem dúvida mais por aqui!!! (risos) Agora a sério! A empatia nesta terra pela nossa sonoridade não será certamente das maiores, e muito honestamente, nem sei se existirá de facto. Sei que existem umas quantas pessoas que apreciam o que fazemos, o que é ótimo, mas diga-se em abono da verdade que também nunca foi esse o tipo de cena que nos levou a fazer o que fazemos musicalmente nem o que ainda nos vai movendo até aos dias de hoje. Como sempre disse, se existir alguém que goste e se sinta de alguma forma identificado com a proposta musical dos Hourswill, fico grato! Se tal não acontecer, paciência e porreiro na mesma.
PBC: Acho só que a maioria das pessoas não está para aí virada e está tudo bem com isso. Fazer a música que gostamos de fazer é trabalhar num nicho dentro de um nicho dentro de outro nicho e não tenho grande expectativa que isso mude. Nós gostamos de fazer isto da maneira como fazemos e ficamos satisfeitos quando alguém retira daí alguma coisa. Quem não se identificar com a nossa proposta, tudo certo na mesma.
HellHeaven: Com isso dito, como olham para o espectro Metal e Rock nacional? Parece existir, cada vez mais, uma desfragmentação, ainda que mais bandas se revelem e mais oportunidades surjam. Qual o conselho que dariam aos futuros músicos?
JB: Existem bandas e músicos em atividade e com muito talento por esse país fora! Aliás, a quantidade e a qualidade dos lançamentos musicais que este género de uma forma mensal produz comprova esta minha observação. Assim sendo, nada tenho a aconselhar, não sou ninguém para o fazer! Fico-me pelo cliché do façam o que gostem e que querem fazer na realidade e divirtam-se com isso... O resto importa pouco...
HellHeaven: Qual a mensagem que deixam para a HellHeaven e para os leitores?
JB: Um grande bem haja à HellHeaven por todo o seu trabalho e apoio e também a todos aqueles que perdem um pouco do seu tempo a ler este tipo de conteúdo. Obrigado.
PBC: Obrigado a HellHeaven pelo trabalho contínuo de divulgação do género e em particular pela atenção que tem dedicado aos nossos trabalhos. Obrigado também à malta que nos tem acompanhado ao longo do tempo. Espero que gostem deste, que eu cá gostei.