Esta semana ficou marcada pelo desaparecimento de Jorge Palma, uma das figuras maiores da música portuguesa. Mas o Jorge era mais do que um músico: era uma pessoa, um amigo, um pai, um filho, com todas as suas fragilidades, fraquezas e silêncios. E partiu como tantas pessoas partem: em silêncio.
Este poderia ser apenas mais um texto de despedida. Mas, com este desaparecimento — tal como aconteceu, há poucos meses, com Represas — volta à superfície uma questão incómoda: estamos a perder as nossas referências culturais e, pior, não se vislumbra uma geração seguinte capaz de ocupar esse espaço. Há nomes de enorme importância, claro, mas começam a faltar nomes entre tantos nomes que ainda existem. E isso deveria fazer-nos pensar na forma como tratamos a arte, a cultura e, sobretudo, aqueles que lhes dão vida.
Um sinal desse monumental desapego foi ver um presidente de Câmara atribuir a Jorge Palma um tema de Sérgio Godinho. Embaraçoso. Tal como foram embaraçosas tantas declarações políticas, feitas de palavras ocas, vazias e de ocasião. O problema é que, quando até uma despedida destas é tratada assim, talvez seja mesmo altura de soar o alarme.
E depois existem os anónimos, os que vivem da ofensa e parecem encontrar na liberdade uma razão para a desprezar. Li Jorge Palma ser atacado pelas suas convicções e vi o seu nome arrastado por um chorrilho de falta de senso, humanidade e empatia. O Jorge não merecia isso. Era, “apenas”, um músico. Uma pessoa. Uma pessoa boa e humilde. Com defeitos? Claro. Quem não os tem? Merecia aquilo? Claro que não.
Felizmente, ficam os muitos que se cruzaram com ele: músicos, artistas, família, gente da televisão e da rádio e tantos anónimos que, na despedida, elevaram a vida e a obra de Jorge Palma. Gente que deixou que as suas palavras e a sua música ecoassem mais alto. Porque o Jorge era música. Era união. E há coisas que não se apagam.
Jorge Palma partiu, mas a “Gente Vai Continuar”. Mesmo quando estava “Frágil”, quando nos dizia “Dá-me Lume”, enquanto olhava para a “Estrela do Mar” e nós respondíamos: “Encosta-te a Mim”.
Obrigado, Jorge!
