ALKIMISTA - "Sou português e gosto de o ser (...) há algo de melancólico que se enraizou na nossa cultura e forma de estar! (Entrevista)

Pedro Serpa é Alkimista e «Viagem» é o terceiro capítulo de um projecto alicerçado no tempo e no conforto que só o lar é capaz de nos dar. O músico abiriu-nos a portas para nos desvendar as origens e os processos alquimistas da sua música. Entrevista: Nuno C. Lopes

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HellHeaven: Começo por te dar os parabéns por “Viagem”, o teu terceiro disco, como te sentes em relação ao resultado final e qual o balanço que fazes de Alkimista até aqui?
Alkimista: Obrigado Nuno. Foram três anos de volta destas músicas e estou satisfeito com o resultado final.

HellHeaven: Este projecto nasce como uma espécie de sonho Metal que tinhas, de onde veio esse desejo e como é que o Metal chegou até ti e quais são as tuas influências?
Alkimista: Este projecto surge por necessidade de dar corpo à música que vinha a compor em casa desde 2003. Quando se tem várias músicas e ideias em casa, elas só existem para nós e só se tornam “reais” quando são expostas e de certa forma ganham uma vida própria. O Metal chegou com som da guitarra eléctrica. Lembro-me enquanto rapaz de gostar muito de ouvir guitarristas como o David Gilmour, o Mark Knopfler e o Eric Clapton e ficar fascinado com o som da guitarra eléctrica. Com o passar dos anos os Iron Maiden entraram no cardápio musical e a partir daí abriu-se um mundo que me continua a fascinar. As primeiras influências foram estas, depois a curiosidade e o entusiasmo característicos da adolescência permitiram sorver tudo o que conseguia apanhar. O programa Lança-Chamas era a principal fonte. A troca de cassetes foi vital num tempo em que tínhamos acesso a muito pouco.

HellHeaven: Um dos maiores desafios, ou curiosidades se preferires, é o facto de fazeres tudo em casa e de ser uma edição de autor. É assim que pretende que Alkimista se mantenha ou, por outro lado, se existir a oportunidade de “dar o salto”, vais faze-lo?
Alkimista: Tenho trabalhado sozinho por necessidade e capacidade de concretização. Depois dos A.M.S, banda da adolescência que tinha com os amigos, estive uns quantos anos afastado da música e da arte em geral, depois, por volta de 2003, quando já tinha os estudo concluídos e estabilidade profissional, voltei a compor, alimentado por novas sonoridades que me foram apresentadas (Devin Townsend, Soilwork, Opeth, Arch Enemy…). Passei pelos Mechanica Sundown, banda de amigos de longa data e muito mais tarde pelos Black Flare, mas as circunstâncias da vida acabaram por me deixar focado no Alkimsta, que nessa altura já estava a compor o segundo álbum. Neste momento, com quase 50 anos e com muitas reviravoltas na vida profissional, é realista admitir que é impossível que o Alkimista mude de formato e se torne uma banda no verdadeiro sentido e dê concertos.

HellHeaven: Essa forma de trabalhar e de manter o projecto acaba por ser uma forma de manter a “pureza” do projecto e manteres as coisas serenas e ao teu ritmo?
Alkimista: Esse é um resultado das limitações. A composição acontece quando há espaço, não dependo da disponibilidade de terceiros. Por outro lado, sinto falta da camaradagem e troca de ideias que só se consegue num ambiente de banda.

HellHeaven: Ao ouvir “Viagem” percebemos que o Mar e a Saudade são duas das tuas influências no que diz respeito às letras. São eles a fonte de inspiração e como é que estas letras mostram o Pedro Serpa enquanto pessoa?
Alkimista: Estes três álbuns, cada um à sua maneira, contam a minha história e de algumas pessoas à minha volta. Encarar o horizonte à beira-mar é algo recorrente em muitos momentos e formas de arte, leva-nos a pensar e reflectir na vida, no que passou e nas possibilidades. É um lugar comum a calma e o gosto que muitos temos em estar junto ao mar, de sentir os aromas, a brisa e os sons. Neste momento que é traduzido pela “Viagem” o mar é a metáfora perfeita para o que estou a viver nestes últimos anos.

HellHeaven: É curioso porque essas duas influências nos remetem para o Fado e para essa coisa que é ser português. Mas, afinal o que é isto de ser de Portugal?
Alkimista: Sou português e gosto de o ser. Embora não tenha nenhuma vertente nacionalista reconheço que há algo de melancólico que se enraizou na nossa cultura e forma de estar. Pode ser algo fabricado por gerações passadas, por diferentes movimentos artísticos e políticos, mas que actualmente ainda o sinto presente.

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HellHeaven: Em termos de género há uma clara aproximação ao Doom mas, também ao Gótico. Como definirias Alkimista?
Alkimista: Quando defini o projecto e lhe dei este nome, idealizei-o como reflexo da vida, como algo em constante mutação. O Doom que conheço muito pouco além dos Type O Negative ou Paradise Lost entrou com a tristeza que senti (e ainda sinto) em momentos importantes. Se no primeiro álbum o Doom foi o elemento que agregou músicas e ritmos que já tinha em grande parte composto, para lhe dar coerência, no segundo “Cinzas” foi abraçado em pleno. E agora neste “Viagem” é uma transição para algo que ainda não sei o que será. Ou pelo menos foi esta a intenção desde o início.

HellHeaven: Existem várias colaborações no álbum, como é que eles aparecem no álbum e de que forma moldaram o resultado final?
Alkimista: Depois de dois álbuns senti muito a falta de fazer música com alguém. Mesmo que o formato não seja partilhado como numa banda, reservei espaços a serem preenchidos por pessoas que fazem parte do meu percurso artístico, tanto na música como na BD. E todos me surpreenderam e ultrapassaram quaisquer expectativas. Sem eles este álbum ainda não estaria acabado e acho que chegaria à conclusão que precisava de algo exterior a mim para o fazer. Tanto nas letras como nas interpretações de voz e guitarra.

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HellHeaven: Com três álbuns lançados, em algum momento colocaste em cima da mesa levar os temas para o palco ou é algo que não está nos planos?
Alkimista: Sim, quando lancei o primeiro álbum “Entre a Emoção e a Razão” juntei um grupo de músicos com essa intenção. Estava desejoso de pisar um palco e tocar a aquelas músicas, partilhá-las ao vivo. Infelizmente, as circunstâncias profissionais em que me encontrava na altura não me permitiram continuar e tivemos que deixar isso de parte. Actualmente não está nos planos levar este projecto a palco. Preferia integrar numa banda já existente, aprender as suas músicas (se for um projecto que me agrade, naturalmente) e tocar com eles.

HellHeaven: Qual o futuro para Alkimista? Existem algumas ideias? Qual a mensagem que deixas para os nossos leitores?
Alkimista: Pela primeira vez, terminei um álbum sem ter composto nada para o seguinte. A verdade é que não sei mesmo como será o próximo. Espero conseguir arrumar a minha vida para depois dar espaço às ideias fluírem. Não vale a pena forçar, que não consigo resultados dessa forma.
Até gostaria de aproveitar os próximos tempos para tentar algum projecto paralelo, algo mais colaborativo em que não sou o único compositor, explorar outras sonoridades e géneros. Ainda sou curioso em relação à música e continuo a descobrir bandas e álbuns que não tinha acesso na minha juventude, a deixar-me surpreender e maravilhar com o que se tem feito.

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