
Viana do Castelo, 2016, formava-se um trio que agora é uma dupla com o nome As Docinhas! 2024, o segundo álbum está aí com o nome “Que Pesadelo!”, um disco feito para a diversão onde (quase) tudo é permitido. A HELLHEAVEN esteve à conversa com a dupla. Entrevista: Nuno C. Lopes
HellHeaven: Começo por vos dar os parabéns por “Que Pesadelo!”, como se sentem em relação ao produto final e quais as expetativas em torno do álbum?
As Docinhas: Bem. Eu pessoalmente (Lee) já não gosto do álbum, mas isso acontece quase sempre. Gosto da “Kate” e da “Eu Não Fodo”. As expectativas eram mais altas porque gastamos mais dinheiro e tempo neste álbum (no outro fizemos tudo quase sem dinheiro) mas pelos vistos, isso não fez uma diferença significativa em termos de recepção do público.
HellHeaven: Para quem não vos conhece, quem são As Docinhas e como é que começou a banda?
As Docinhas: As Docinhas são uma banda que foi formada em Viana do Castelo, em torno de 2016, por Cire, Lee e Alex (agora morto). Gravamos as nossas primeiras músicas na ESML, onde a Cire estudava, mas antes disso apenas tocávamos na rua e tínhamos dado apenas um concerto ao vivo. Tocamos punk, rock, jazz e fazemos DJ Sets porque nos pedem. O nosso sonho é ser comediantes mas não temos piada nenhuma e somos pessoas muito sérias. A Cire lê livros e é técnica de serviços funerários e a Lee pratica boxe e vende viagens em Marrocos.
HellHeaven: Descrever a vossa sonoridade não é algo que seja fácil, contudo, como descreveriam As Docinhas e quais as vossas maiores influências?
As Docinhas: Nathy Peluso, AC/DC, Mr. Miyagi, Schoenberg, Valesca Popozuda, Nininho Vaz Maia, Pantera, Cardi B, Queen e Crywank.
HellHeaven: Em termos líricos andam ali num limbo entre a inquietação e rebeldia (quase) juvenil e a crítica social. Estarão assim essas situações assim tão distantes?
As Docinhas: Algumas das músicas do álbum foram escritas quando tínhamos 16 anos, então é normal que tenham um aspecto de rebeldia juvenil, como é o caso de “Shut up Mom”. A música “Butterflies” e “Go and Be Free” são sobre amor heterossexual. Nesse aspecto somos parecidas com a Taylor Swift. A música “ Eu não Fodo” é uma música sobre não gostar de foder. A música “Kate” é sobre irmos para o Barroselas Metal Fest beber vinho e rebolar na lama e sobre a Kate, que é uma amiga nossa de Viana que diz que está desperada contra as paredes. A música “Country” é uma música de country. Não reconhecemos que as nossas letras sejam críticas sociais maioritariamente. Talvez isso seja evidente em 1 tema, a “Marcha LGBT” e mesmo assim metade desse som é dedicado ao propósito de abanar o cu. Mas as pessoas interpretam as coisas como quiserem e claramente quando olham para nós apenas veem dois cartazes do Bloco de Esquerda com pernas. Nós não somos de esquerda.

HellHeaven: Outro ponto que marca o álbum é o tema “Marcha LGBT”, que me parece ser um tiro ao alvo, não só a uma sociedade que não entende o tema mas, também, aos revolucionários do telemóvel, sentiram a necessidade de fazer um tema assim?
As Docinhas: Nós estávamos numa esplanada no verão e começamos a rir muito a cantar essa música (a letra do início improvisada). Adoramos hinos e marchas e coisas do género e achamos que ia ser uma música divertida de fazer e que as pessoas podiam cantar em uníssono. Não é necessariamente política, é apenas um cântico que tenta expressar a nossa experiência como pessoas queer e empoderar o nosso lugar.
HellHeaven: A igualdade de género e de identidade tem andado no topo da actualidade e, tal como noutras situações, fica por vezes a ideia de cair no excesso, em todas as partes envolvidas, sentem isso? Consideram que, de parte a parte (defensores e contra), por vezes existe uma certa falta de noção e, talvez, uma forma errada de dialogar?
As Docinhas: Em qualquer discussão, há pessoas com falta de noção.
HellHeaven: No mundo da arte e da cultura temos assistido ao cancelamento de artistas, de todas as artes, sem, muitas vezes, existir o direito ao contraditório, além de que, muitas dessas acusações surgem de eventos em outros tempos, numa outra sociedade. Acham que há, de certa forma, um aproveitamento dessas situações que, ao mesmo tempo, limita o que na realidade é o significado de arte?
As Docinhas: As pessoas fazem o que querem, se querem fazer arte e expor-se ao mundo, estão sujeitas a críticas, tal como nós. Não há nenhuma lei que proíbe ninguém de dizer o que quer que seja, acredito que a discussão seja benéfica para iluminar quem não tem caráter suficiente para assumir responsabilidade pelo que diz ou faz, se não for para a pessoa em questão, para as próximas gerações. Se vamos falar de cultura de cancelamento não podemos falar disso como algo isolado, assim como não podemos falar sobre o “significado da arte” sem um contexto histórico, cultural, e pessoal. Chamou-se de Cancelamento a uma coisa que sempre existiu, alguém ser retirado de um espaço pois uma comunidade sentiu-se invadida, deve-se notar que normalmente quando alguém faz alguma coisa que, pela comunidade que a rodeia, não é aceitável então ela é removida, de qualquer forma já ninguém é “cancelado” em 2024. Se alguém escolhe ter atitudes que incomodam os outros, é normal que os outros se afastem. Sempre foi assim e não é uma coisa nova.

HellHeaven: Para o futuro, o que poderemos esperar d'As Docinhas e qual será o próximo passo e qual a mensagem que deixam?
As Docinhas: O próximo passo é ficarmos ricas e famosas para poder continuar a fazer música e dar concertos acessíveis financeiramente para o nosso público se poder divertir num espaço seguro, com liberdade para toda a gente. Obrigada por lerem estas nossas palavras e espero que a nossa música vos traga luz à vida ou algo desse género.