Os Avesso são a mais recente “superbanda” nacional e “Desassossego” é o seu disco de estreia! Assente numa ideia de urgência social e sem fronteiras musicais, o quarteto revela ter os pés bem assentes neste Mundo, socialmente podre. A HellHeaven esteve à conversa com Diogo Leite e Vitor Hugo, baterista e guitarrista da banda, respetivamente. Entrevista: Nuno C. Lopes

HellHeaven: Começo por dar os parabéns por “Desassossego”, o vosso disco de estreia. Como se sentem em relação ao disco e quais as expetativas em torno do mesmo?
Diogo: Muito obrigado. Estamos bastante satisfeitos com o resultado final, desde o som conseguido em estúdio, assim como todo o design dos formatos físicos do LP e CD.
Vitor: Obrigado, foi um processo longo e cuidado, penso que ainda não acreditamos que conseguimos efetivamente finalizar o disco e colocá-lo cá fora. Estamos muito contentes com o que fizemos e queremos partilhar as nossas músicas com um público o mais amplo possível.
HellHeaven: Já tiveram oportunidade de apresentar o disco ao vivo, mais recentemente no Amplifest. Como é que foram as reações e como foi levar estes temas para o palco?
Diogo: Estamos ainda a sentir o “quentinho”de toda a emoção que sentimos no passado sábado em palco. Foi a primeira vez que tocamos os temas ao vivo e como é natural, estávamos bastante curiosos para sentir a reação das pessoas e quais os temas que iriam ter uma reação mais forte. Ouvimos bastantes pessoas a cantar os refrões dos primeiros singles que fomos lançando. Foi muito bom.
Vitor: Foi um grande desafio, este objetivo de nos lançarmos como banda no Amplifest criou o stress necessário para nos envolvermos a fundo na preparação do espetáculo. Cá fora, depois do concerto, recebemos um feedback muito positivo de várias pessoas, até pelo número de desconhecidos que andava já com as nossas t-shirts a deambular pelo festival. Mesmo vários amplifesters vindos do estrangeiro vieram congratular-nos pelo espetáculo, o que nos deixa orgulhosos por representarmos o nosso país com qualidade.

HellHeaven: Todos vocês têm diferentes backgrounds na música e que em Avesso acabam por se transformar numa miríade de sons e experiências sonoras. Como nasce a banda e qual o conceito em torno da mesma?
Diogo: A ideia partiu de mim. Já algum tempo que andava com vontade de tocar outros estilos. Nos últimos anos estive sempre mais focado no Indie-Pop, no entanto nunca deixei de comprar discos Rock, Jazz ou até mesmo de assistir a concertos mais “fora da caixa”. Quando quis andar com a ideia para a frente, a primeira pessoa com quem partilhei a minha vontade e a quem referi a possível formação foi ao Dani Valente (guitarrista), com quem já tinha trabalhado em 2018-2019 com GOEL. O Dani como já tinha trabalhado com o Vitor Hugo nos Budhi e em estúdio com o Paulo Rui (EAK, Redemptus) ligou-lhes a partilhar a minha ideia e em pouco tempo já estávamos numa sala a tocar livremente. No entanto, é importante frisar que a ideia inicial não seria para formar uma banda, mas sim apenas uma formação para um evento único, neste caso, uma residência artística. Ao longo do processo de criação a satisfação entre todos nós tomou conta e fez o resto! Hoje somos uma banda, com sonhos, ideias, mas acima de tudo com muita vontade de andar na estrada a apresentar este "Desassossego”.
Vitor: Essencialmente, consideramo-nos um espaço de exploração artística livre. Enquanto assim for, teremos desassossegos musicais a partilhar.
HellHeaven: De certa forma parece que os Avesso, muito mais que uma banda, são uma forma de expressão artística com música lá dentro. Qual será a melhor definição para vós e como é ser um artista em Portugal?
Vitor: Obrigado! Como referi, é um espaço de exploração artística livre, e sim, cheio de música lá dentro. Queremos que continue a ser assim, temos ainda muita energia criativa a explorar. Agora, ser um artista em Portugal é altamente desafiante, ainda mais no nosso caso em que ocupamos um espaço musical que não é mainstream. No entanto, o nosso desejo é fazer música de qualidade e socializar todos esses produtos criativos o mais possível, chegando a um público mais vasto. Para isso iremos contar com o apoio dos nossos parceiros, presentes e futuros, por exemplo, a Raging Planet e a Roma Inversa, que decidiram apostar no nosso projeto e que são para nós uma mais-valia. Uma grande dificuldade de muitos artistas, principalmente fora do mainstream, passa pela produção de concertos de elevada qualidade, bem produzidos e remunerados, com boa participação do público, para alimentar esta dinâmica cultural necessária à promoção e crescimento das bandas.

HellHeaven: “Desassossego” encontra uma grande influência nos escritos de Pessoa e Khayyam. Qual foi o desafio de transformar essas influências em música ao mesmo tempo que reinventavam os mesmos?
Vitor: Diria que as letras foram construídas em torno de Pessoa, Khayyam e Séneca, e foi um processo muito simples e natural porque eu e o Paulo Rui descobrimos que andávamos interessados nas mesmas ideias e obras. Coletámos textos do estoicismo, dos Rubaiyat (Odes ao vinho) e do poemário de Pessoa, e começámos a encontrar um fio condutor que nos levou à ideia de desassossego existencial que está na base do projeto. O processo de composição para este álbum começou pela parte instrumental e só depois inserimos as letras e vozes. A partir de uma seleção de textos, fomos alinhando cada letra ou versos com a música que achávamos mais adequada, sendo que na fase de gravação das vozes demos um grande espaço à experimentação/improvisação. Penso que este método funcionou muito bem, embora fosse arriscado, mas em diálogo constante com o Paulo Rui fomos dividindo as partes e assumindo diferentes papéis vocais, cujo resultado final nos surpreendeu bastante.
HellHeaven: Ainda assim o disco revela alguma de urgência em vociferar e trazer à tona algum do desconforto que nos assola a mente e destrói o corpo. Poderemos dizer que este disco é um retrato de um mal-estar instalado em cada um de nós que, naturalmente, extravasa a individualidade da condição Humana?
Vitor: Obrigado por essa pergunta, porque ela indica-nos que vocês perceberam com clareza a força motriz deste projeto. Sem dúvida que o nosso disco se alimentou de um mal-estar, já antigo, diga-se de passagem, sentido por nós e que quisemos colocar em formato artístico e musical. Precisávamos de um espaço criativo para dar forma a esse mal-estar e AVESSO é essencialmente isso. Aliás, as letras espelham bem essa busca por uma ética humana libertadora não só do indivíduo, mas também de emancipação da nossa comunidade humana. Agora, não temos soluções para apresentar nem uma prescrição de saídas possíveis, apenas conseguimos documentar artisticamente o nosso processo filosófico de busca que, essencialmente, ficou registado em “Desassossego”.
HellHeaven: Numa altura em que tanto tumulto e urgência se vive na sociedade, este é um disco que procura, antes de tudo, alimentar a alma. Será isso que falta actualmente no Mundo? Como olham para tudo o que vai sucedendo em termos sociais?
Vitor: Para incluir todos, diria alimentar o espírito. Sim, esse objetivo esteve e está presente na nossa música, queremos desassossegar as pessoas de forma a que nos possamos libertar de uma sociedade claramente doente. Pode parecer contraditório, mas penso que não é. Consideramos que a arte deve desassossegar, ajudar as pessoas a olhar a realidade em que vivemos de perspetivas diferentes e com uma mais profunda clareza. Avesso significa “que é contra ou que discorda, oposto ao que deve ser, o que tem sentimentos diferentes de outrem”, mas nós entendemos esta definição como uma energia criadora e agregadora e não como algo que nos separa e aliena do mundo à nossa volta.
HellHeaven: Sendo o Homem um animal pensante, estaremos nós a pensar de forma errada pelos motivos errados? Passará a solução por encontrar o que nos une ao invés do que nos separa? Haverá solução para o Homem?
Vitor: Uma vez mais, penso que dentro da nossa banda há aqueles que pensam que sim, que há uma solução para a Humanidade e aqueles que têm sérias dúvidas. Mas diferentes perspetivas não nos dividem, porque estamos a aprender. No entanto, sem dúvida que devemos focar-nos no que nos une, naquilo que de melhor podemos fazer por nós e pelos outros para trilhar esse caminho necessário.

HellHeaven: Com o disco já nas lojas, qual será o próximo passo dos Avesso no que aos palcos diz respeito?
Diogo: Estamos já a preparar 2025. Temos já algumas datas confirmadas e outras que, entretanto, serão confirmadas, de norte a sul do país.
Vitor: Sim, agora vamos socializar o nosso “desassossego” ao máximo pelo país e, quem sabe, por algumas venues europeias.
HellHeaven: Em termos musicais, o que poderemos esperar da banda no futuro e qual a mensagem que deixam aos nossos leitores?
Vitor: Na nossa perspetiva, o futuro da banda está em aberto, principalmente em termos de expressão artística, definitivamente não queremos ficar presos a nenhuma ideia pré-concebida. Mas podem esperar sempre ainda mais Rock da nossa parte, o nosso desassossego ainda agora começou. Espero que os vossos leitores sintam que nosso disco “desassossego” primeiro estranha-se, mas depois entranha-se e que fique, assim, com eles por muito tempo.