Os Bastardo do Espírito Santo são uma banda lisboeta de Punk/Rock e, “Manifesto do Partido Consumista” é o seu disco de estreia! A HellHeaven esteve à conversa com a banda sobre o disco, a sociedade e, pasme-se,futebol! Entrevista: Nuno C. Lopes

HellHeaven: Antes demais começo por agradecer o vosso tempo e dou-vos os parabéns pelo álbum de estreia. Qual o sentimento por ter este disco cá fora e como está a ser a receção do mesmo?
Bastardos E.S: Antes de mais agradecemos o interesse e oportunidade de nos dar a conhecer. Quanto ao disco, apesar de um processo longo de gravação e mistura, achamos que o resultado final foi ótimo (melhor até do que imaginámos) e acreditamos que temos um grande disco nas mãos do qual nos podemos orgulhar.
Tivemos já a oportunidade de rodar o disco ao vivo e o feedback tem sido positivo, tanto relativamente ao disco em si como relativamente às nossas actuações, o que nos tem motivado a continuar a criar novas músicas, algumas delas que inclusivamente já tivemos oportunidade de apresentar ao vivo. Entretanto contamos continuar a apresentar o disco em mais espaços e a mais públicos até porque achamos que é uma forma de fazer crescer as músicas e é nos concertos que elas efectivamente ganham vida (ou morrem).
HellHeaven: Ainda que sejam uma banda recente os Bastardos têm já alguma experiência nestas lides. Como é que nasceu este projeto?
Bastardos E.S: A banda nasceu essencialmente como pretexto para quatro amigos se encontrarem, darem uns toques e beberem uns copos. Pouco depois do nosso início tivemos a pandemia que se revelou um catalisador para o aparecimento de novas músicas. Quando voltamos a poder partilhar a sala de ensaios rapidamente descobrimos que tínhamos material para um disco. Entretanto mais algumas malhas surgiram e chegou a altura de falar com o Fernando Matias e iniciar o processo de gravação. Em simultâneo fomos tentando abrir portas para podermos apresentar-nos ao público, o que temos feito com relativo sucesso, apesar das limitações do mercado português.
HellHeaven: O nome da banda pode ser visto de várias formas, sendo que aliado ao Espírito Santo são ainda Bastardos, o que resumindo pode dar em BES. Existe aqui algum tipo de provocação ou são “frutos da minha imaginação”?
Bastardos E.S: Tens uma imaginação fértil! (risos) Bom, quem atentar às nossas letras acho que rapidamente percebe que usamos diversas figuras de estilo, sendo que o nome da banda passa também por aí. Por um lado uma certa ironia religiosa, mas também, não diria uma critica social, mas uma critica à nossa sociedade. No fundo abordamos muitos espíritos mas nenhum é santo!

HellHeaven: Ao mesmo tempo que atacam o capitalismo no nome da banda atacam a utopia de esquerda com um “Manifesto do Partido Consumista”, isto é por acaso ou é novamente imaginação minha?
Bastardos E.S: As figuras de estilo fazem parte da vida! Acho que caminhamos sempre entre a ironia e o sarcasmo e com bastantes metáforas à mistura. No entanto não temos jeito para padres nem pretendemos evangelizar. Toda a informação está lá, nas letras, nos títulos, nos nomes que não surgem ao acaso, mas cabe a cada ouvinte interpretar como bem entender. Agora, o que é certo, é que vivemos tempos polarizados, tempos de 8 ou 80 e, nestes tempos, sabemos bem de que lado estamos.
HellHeaven: Assumidamente Punk Rock Oldschool é natural que as vossas letras incidam sobre a sociedade e os problemas mais cosmopolitas das grandes cidades. Ser de uma cidade como Lisboa acaba por ser fácil ter algo para “rasgar” na vossa música?
Bastardos E.S: Mais fácil não diríamos. Qualquer contexto terá os seus desafios próprios. Imagino que no Alentejo profundo existam desafios e situações revoltantes, que serão diferentes (ou não) das revoltas beirãs ou transmontanas, das vilas, aldeias ou pequenas cidades. Agora, todos nós somos de grandes cidades (Lisboa e Rio de Janeiro) e as grandes cidades têm os seus desafios próprios e é essa a nossa realidade e é a realidade que observamos e vivenciamos e com a qual podemos criar as nossas histórias.
HellHeaven: E, por falar em sociedades, vivemos numa altura em que parece que a mesma está cada vez mais divida e mais próxima de um egoísmo (quase) nihilista ou narcisista. Como olham para as sociedades atuais e para todo o extremismo que parece existir?
Bastardos E.S: É… vivemos num grande concurso de medição de pilinhas… algures durante a evolução humana das últimas décadas os humanos parecem ter esquecido que é possível cooperar, remar para o mesmo lado, ter empatia pelo próximo, enfim viver em sociedade. Foi sendo vendida uma imagem do que é o sucesso que desfasou as pessoas da realidade. A realidade é que nascemos e morremos, pelo meio devíamos viver. Mas o sucesso passou a ser medido pelo ter, ou mais do que o ter o mostrar ter. Quase que como se o sucesso só o seja depois de esfregado na cara dos restantes condóminos do planeta. (risos)
HellHeaven: Entre os temas do álbum existem dois que, por motivos diferentes, causaram curiosidade, falo do “Saltillo Revolta e Rebelião” (porque poucos saberão, porventura, este caso) e “There’s No Escape From Hell” (por ser o único tema em inglês). De onde surgiram estes temas?
Bastardos E.S: Saltillo é provavelmente a história mais rocambolesca do futebol português! Só por isso merece ser cantada. De certa forma é um bocado punk rock toda a atitude daquela seleccão e quisemos prestar-lhes homenagem já que alguns dos seus protagonistas foram ou são parte do nosso imaginário (menos do Pedro! Ahahaha). Quanto à “there’s no escape from hell” e o facto de ser em inglês, na realidade é um pormenor sem importância, na medida que a linguagem da música é universal. Apesar de maioritariamente cantarmos em Português, não é de todo uma regra instituída. Quanto ao tema em si, talvez seja o tema mais pessoal do álbum, em que o Pedro aborda problemas de baixa autoestima e inaptação social que deriva do desacordo com os valores da sociedade de consumo em que vivemos em que só existe o tudo ou nada… mas nem todos aspiramos a tudo ou a nada, alguns de nós somos bem mais simples do que isso.

HellHeaven: Já tiveram oportunidade de apresentar o álbum ao vivo, que tipo de reações tiveram? Qual a maior dificuldade para uma banda nova encontrar o seu espaço? Sentem que há pouca abertura para novas bandas?
Bastardos E.S: As reacções têm sido bastante positivas, inclusivamente temo-lo sentido em palco. E palcos é talvez a principal dificuldade deste país, em especial de Lisboa. Não se trata tanto de uma questão de bandas novas, mas da dimensão das mesmas. Uma banda que tem meia dúzia de concertos, essencialmente sem grande promoção, não aspira um alcance que lhe permita encher, ou tornar viável agendar um concerto uma sala de média/ grande dimensão. E aí reside o maior défice, não abundam espaços com lotações reduzidas que permitam que bandas underground possam mostrar o seu som. As salas de 100 ou 200 pessoas escasseiam, fecharam várias durante a pandemia e isso obviamente que dificulta bastante o desenvolver de um circuito digno desse nome. Aliás, Lisboa praticamente não as tem e por esse país fora acaba por passar um pouco o mesmo. Saudamos as que existem e que tentam lutar contra esse marasmo, mas é efectivamente a dificuldade principal que sentimos.
HellHeaven: O que podemos esperar dos BES para o futuro? Existe algum plano que queiram desvendar? Qual a mensagem que deixam para os nossos leitores…
BastardosE.S: O futuro passa obviamente por continuar a fazer música. Sejam músicas novas na sala de ensaio, seja ao vivo. Queremos rodar o mais possível pelo país, mostrar o nosso som ao maior número de pessoas possível. Queremos também continuar a evoluír, fazer novas músicas e gravá-las. Queremos ter um segundo álbum que seja melhor que o primeiro, queremos dar cada vez melhores concertos e queremos chegar a cada vez mais pessoas. Apoiem o underground, vão a concertos, comprem discos, comprem merchandise, apoiem as bandas. Das bandas podem sempre esperar o máximo, porque só cá anda quem efectivamente o faz por paixão.