«10 Miles Into the Dark » é a estreia de Pedro Lima sob o nome de Dark Miles. Inicialmente lançado, apenas, em formato digital, o disco chegou aos ouvidos da Raging Planet que não hesitou em lançar o formato fisíco. A HellHeaven esteve à conversa com o músico. Entrevista: Nuno C. Lopes

HellHeaven: Antes demais, parabéns por “10 Miles Into the Dark”, o teu disco de estreia. Como te sentes com o disco e quais as expetativas?
Pedro Lima: Obrigado! Não tenho qualquer expectativa, editei este álbum porque tinha de o fazer, foi uma espécie de terapia, portanto tudo o que acontecer será bem vindo, mas não estou à espera de absolutamente nada para ser sincero, só o quis partilhar com o mundo, nada mais.
HellHeaven: Tens já alguma experiência nestas lides, no entanto, esta é uma estreia a solo, o que te levou a este passo e qual foi o desafio a que te colocaste?
Pedro Lima: Tal como disse na resposta anterior, este disco foi uma espécie de terapia para combater o isolamento da pandemia e para provar a mim mesmo que sou muito mais do que um simples vocalista de rock, um simples intérprete, também sei escrever boas canções e que valem a pena serem ouvidas.
HellHeaven: Estes temas parecem saídos de experiências pessoais e que englobam resiliência, esperança em simultâneo com a melancolia. Onde encontraste a inspiração para estes temas?
Pedro Lima: São de facto canções muito pessoais, saíram de dentro, quis expor-me por completo neste disco, sentir-me nu em frente a uma multidão. Na minha opinião, a tua arte vale bem menos se não te permitires expor perante os outros, com todos os defeitos e virtudes, com as tuas fragilidades, os teus medos, os teus traumas, só assim poderá haver uma ligação com as pessoas que te ouvem e te leem.

HellHeaven: Inicialmente lançado em nome próprio o disco entretanto teve lançamento através da Raging Planet. Como é que se deu esse encontro e de que forma impactou na receção do disco?
Pedro Lima: Sim, foi inicialmente lançado digitalmente em todas as plataformas em nome próprio, mas para mim o objecto físico do disco é essencial. Sou do tempo em que ter os discos dos teus artistas favoritos, seja em CD ou Vinil, era uma satisfação enorme, era até motivo para alguma gabarolice, mas hoje em dia pelos vistos nem paciência há para ouvir um disco do princípio ao fim, quanto mais tê-lo fisicamente. Eu e o Daniel Makosch somos amigos há alguns anos e sempre lhe mostrei os projectos por onde andei, ele sempre foi um grande fã de MOSH (a minha ex-banda) e da minha voz, portanto quando lhe mostrei o meu disco a solo ele imediatamente mostrou interesse em editá-lo através da Raging Planet. Ter uma editora independente como a Raging Planet a lançar o meu disco não só faz todo o sentido como é uma honra enorme, estou muito agradecido ao Daniel, além de que o selo de uma editora oferece sempre uma maior seriedade a um disco.
HellHeaven: Em termos sonoros podemos dizer, simplificando, que este é um disco de Rock, contudo, parece existir algumas pitadas de outras coisas. Quais foram as tuas influências?
Pedro Lima: Embora possa ser essencialmente um disco de rock, é muito influenciado pela música alternativa dos anos 80 e 90. Tem “pitadas” de synth pop, dark wave, goth rock, mas também “pisca o olho” ao grunge, ao rock alternativo e até ao country e ao blues. É muito baseado nas minhas influências para além da vertente mais pesada da música, como o stoner rock e o metal, géneros musicais em que estive mais envolvido nos últimos anos nas bandas por onde passei.
HellHeaven: André Indiana, Paulo Praça e Mário Barreiros… uma tripla de respeito que te ajudou no disco. De que forma eles te ajudaram a moldar estes temas e qual a influência deles no “10 Miles Into the Dark”?
Pedro Lima: No caso do Mário Barreiros ele só masterizou o disco, portanto não participou activamente na construção do álbum, mas o Paulo Praça e o André Indiana tiveram um papel muito importante na forma como as músicas se desenvolveram e cresceram, principalmente o Paulo Praça, que foi o meu parceiro de composição, foi ele que me ajudou a criar a roupagem para a estrutura base das minhas canções. Diria que a química musical e pessoal que existe entre mim e o Paulo é que permitiu que este disco visse a luz do dia, trabalhamos muito bem juntos, tudo é perfeitamente instintivo e natural.

HellHeaven: Sendo Portugal um país difícil para se viver da arte, especialmente da música, estás a pensar em tentar a internacionalização ou é algo que, nesta fase, não está nos planos?
Pedro Lima: Depois de ter o disco pronto, a frase mais ouvida entre todos os intervenientes foi “este é um projecto para o estrangeiro”, já que há muito pouco espaço no nosso País para bandas portuguesas de rock a cantar em inglês, para não dizer nenhum. Alias, foi aquilo que mais ouvi das editoras grandes quando ouviram o disco: “O disco é muito bom, tá muito bem produzido, mas neste momento não há espaço para este género de música e muito menos cantado em inglês” (ipsis verbis).
HellHeaven: Nesse sentido, e olhando para a nossa cena, qual a maior dificuldade para um músico, ainda mais estando “sozinho”? Existem planos para levar estes temas para o palco?
Pedro Lima: Tenciono tocar ao vivo com músicos escolhidos por mim, aliás, o primeiro concerto é no dia 7 de Março em Vila do Conde. A única dificuldade prende-se com dinheiro, já que tenho de pagar aos músicos que tocam comigo, portanto está fora de hipótese tocar em bares com percentagens de porta, este é um espetáculo para Teatros, Cinemas e grandes salas, pago pelas autarquias, porque é um dos deveres das autarquias promover a cultura e apoiar os artistas nacionais, eles têm orçamento para isso, é só terem essa vontade.
HellHeaven: Depois deste disco e com a excelente receção que tiveste, já tens planos ou ideias para um próximo passo para Dark Miles? Existe algo que gostarias de tentar ou fazer com este projecto?
Pedro Lima: O próximo passo é sempre o disco seguinte, não posso pensar para além disso porque não depende de mim, a única coisa que depende de mim é criar mais música, o resto depende de quem tiver a visão e a audácia para apostar num projecto que tem muita qualidade, mas que não é americano nem inglês, esse é sempre o obstáculo mais difícil de transpor, porque as pessoas invariavelmente dão mais valor ao que vem de fora, quando cá dentro há artistas tão bons ou melhores.
HellHeaven: Qual a mensagem que deixas para os nossos leitores…
Pedro Lima: Oiçam os discos do princípio ao fim, muito frequentemente as vossas músicas favoritas estão a meio ou no fim de um disco.