OS DOLMEN GATE são uma das confirmações para a oitava edição do Massacre Metal e o álbum Gates of Eternity é um dos mais aguardados aqui na terra. O que fica desta conversa é que os Dolmen Gate têm cabeça, tronco, membros… e metal a correr nas veias! Entrevista : Nuno C. Lopes

HellHeaven: Começo por vos dar os parabéns pelo “Gates of Eternity”, qual o vosso pensamento sobre o álbum e quais as vossas expectativas em torno do mesmo?
Kiko Penso ser algo que reflete aquilo que foi (e é) a banda durante o período em que foi composto. Uma mistura de várias influências e de diferentes estilos de composição, derivado da diferença de gostos e experiência nessa área, respetivamente, que acaba por ser por vezes díspar entre os membros. Ou seja, somos uma banda nova ainda à descoberta da nossa própria identidade sonora e este primeiro álbum reflete exatamente isso, de uma forma positiva esperemos. Em termos de expectativas diria que esperamos apenas que as pessoas gostem das músicas. Para mim a maior parte da “expectativa” de um álbum acontece antes e durante o processo de composição do mesmo, quando todo o processo ainda está pela frente e as possibilidades são “infinitas” (ou melhor, imprevisíveis). Depois disso é como disse, é só esperar que não cause transtorno aos ouvintes.
HellHeaven: Tem existido algum burburinho em torno da banda, muito por culpa dos nomes envolvidos na banda, isso de certa forma cria alguma ansiedade em vocês? Sentem, também, algum tipo de responsabilidade ou pressão em relação aos Dolmen Gate devido a esse passado?
Nuno: Os nomes são apenas isso, nomes! O contexto em que estiveram nas bandas antigas não tem nada a ver com o contexto de Dolmen Gate. Para começar, os dois mais “experientes”, nas bandas anteriores estavam com malta da mesma idade. Em Dolmen Gate um tem idade para ser pai de outros 3 e o outro tem idade para ser tio (risos). A única ansiedade que nós mais velhos sentimos é podermos morrer de ataque cardíaco a tentar aguentar a pedalada da malta jovem. Com a responsabilidade é o mesmo. Todos nós fazemos música porque acima de tudo somos fãs de Heavy Metal e isso é meio caminho andado para que o resultado seja satisfatório, porque só queremos lançar músicas que nos deem prazer de ouvir.
HellHeaven: Os Dolmen Gate começaram em 2021 durante a pandemia, como é que decorreu a criação da banda e qual foi o ponto de unicão e de conceito que acabou por vos juntar?
Kiko: A banda começou com o Alex (baterista) a perguntar-me se queria fazer uma banda nova de heavy metal mais épico. O nosso primeiro ensaio foi no final do verão de 2021, com o Fred (antigo baterista de Inquisitor) no baixo, no qual ficou composta a base daquilo que seria a nossa primeira música, Retribution. Pouco depois juntou-se o Nuno na guitarra e a Ana na voz. O line-up ficou completo sensivelmente no final de 2022 quando o Nuno foi para o baixo e o Artur entrou para a guitarra. Não diria que existe um conceito unificante da banda, como disse ainda somos, conscientemente ou não, uma banda à procura de uma entidade por isso não existe um grande plano unificante no nosso trabalho. O que nos une é um gosto partilhado pelo heavy metal. Se serve de alguma coisa posso dizer que as nossas influências vão de Dire Straits e Deep Purple a Bathory e Varathron.

HellHeaven: Algo que pode ser, talvez, uma surpresa é o facto de “Gates of Eternity” ter selo No Remorse Records, mais por ser um disco de estreia. Isto foi estratégia ou, por outro lado, foi a editora que mais “fome” teve de contar convosco? Existiu algum interesse de labels nacionais?
Nuno: Quando gravámos os primeiros temas (ainda antes do lançamento da demo “Finis Imperii”) a ideia era desde logo procurar uma editora para lançar um futuro registo. Como conheço bem o meio underground do Heavy Metal mais tradicional, já sabia quais as editoras que nos poderiam dar mais apoio e visibilidade. A No Remorse foi uma de quatro ou cinco (todas internacionais) com quem falei. Conheço pessoalmente o dono da No Remorse (e, na verdade, das outras editoras também) e ele sempre quis levar a minha banda anterior (Ravensire) para lá. Quando lhe mostrei as músicas, o entusiasmo dele foi óbvio pelo que tudo se alinhou. Tivemos outras propostas, mas dada a dinâmica com que a No Remorse está hoje em dia, não houve grandes dúvidas.
Em relação às editoras nacionais, o nosso objetivo enquanto banda passa por ir tocar por esse mundo fora. Infelizmente, não há cá editoras com grande visibilidade internacional no meio em que nos mexemos (Heavy Metal tradicional), pelo que não seria uma opção.
HellHeaven: No press release que acompanha o álbum os Dolmen Gate são descritos como Epic Heavy Metal, no entanto esse rótulo parece ser curto para o vosso som, até porque há elementos Folk e, também, alguns elementos clássicos do Heavy Metal. Qual será, afinal, a melhor definição para a banda?
Kiko: Penso que de todos os rótulos possíveis o de Epic Heavy Metal é o mais indicado. Apesar de não o conseguir definir em elementos estilísticos específicos, para mim o “Epic” implica, sem querer parecer arrogante, uma certa grandiosidade, seja esta sonora ou dos temas explorados liricamente. Como o objetivo é transmitir essa sensação ao ouvinte, as ferramentas utilizadas para tal acabam por ser definidas pelos nossos gostos. Se acharmos que nesse âmbito é preciso acrescentar elementos atípicos assim o faremos. Mas uma coisa que fique claro: Dolmen Gate não é, nem nunca será, uma banda de Folk Metal!

HellHeaven: Qual o conceito em torno do álbum e onde foram encontrar a inspiração para o álbum?
Kiko: Não existe um conceito unificante. Instrumentalmente as músicas são bastante distintas, tanto pelas diferentes influências como pelo amadurecimento composicional da banda no processo de escrita do álbum. As letras também acabam por ser um bocado diferentes de música para música. No entanto. Diria que o tema mais comum nas nossas letras é resistência à opressão, afirmada, de uma forma metafórica, através da história dos povos invadidos e invasores aqui neste canto da Europa.
HellHeaven: Ainda antes do lançamento deste álbum já tiveram a oportunidade de se apresentar para o público internacional, nomeadamente no Up the Hammers. Que tipo de reações tiveram e, em termos comparativos, sentiram diferenças entre o público, quando comparado com o nacional?
Kiko: Acho que nunca será justo comparar o microcosmo que é o Up The Hammers com qualquer outro. Não só se trata de um festival que atrai pessoas de todas as partes da Europa e do resto do mundo, também é realizado na Grécia, um pais cheio de fanáticos do heavy metal. Ter tido o privilégio de tocar lá e de ter experienciado esse ambiente foi uma experiencia incrível, falo aqui por todos da banda certamente. Foi a validação do autismo musical de uma vida inteira!
HellHeaven: Estão também confirmados para o Massacre Metal Fest, onde vão estar outras bandas como Toxikull, Holocausto Canibal e os “vossos” Nagasaki Sunrise. O que podemos esperar dos Dolmen Gate nesse evento e quais são as vossas expectativas?
Kiko: Se gostarem de heavy metal clássico vão certamente encontrar qualquer coisa de prazeroso nos sensivelmente 45 minutos que estaremos em palco. Se não gostarem certamente não passarão a gostar, aproveitem para meter a conversa em dia com o pessoal, beber umas cervejas e jantar.
Nuno – Sendo um encontro de amigos (desde bandas aos organizadores), a nossa expectativa... não! A nossa certeza! É que toda a gente vai passar um dia excelente.

HellHeaven: Temos assistido, especialmente nos últimos anos, a um aumento significativo de festivais em solo nacional, ao mesmo tempo que, cada vez existem menos salas para tocar. Como olham para o Estado da Nação Metal actual em Portugal e de que forma estes festivais podem ser uma solução para as bandas?
Kiko: Isso acontece simplesmente por uma questão de consolidação de recursos, pela mesma razão que existem menos mercearias e mais rebentos monolíticos da SONAE. Isto no caso dos festivais “maiores”. Existem também festivais mais pequenos que servem os diferentes géneros do underground nacional a públicos mais afastados dos 2 grandes centros urbanos do país. Mas esses também só são viáveis devido a apoios do estado, o que não é propriamente bom, porque significa que ficará nas mãos da burocracia autárquica se certa população tem direito a certa parte da cultura ou não. Não gosto de ver estas questões da perspetiva das bandas, mas sim do publico em geral (qualquer banda que não se consiga ver primeiro como membro do publico não levam com qualquer empatia da minha parte, que o mercado livre as coma vivas!). E nesse prisma vejo este paradigma como sintomático de uma perda de independência na criação de pequenos microcosmos culturais que servem o publico local, falo aqui de promotores, donos de bares, salas de concerto etc, em prol de uma conglomeração da cultura em certos momentos e espaços específicos que em pouco contribuem para o fortalecimento da mesma, tratando a música como um parque de diversões, e dependente sempre da “boa vontade” (leia-se benefício financeiro) de um “mecenas”. Os festivais são muito importantes sim, mas não deveria ser a espinha dorsal da cultura musical. E se acham que é bom negócio para o publico pagar 100 euros para ver 30 bandas, pergunto quantas dessas bandas é que viram mesmo, quantas delas é que queriam mesmo ver e quantas é que gostaram de ver? E no final olhem para o vosso extrato bancário depois de 3 dias a beber cerveja (ou até água!) nas bancas concessionadas. Alguém tem de pagar a conta…
HellHeaven: Também em termos de bandas temos assistido a um, cada vez maior, número de banda a conseguir “furar” internacionalmente, sendo vocês, ou Holocausto Canibal ou Speedemon alguns exemplos. Diriam que se trata de “necessidade” ou apenas a vontade de chegar ao maior número de pessoas? Em que sentido isso ajuda a que “cá dentro” se olhe para as bandas de outra forma e se abram mais portas nacionalmente? Acham que o Metal ainda é considerado um género “maldito” ou está onde tem de estar?
Kiko: Diria que nos tempos que correm uma banda é internacional a partir do momento que tem alguma presença na internet. Aliás, tendo em conta que o público em Portugal, quando comparado com todo o resto do mundo, é bastante pequeno, as bandas serão quase sempre maioritariamente internacionais. Se calhar a questão é mais de que forma é que a projeção internacional pode viabilizar a possibilidade de concertos no estrangeiro. Acho que qualquer banda quer chegar ao maior número de pessoas possível, se não, não se lançavam álbuns nem se davam concertos. E é sempre prazeroso quando se obtém uma reação positiva ao nosso trabalho. Não vejo o metal como vejo qualquer outro estilo musical. Existem timbres, melodias e estéticas associadas e ou se gosta ou não. Os aspetos do metal vistos como “malditos” manifestam-se de forma meramente performativa, exceto em casos de saúde mental dúbia.
HellHeaven: Qual a mensagem que deixam para o público nacional e para os nossos leitores?
Kiko: Se instalarem o Adblock no vosso browser de escolha conseguem ouvir música de borla e sem interrupções, assim escusam de comprar o nosso novo álbum “Gateways of Eternity” que irá sair dia 26 de Abril pela No Remorse Records. Rock and roll all night, into glory ride!