Após o sucesso dos discos anteriores, os nacionais Earth Drive preparam-se para lançar o seu terceiro “Light Codes” no Outono. A HellHeaven falou com Hermano Marques (guitarra, voz) sobre o disco e sobre conceito cósmico que dá energia à banda e ainda ouvimos o álbum em primeira mão, mas isso fica para a 2ª parte deste Especial. Entrevista: João Gama

HellHeaven: Olá, e obrigado pela disponibilidade. O próximo disco sairá no Outono, mas já revelaram os singles “True Passage Into The Void” e “The Bridge”. Como estão a ser recebidos?
Hermano: Olá! Muito obrigado nós pelo interesse na banda e pelo apoio que temos sentido sempre da vossa parte. Sim é verdade, dois singles já estão disponíveis e até agora temos sentido um excelente feedback por parte de quem já nos segue há algum tempo como de quem conheceu a banda agora. É sempre uma enorme gratificação poder partilhar o nosso trabalho e que o mesmo continue a ser percecionado como arte relevante. Existem tão bons trabalhos e é um privilégio que a nossa música continue a merecer a generosa atenção das pessoas.
HellHeaven: O vosso álbum anterior “Helix Nebula” foi motivo de conversa, tendo sido muito elogiado. Qual é a pressão de trabalhar no seu sucessor?
Hermano: Temos muito orgulho no trabalho que temos desenvolvido ao longo dos anos e o “Helix Nebula” foi um trabalho que sentimos ser um marco qualitativo importante para a banda. Foi igualmente muito recompensador ter sido bem recebido. Motivou-nos ainda mais para continuar a trabalhar com os mesmos níveis de exigência e compromisso para continuarmos este caminho. No que respeita à pressão, sinceramente não a sentimos. Sentimos sim uma vontade intrínseca enorme de estarmos juntos e de nos continuarmos a expressar através da música da forma mais autêntica possível e a plasmar na mesma as experiências e o conhecimento que a vida nos dá. Tínhamos a responsabilidade de uns para os outros de nos superarmos, usufruirmos do processo de estúdio, que também nos apaixona a todos, e realizarmos um bom trabalho para entregar ao Daniel Makosch (Raging Planet) que acredita e aposta em nós, tal como todos aqueles que nos apoiam e esperam um trabalho de qualidade. Acreditamos que a vida que vivemos individualmente e em grupo se manifestará de forma natural através da arte e que assim possa ser ouvida e sentida com um maior impacto emocional, que provavelmente poderá ter um efeito catártico nas pessoas e com o conteúdo com as que as pessoas possam relacionar com as suas próprias experiências de vida.
HellHeaven: Com vários discos na vossa bagagem, este será na verdade o vosso terceiro álbum. Como reagem ao mito deste álbum ser um ponto de viragem e definir a identidade da banda?
Hermano: É algo muito subjectivo e que tem a sua pertinência de reflexão mas como referimos anteriormente o nosso foco criativo é a expressão autêntica do que é a nossa vida através desta forma de arte. Estamos conscientes de que existe muita música e que é complexo criar algo muito diferenciado e cada uma das bandas e artistas têm as suas identidades próprias, cada uma tem a sua “impressão digital” e nós temos a nossa. Poderá existir sempre uma tentação de se querer criar algo de inovador que valide a relevância do artista perante tudo o que já existe, mas talvez isso seja racionalizar em demasia a expressão da arte em vez de a “verbalizar” com a maior emoção e sentimento possível. O fundamental é também usufruir do processo em termos de aprendizagens, conhecimento e o consequente crescimento, desenvolvimento pessoal que esta actividade proporciona e a amizade que se vai nutrindo com o trabalho e com as dificuldades que se vão ultrapassando. É natural e compreensível que enquanto banda é fundamental e desejável que o nosso trabalho seja compreendido e reconhecido pelas pessoas como algo importante para elas e que através desse reconhecimento possa haver esse tal “ponto de viragem” no sentido de proporcionar à banda condições mais favoráveis para que possamos continuar a entregar bons trabalhos em que a nossa “impressão digital” continue a ser genuína, com propósito e significado para a banda e para as pessoas.

HellHeaven: Os vossos lançamentos anteriores têm sido caracterizados por uma complexidade intrincada de camadas, desde o experimentalismo, às atmosferas hipnotizantes, combinadas com letras de autodescoberta. Depois de ouvir os singles, diria que podemos esperar que o próximo disco siga também este rumo – concordarias com esta afirmação?
Hermano: Sim concordamos com a tua afirmação. Tudo o que descreveste faz parte da estética da banda, com a sua essência e com o seu conceito. Como já se referiu anteriormente o propósito com que criamos é muito natural na génese das nossas composições que têm como objectivo provocar inicialmente aquele impacto emocional em nós durante o processo criativo e esse experimentalismo e psicadelismo vai surgindo resultante do nosso entusiasmo relativamente a uma ideia que surge espontaneamente num ensaio ou de uma ideia de base que possamos trazer de casa. Depois existe sempre uma parte mais organizacional de composição em que avaliamos as respectivas partes os seus tempos e vamos montando tudo a partir daí. Sem que nos percamos mais relativamente à objectividade da tua pergunta [risos] sim pode-se esperar que este disco também tenha vários momentos de experimentalismo e atmosferas hipnóticas que são enaltecidas através das letras que nos fazem mergulhar numa introspecção interessante.
HellHeaven: O que nos podem revelar acerca do conceito do álbum?
Hermano: Na verdade, a expressão “Light Codes” surgiu durante uma meditação guiada. Quando foi mencionada pelo facilitador da meditação a frase “Light Codes of Source”, foi percepcionada como algo que se enquadrava no conceito da banda e a uma conexão com as fontes de energia vital da terra e do cosmos que é a base do conceito simbólico dos Earth Drive. É um título que acreditamos expressar uma vibração positiva que queríamos interiorizar e transmitir. É um termo que sentimos ser rico em conhecimento que nos pode remeter para conteúdos desde a ciência à espiritualidade. Conceitos como a Sincronicidade, Códigos de inteligência, Epigenética e até mesmo de Biofísica no âmbito da emissão de biofotões, podem associar-se a este conceito. É um conhecimento que na sua interligação poderá promover a activação de informação genética de forma a que possam ajudar no desenvolvimento do nosso potencial tornando conscientes qualidades, capacidades e características determinantes como a resiliência, o altruísmo, a empatia, o carisma a intuição das emoções e o sonho. Todas estas características se manifestam no sentido de enaltecer a expressão humana nas suas relações intra e interpessoais para nos alinharmos mais com a nossa missão e propósito de vida com cada vez mais significado, respeito uns pelos outros e pela natureza. Light codes representa toda a informação de luz codificada no espectro electromagnético, dos seus padrões energéticos e a sua relação com todas as dimensões existenciais e humanas. Tudo o que conhecemos no universo é composto por luz, informação, energia e consciência. Existe uma imensidão de frequências invisíveis e infinitas que transportam informação codificada que poderá ser interpretada dentro de quadros de referência científicos, espirituais e pessoais. O que esperamos é que se possa absorver de “Light Codes” uma experiência enriquecedora desde a experiência sónica ao conteúdo lírico e conceptual em que cada um fará as suas interpretações para continuar o seu caminho de auto-descoberta.

HellHeaven: E este disco funciona como uma extensão dos anteriores?
Hermano: O conceito deste álbum pretende ser dinâmico e aberto. A cada audição e em cada fase de vida poderão sempre haver novas interpretações perante novos ângulos de visão e conhecimento que cada um terá na altura. Este conceito é a sequência conceptual dos dois álbuns anteriores. No “Stellar drone” foi abordada uma temática de Sincronicidade e no “Helix Nebula” um conceito de renascimento, mudança, transmutação e transição para uma nova ERA existencial e humana. Neste album interligam-se estes conceitos com o objectivo de sensibilizar e promover uma maior consciencialização do público para questões fundamentais de descoberta interior, promoção do seu desenvolvimento humano tal como de todos os benefícios para a saúde mental que este processo poderá envolver. “Light Codes” está alinhado quer com os seus antecessores “Stellar Drone” e “Helix Nebula” com o conceito conceptual do projecto EARTH DRIVE com a sua estética e com um público na generalidade cada vez mais interessado pelo autoconhecimento e desenvolvimento pessoal através da arte.
HellHeaven: Neste novo disco tiveram a contribuição do Fernando Matias (novo baixista), que além de tocar ficou encarregue da gravação/mistura. Como foi a sua integração e contribuição?
Hermano: Durante o processo de gravação do “Helix Nebula” sentimos sempre o Fernando como um amigo e um elemento da banda. Foi uma relação tão natural e significativa que apesar de toda a sua exigência e compromisso na realização do álbum, sempre se manifestou com uma enorme empatia perante todas as dificuldades que estivéssemos a sentir e foi sempre uma pessoa que nos compreendia em todas as nossas dimensões e retirou sempre o melhor de nós. A sua atitude empática sempre se alinhou com a atitude de banda e sempre o sentimos como um de nós. Foi tudo muito natural quanto à sua integração e colaboração. A excelência da sua contribuição foi importante tal como a sua fundamental presença entre nós como excelente ser humano, músico, profissional e amigo que apreciamos muito. Estamos eternamente gratos por ter aceite este desafio de caminhar connosco num período complexo e difícil para a banda.
HellHeaven: Por outro lado, o artwork ficou a teu cargo, e também editaste os vídeos dos dois novos singles. Como foi trabalhar na arte, e quão central é o tema cósmico para os Earth Drive?
Hermano: Trabalhar no artwork é sempre mais um desafio que temos abraçado e que nos tem proporcionado desenvolver mais competências que nos possam ser úteis. Foi igualmente gratificante poder colaborar com duas pessoas apaixonadas pela Astro Fotografia e que generosamente nos cederam as suas fotos para podermos trabalhar. Durante o processo criativo da capa, fomos enviando demos do que estávamos a realizar. Tivemos sempre uma opinião muito positiva da parte deles e uma confiança muito grande relativamente ao que estávamos a desenvolver. Estamos mesmo muito gratos pela oportunidade que a Mónica Martinho e o Marco Vidal nos deram pela partilha das imagens deles com os Earth Drive. A capa é o resultado de uma sobreposição de duas nebulosas (Wizard Nebula e Veil Nebula) que resultaram muito bem juntas numa única imagem que expressa muito bem a estética da banda e a sua comunicação simbólica e visual. O cosmos será sempre um tema importante para a banda na medida em que vivemos nesta harmoniosa composição que nos vai equilibrando no universo e por isso é sempre deslumbrante poder apreciar esta viagem através da vibração do nosso som e da nossa arte com este tema que nos une a todos.
HellHeaven: Enquanto o disco não chega, haverá mais planos para a sua promoção? Talvez mais singles/vídeos?
Hermano: Sim, honestamente temos mais um single do qual nos orgulhamos muito, que transparece uma maior vulnerabilidade e sensibilidade madura da banda numa vertente mais íntima e que ambicionamos ainda partilhar antes da edição do disco.
HellHeaven: Em relação a entrevistas, há alguma pergunta a que gostarias de responder, mas que nunca foi feita? Se sim, qual (e qual a resposta)?
Hermano: As entrevistas são sempre um excelente momento em que podemos reflectir sobre o nosso trabalho e que nos proporcionam também um contexto de novos insights sobre nós próprios, sobre a arte, sobre os outros e sobre o mundo. Cada pergunta e cada entrevistador tem a sua visão, a sua curiosidade e interesse sobre a banda. Preferimos que novas perguntas surjam aos nossos seguidores para que continuem a ser tão determinantes e de quem guardamos muita estima pelo seu interesse, apoio e importância também na nossa evolução pessoal e artística.
HellHeaven: Por fim, que mensagem gostarias de deixar aos vosso fãs/nossos leitores?
Hermano: Nesta actualidade cada vez mais polarizada e conflituosa, pretendemos sempre partilhar uma mensagem simples de empatia e tolerância. É um privilégio termos a oportunidade de nos expressarmos e de merecermos alguma atenção. Por isso que a mensagem seja positiva e que possa ser de amor. Respeitem a natureza, cuidem bem de vós e tratem bem os outros, sejam simpáticos e reconheçam sempre que no outro há um mundo complexo que quão melhor for compreendido e aceite melhor será para si e para os outros.