EKTOMORF - “É bom que tenhamos a tecnologia, mas ela mata muita coisa, principalmente o valor da música” (Entrevista)

“Vivid Black” marca o regresso dos Ektomorf aos álbuns e, novamente, os húngaros trazem um disco poderoso e que foi o ponto de partida com o vocalista Zoltán Farkas, numa conversa que olhou (ainda) para Portugal, depressão e tecnologia.Entrevista: Nuno C. Lopes

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HellHeaven: Os Ektomorf estão a chegar às três décadas de carreira, como é que isso te faz sentir?
Zoltán Farkas: Podes crer! (risos) O tempo passa correr e tem sido uma grande jornada e se tudo correr bem, o próximo ano será de arrasar e sempre a navegar na lama e isso é bom! (risos)

HellHeaven: Se alguém te disse, em 1994, que ao fim de 30 anos ainda estarias a lançar álbuns e andar em tours, ou seja ter uma banda de sucesso, qual seria a tua reação?
Zoltán Farkas: “Cala-te!” (risos) Claro que tive de ter a capacidade de chegar até aqui! Comecei esta banda quando tinha 15 ou 16 anos, e estar aqui com, quase, 50 anos… é bom perceber que tudo funcionou! Conseguimos sair da Hungria, estar em editoras grandes e tivemos a oportunidade de estar em palco com pessoas com as quais nunca pensámos! E acho que esta banda tem dos melhores fans do mundo, é insano este percurso! (risos)

HellHeaven: Algo que define a vossa carreira é o facto de não estarem fixos num género e tentam sempre algo novo, achas que isso é parte do sucesso e, também, como abraçam essas novidades como, por exemplo, no unplugged?
Zoltán Farkas: A mudança faz parte da vidas dos músicos e, na verdade, para toda a gente! A música pode ser boa sempre que mudas a perspetiva e todos nós mudamos. Só através das mudanças consegues perder ou ganhar, é assim que as coisas funcionam!

HellHeaven: Quando os Ektomorf começaram a industria musical e a forma como as pessoas ouviam música era completamente diferente. O que te lembras dos primeiros anos da banda e como encaras esta Era diital e a adaptação da industria a este novo público?
Zoltán Farkas: Adoro as novas tecnologias e acho que a Internet é uma coisa boa, o Spotify também mas, ao mesmo tempo tem um lado mau! Quanto tinha 21/22 anos, na altura que comecei a banda, existia um longo caminho a subir e o objetivo passava por conseguir subir os degraus e manter lá. Agora nada é eterno e isso acontece porque tudo é diferente agora, principalmente com os streams, coloco alguma coisa e chego a muitas pessoas, o que é muito porreiro de se ver. Agora com os meus 48 anos de idade já não ligo muito a números mas, na altura que começámos nem sabia o que se passava, o que fazia com que tudo fosse mais natural. É bom que tenhamos a tecnologia, mas ela mata muita coisa, principalmente o valor da música. A música não tem o mesmo valor agora do que quando comecei os Ektomorf, ou mesmo antes disso!

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HellHeaven: Mesmo para os músicos estes tempos são desafiantes, até porque quando começaram existiam as editoras e os promotores que garantiam que as bandas e músicos se focassem na música. Como é que lidas com esta maior exposição a que tens de te sujeitar?
Zoltán Farkas: Continuo a fazer as coisas da mesma maneira! Já tivemos managers mas as coisas não funcionaram bem e, actualmente, sou o meu próprio manager. Tenho uma booking agency e a editora, porque são coisas que são necessárias, contudo confio em mim e se foder as coisas pelo caminho, sei que fui eu que errei, mas se tiveres um mau manager ninguém vai saber de ti! Quando isso acontece os managers são os primeiros a desaparecer ou a colocar a responsabilidade nos outros. Voltando à questão, sempre fiz o que faço agora, a única adenda é que agora tens as redes sociais que, novamente, é bom e mau, porque tens de lidar com tudo o que expões. É natural receberes feedbacks menos positivos e tens de aprender a lidar com isso. Há muitas coisas boas a acontecer na industria e podes fazer com que ela chegue a mais pessoas e tens a facilidade de lidar mais rapidamente com os pedidos que te fazem.

HellHeaven: Os últimos anos foram bastante complicados com a pandemia e os isolamentos e, no eu caso, chegaste mesmo a entrar em depressão que, na verdade, atingiu vários músicos e, inclusivamente perdemos alguns. Como é que foi lidar com tudo isso?
Zoltán Farkas: Sim, foi um período difícil para todos, ninguém escapou ileso! Para os músicos o pior foi sentir que nos retiraram tudo e não conseguir ver a luz ao fundo do túnel. Quando tens um prazo de tempo, consegues lidar bem com isso, mas quando a estrada parece não ter fim é mais complicado. Acabei por entrar em depressão, até mesmo quando diziam que a pandemia podia levar 10 anos a passar. Comecei a pensar no que fazer? Alguns músicos e amigos optaram pelo suicídio, começaram a dar mais nas drogas! Foi mau para mim, mas sobrevivi, ainda que não estou a 100% mas já tenho a minha energia e gastei tudo isso no álbum! A juntar à pandemia, perdi minha mãe há 3 meses, ela já estava doente e isso foi tudo para o álbum, talvez por isso ele seja mais escuro e honesto. Não se trata de estar para ali a chorar porque algo me incomoda, mas trata-se de lidar com as minhas emoções e tentar ajudar quem está na mesma situação, pelo menos da mesma forma que me ajudou a mim. Libertar a raiva e a agressão que existe é uma coisa positiva, tem é de vir de dentro!

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HellHeaven: Enquanto ouvia o álbum não deixei de pensar que este é um encontro de tudo o que os Ektomorf fizeram no passado mas, também, um olhar em frente. Podemos dizer que este é mais um passo na carreira da banda?
Zoltán Farkas: Estás certo e descreveste o “Vivid Black” muito bem! E foi fantástico ouvir essas palavras! (risos). É exatamente como dizes, tentamos modernizar o som mas, ao mesmo tempo refletir o que se fazia em 2000, quando crescemos! Os Ektoorf sempre estiveram à parte das coisas e fomos sempre tentando renascer o nosso som, mas este álbum é mais directo, mais pesado, mas somos um nome forte e tentamos renascer a cada álbum. Quando escrevo música estou a escrever para mim, tal como todos os músicos mas as pessoas têm de gostar, porque se não gostarem estás fodido! (risos) Lançámos dois temas antecipadamente e as reações foram fantásticas e tenho, quase, 100% de certeza que se vão manter, porque estes dois temas refletem bem todo o álbum.

HellHeaven: Vocês já andaram em tour com inúmeras bandas, de Ill Nino a Pro-Pain, entre muitas outras, e essa diversidade acaba por ser espalhada no álbum. Existiu algum tipo de aprendizagem com essas bandas?
Zoltán Farkas: Estar em tour é o melhor para mim! Não se trata apenas de estar com outras bandas mas sim o facto de estar na estrada, estar em cima do palco e com os fans! A primeira banda com quem andei na estrada foi Pro-Pain, em 2002, por aí, e aprendi muito com o Gary, é uma pessoa fantástica e deu muitos conselhos que podia não ter aceite, mas aceitei e levou-me na direção certa! Cruzei-me com músicos fantásticos, a malta de Kreator, Children of Bodom e muitos outros! Estar com eles e falar com eles faz com que ganhes sempre algum conhecimento, às vezes basta só estar e ouvir, por isso sim, aprendi sempre algo com todas as bandas!

HellHeaven: Algo que vos caracteriza é a intensidade com que se entregam em palco. Como é que conseguem manter esses níveis e quais são os desafios?
Zoltán Farkas: Não é fácil! (risos) O que inspira mais é o público, se tiveres um bom público não interessa se estás todo fodido, mas sabes que vais dar um bom concerto! Mas, nem sempre é assim, podes ter um bom público, uma boa disposição, um bom palco mas, estás tão cansado dos 20 concertos anteriores e tens a voz toda fodida mas sabes que tens de dar o melhor de ti e essa energia vem do público mas, quando o concerto acaba e te deitas no autocarro, é aí que recarregas as baterias, é quando te deixas estar, esse é o segredo!

HellHeaven: Tens algumas memórias de Portugal?
Zoltán Farkas: Adoro Portugal! Quando fomos aí com os Children of Bodom lembro-me que tínhamos feito uma grande viagem, acho que viemos da Alemanha que é dos melhores públicos mas vocês rebentaram a escala! (risos) O que me lembro mais é o público, esperamos voltar aí, ainda não sei bem os planos de digressão mas sei que vamos tentar ir aí, se algum promotor ou agente nos quiser, também pode contactar a banda!

HellHeaven: Em 2025 celebram os 30 anos de Ektomorf, estão a pensar em fazer algo para celebrar a ocasião?
Zoltán Farkas: Possivelmente vamos andar na estrada! As celebrações não estão nos planos mas, para já o foco está em promover o “Black Vivid” e tocar o máximo possível! Para já temos 39 datas na Europa e no Verão alguns festivais e, depois, EUA e, talvez, o Japão!

HellHeaven: Qual a mensagem que deixas para Portugal…
Zoltán Farkas: Quero pedir desculpa por a banda não ter voltado a Portugal mas esperamos ir aí muito em breve! Ouçam o novo álbum, falem connosco e agradeço imenso o apoio que têm dado aos Ektomorf.

 

 

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EKTOMORF
“Vivid Black”
AFM Records

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Expoentes máximos do Metal húngaro os Ektomorf dispensam (muitas) apresentações. Com o trigésimo aniversário em 2025, este é o 16º álbum (mais um unplugged) de originais da banda liderada por Zoltán Farkas e o que nos é apresenta desta vez é um compêndio de agressividade e libertação. “Vivid Black” é um conjunto de temas que navega pela mente de Farkas e expõe os medos e receios da “pessoa” e não do músico. Pensar que este álbum foi feito em período pós-pandémico e após o valista ter passadio por uma depressão e pela perda da mãe, é apenas ilustração, até porque a agressividade que os Ektomorf colocam em cada tema é devastador. Há por aqui Nu-Metal, Thrash Metal, Groove Metal, tudo doseado em doses generosas e onde se percebe que a banda assume o risco de não repetir a fórmula, sem que isso signifique romper com o passado. “Vivid Black” resume o passado da banda com um olho posto no futuro. Os Ektomorf estão aí para “as curvas”, exemplos disso são temas como: “I'm Your Last Hope” ou “You and Me”

Texto: Nuno C. Lopes

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