“The Great Tribulation” é o terceiro álbum para os australianos Elm Street e foi o ponto de partida para a conversa com o baixista Nick Ivkovic mas, serviu também para fazer um retrato social do Mundo e perceber o que realemente está errado e qual a solução. Houve, ainda, tempo, para examinar em detalhe todos os temas do álbum em Discurso Direto. Entrevista: Nuno C. Lopes

HellHeaven: Começo por vos dar parabéns pelo “The Great Tribulation”, o vosso terceiro álbum. Como se sentem em relação ao resultado final e este objectivo de um terceiro disco?
Nick Ivkovic: Aliviados! (risos), mas orgulhosos! Digo aliviados porque existiram tantos desafios que não nos permitiram gravar e lançar este álbum antes. A pandemia foi um dos grandes motivos por este atraso até porque o objectivo passava por gravar este álbum em 2019, mas só conseguimos entrar em estúdio alguns anos depois! A nossa cidade teve um dos mais longos períodos de confinamento durante a pandemia, por isso o tempo e a distância entre nós, tal como a ausência de concertos, deixou-nos um pouco desmotivados, existiram momentos em que sentimos que o isolamento não teria fim mas, felizmente, estamos livres desses tempos estranhos e temos um excelente álbum do qual estamos muito orgulhosos!
HellHeaven: Além da questão da pandemia há, também, o mito em torno do terceiro álbum, sendo descrito muitas vezes como o mais difícil. Sentiram alguma pressão ou responsabilidade para o “The Great Tribulation”?
Nick Ivkovic: Existe sempre pressão, mas não a sentimos que venha de fora da banda! Somos os nossos maiores críticos e somos muito cuidadosos com a forma como juntamos todas as peças e, se estamos satisfeitos com o que escrevemos temos a certeza que os nossos fans também vão estar! Concordo com o facto do terceiro disco ser importante para as bandas, o primeiro é aquele que as bandas têm mais tempo para escrever e é uma representação pura da banda antes de ser alguma coisa e, por norma, o segundo álbum é uma continuação, ou reação, ao antecessor. O terceiro álbum será aquele em que ma banda identifica as suas forças e há a oportunidade de crescer enquanto pessoas e banda. Acho que essa tem sido a nossa jornada e o “The Great Tribulation” é um reflexo desse mesmo crescimento.
HellHeaven: Sendo uma banda australiana isso traz uma dificuldade acrescida em termos de digressões, ainda mais agora com esta crise económica. De que forma tudo isso afeta os Elm Street e quais são os desafios?
Nick Ivkovic: É muito complicado, mas também nunca foi fácil para nós! Sempre perdemos dinheiro nas digressões, principalmente pelos custos que existem em sair da Austrália e viajar para onde quer queseja e, actualmente, esse continua a ser o factor que pesa mais. É o nosso dinheiro pessoal que é movimentado e não vivemos como reis, mas não exigimos nada aos nossos fans, até porque os nossos problemas não devem ser os problemas dos outros! (risos) O dólar australiano não é uma moeda muito forte internacionalmente, por isso acabamos por gastar mais em digressão do que outra banda não australiana! Fazemos ito porque somos apaixonados pelo que fazemos e queremos garantir que todos os que apoiam a banda tenham a oportunidade de nos ver ao vivo. Não há muitas pessoas que possam viver isto, por isso não nos vão ouvir queixar, por isso se vamos tocar a qualquer ponto do globo é porque queremos mesmo estar ali!

HellHeaven: Este álbum é um documento negro do Mundo actual e de todas as mudanças e desafios que todos enfrentamos. Como olham para o que vai acontecendo no Mundo e serão estes eventos um sinal do nosso falhanço enquanto sociedade? Qual será a solução?
Nick Ivkovic: Ao longo dos séculos a Humanidade e as sociedades sempre evoluíram ao mesmo tempo e à mesma velocidade mas, actualmente, parece que as ferramentas que criamos estão a evoluir rapidamente e a facilitar a nossa vida, contudo, parece que estamos a regredir ainda mais rápido. O primeiro tema do álbum (“Seven Sirens”) é um bom exemplo de como olhamos para o Mundo actual mas se tivesse que dar uma resposta rápida seria que a avareza, o ego e a conveniência nos está a levar para onde estamos agora. Sinceramente não creio que as armas nucleares sejam a maior ameaça, acho que isso fica para a mente humana que, parece ser a arma preferida dos poderosos, basta ver como as sociedades estão dividas e as mensagens que nos enchem a cabeça de forma constante, ou desligamos dessas merdas ou vamos acreditar nisso como verdades! Não sei se algum dia vamos recuperar dos danos mas temos de ter esperança! Pelo menos podemos fazer umas boas canções sobre isto! (risos)
HellHeaven: Ao ouvir o álbum fiquei com a sensação que qualquer um destes temas poderia ser single, no entanto optaram pelos “Take the Night” e “The Price of War!. Qual foi o fator decisivo que levou a essas escolhas e qual a mensagem desses temas?
Nick Ivkovic: Isso é um grande elogio e agradeço-te por isso! Sentimos que o “Take the Night” tem uma boa energia e uma boa melodia de guitarra e um refrão memorável, por isso tinha todas as características de um single, ainda que os Elm street não sejam uma banda de singles, este é também a faixa mais curta do álbum, por isso foi uma forma de captar a atenção das pessoas e a deixar que elas quisessem mais! A “Price of War” foi escolhida por ser, também, uma faixa curta mas mais pesada, na música e na mensagem. Gosto de pensar que a “Take the Night” é a porta de entrada para uma festa e que a “Price of War” é o murro na cara assim que passas a porta, por isso a mensagem talvez seja que digas não se algum dia te convidar para uma festa! (risos)
HellHeaven: Antes do lançamento do álbum tiveram a oportunidade de andar em digressão, apresentaram alguns temas do álbum?
Nick Ivkovic: Não tocámos nenhum dos novos temas mas lançámos uma versão instrumental da “The Last Judgement” e chegámos a tocar num dos concertos entre confinamentos. Decidimos lançar a demo do tema como single e fizemos um vídeo caseiro, no tempo do Covid, em que nos gravámos em casa, a resposta foi extremamente positiva, o que foi uma surpresa para nós porque estávamos à espera que nos perguntassem pela voz! (risos) Gosto da ideia de lançar um tema instrumental sem aviso, pode ser uma boa surpresa se a música for boa. Voltámos a gravar o tema para o álbum e soa muito melhor que a demo, obviamente que a qualidade é melhor na versão do álbum, mas também adicionámos algumas partes, por isso estou expectante para ver como as pessoas vão reagir à nova versão.

HellHeaven: Com esse feedback positivo quais são as expectativas em torno do álbum? Há alguma ansiedade?
Nick Ivkovic: Estaria a mentir se dissesse que não há alguma ansiedade, mas não estou preocupado! Sinto que as pessoas que gostam de Heavy Metal old school vão gostar! O meu conselho é que não pensei muito e que saibam que não estamos interessados em reinventar nada, apenas queremos gravar um bom álbum de Heavy Metal. Existe muita diversidade no álbum e temos recebido feedback positivo sobre vários temas, o que é muito positivo! Corremos riscos mas, acredito, que não cresces se não assumires riscos e acho que alguns dos nossos seguidores vão ser surpreendidos, e atenção que eu já era fan da banda antes de estar nela e, se olhar para este álbum como fan fico feliz, tem todos os ingredientes que adoro nos Elm Street e todos os temas encaixam em qualquer setlist, por isso podem esperar ouvir muitos destes temas.
HellHeaven: Os Elm Street estiveram em Portugal há uns anos, ainda que não estivesses na banda, mas existem algumas memórias colectivas desse concerto? Será que este álbum nos traz novamente a Portugal?
Nick Ivkovic: Sim, no Paradise Garage, em Lisboa, com os Warbringer e Iced Earth! Entrei na banda depois dessa digressão, mas o resto da malta fala muito desse concerto. Os fans portugueses são muito apaixonados, por isso qualquer feedback que dão vem do coração e, por isso mesmo, a reação nesse concerto foi memorável e diz muito à banda! Queremos voltar a Portugal mostrar os temas do novo álbum, por isso vamos dar o nosso melhor para que isso aconteça!
HellHeaven: Qual a mensagem que deixas para Portugal…
Nick Ivkovic: O Cristianos é melhor que o Messi, mas o Zlatan (Ibrahimovic) é melhor que eles os dois! (risos).
Quero agradecer a todos pelo apoio, tenho visto muitas mensagen vindas de Portugal e estamos muito agradecidos pelo que nos têm dado, esperamos poder retribuir através deste excelente álbum e esperamos voltar a estar com vocês e beber uma Sagres juntos.

“Seven Sirens” - O manifesto inicial para o “The Great Tribulation”! Este é um tema épico e marca bem o ritmo para todo o álbum. Visualizei o artwork na minha mente quando completámos o tema e o Andreas Marschall fez um trabalho fantástico com a pintura da capa. A letra compara a profecia do “Fim dos Dias” com eventos da actualidade, dizendo que a Humanidade criou os seus próprios problemas e que isso será a sua destruição.
“Take the Night” - Uma canção divertida e um excelente seguimento para jornada que é a “Seven Sirens”! Este tema é mais directa e tem algumas influências do Punk, que considero ser uma parte do que trago para os Elm Street. Fala sobre alguém que vê a pessoa que gosta e que o tenta caçar durante toda a noite. Nunca dizemos quem é que está em apuros e deixamos que seja o ouvinte a decidir.
“The Price of War” - Segundo single e voltamos a acelerar o ritmo e a força! É um tema mais Thrash com double-bass do Tomislav(Perkovic, baterista)! Considero o ponto alto a secção do meio que tem mais groove. A temática é o custo da guerra para a Humanidade e questiona quem beneficia disso.
“If Provoked, Will Strike” - Este tema poderia ser considera um hino, por todas as vozes de gang incluídas. O conceito do tema foi trazido pelo Tomislav e fala sobre a proteção que deve ser dada aos trabalhadores. Não sei o que se passa em Portugal mas há muito homens de negócios que acham mais importante proteger o seu estilo de vida do que proteger quem trabalha para eles, o que este tema diz é que as pessoas se devem unir e erguer para o que é importante para todos. “Tocas num, tocas em todos” e “se provocas vamos atacar”, são as palavras de ordem.
“Behind the Eyes of Evil” - O Aaron (guitarra) surgiu com um riff introdutório que gostámos muito e juntámos alguns efeitos para ficar mais aterrador! Achámos que seria uma introdução para um Lado B do vinil, o riff é sujo, pesado e lento. O tema baseia-se numa história real que a mulher do Aaron ouviu na prisão onde trabalhou e isso transforma o conteúdo mais sujo que a música e com a voz do Ben fica ainda mais aterrador. Tentei trazer para este tema um feeling como um encontro entre Status Quo e Black Sabbath, por isso não consigo evitar abanar a cabeça quando ouço o tema. Acho que é melhor aquecerem o pescoço antes de ouvirem este tema.
“The Last Judgement” - Queríamos ter um temas instrumental no álbum, experimentámos essa ideia no “S.T.W.A” no último álbum mas acabou por funcionar mais como uma ponte para o “Blood Diamond”. Este é um tema instrumental que mostra o nosso talento enquanto músicos. Já tocámos este tema ao vivo e as pessoas começaram a cantar com a melodia, o que prova que não precisas de palavras para fazer algo memorável! Devido a limitações com o tamanho do vinil não conseguimos colocar nessa versão do álbum, mas já estamos a resolver o problema, no entanto a versão em CD também soa muito bem!
“The Darker Side og Blue” - A grande balada! Este é um tema que fala sobre os efeitos das alterações climáticas e quando o Ben fala em “mother” refere-se à Mãe Natureza! Todos estamos a ser afetados por verões incrivelmente quentes e invernos molhados e, como o nome da música sugere, a Humanidade contribuiu significativamente para isso. O pianista Diego Zapatero fez um grande trabalho neste tema e elevou isto a um outro patamar. A voz do Ben neste tema é, para mim, o ponto alto do álbum. Estava no estúdio com ele e fiquei impressionado com o que ele fez aqui.
“A State of Fear” - Começa com o baixo e bateria e depois entra uma guitarra em fade antes da banda te levar numa corrida selvagem. Este é um tema de puro Thrash Metal e acho que é a melhor maneira de terminar o álbum. A letra usa os eventos d”A Laranja Mecânica” como foco mas a mensagem escondida fala sobre controlo e de como todas as pessoas acham que sabem o que é melhor para ti mas, por norma, a solução e pior que o problema. A frase “State of Fear” tem muito significados e deixamos isso aberto a interpretações e, uma delas, é a referência à nossa cidade de Melbourne que foi considerada um “State of Fear” durante a Pandemia,