(Entrevista) AIRBORN - "alguns dos elementos distópicos das nossas músicas aconteceram na vida real e isso é que é realmente assustador"

Os Airborn lançaram em Setembro «Lizard Secrets: Part Three - Utopia» que conclui esta sua trilogia. Além disso, a banda italiana prepara-se já para celebrar o seu trigésimo aniversário. Estes foram motivos para a HellHeaven estar à conversa com Alessio Perardi (voz, guitarra, teclados). Entrevista: Nuno C. Lopes

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HellHeaven: Deixa-me começar por vos dar os parabéns em relação ao capítulo final de Lizard Secrets. Como se sentem em relação ao álbum e quais são as vossas expectativas?
Alessio: Obrigado por nos receberem na HellHeaven! Estamos muito felizes com este álbum e, sei que é um cliché, mas achamos mesmo que é absolutamente um dos nossos melhores! Depois de 30 anos de carreira, corres o risco de te repetires ou de tentares algo completamente diferente que não agrade aos fãs. Penso que evitámos essas armadilhas e encontrámos o equilíbrio certo, o que é muito satisfatório. As críticas têm sido muito boas até agora, por isso acho que estamos bem encaminhados. Espero que o álbum chegue ao máximo de ouvintes possível. Na minha idade, esta é a única expectativa que importa.

HellHeaven: O projeto Lizard Secrets começou em 2018, qual foi o maior desafio para esta história incrível?
Alessio: Abordámos esta (sejamos honestos) louca tarefa com entusiasmo, e o facto de ter sido bem recebida desde a Parte Um ajudou obviamente muito no trabalho das sequelas.
É claro que foram necessários 8 anos de trabalho árduo para completar tudo, melhorámos os nossos métodos de gravação e engenharia durante o processo, tentámos aperfeiçoar a nossa performance ao máximo e recebemos um novo baterista durante a produção da Parte Três. Ele fez um trabalho estelar no álbum, mas não se pode saber isso de antemão, por isso... sim, não vou mentir e dizer que foi fácil, mas foi algo que valeu bem a pena!

HellHeaven: Desde que começaram esta história, muita coisa mudou no mundo, primeiro com a pandemia, depois as guerras e agora o aumento do ódio e a fragmentação da sociedade. Estes acontecimentos recentes alteraram alguma coisa na ideia inicial do projeto?
Alessio: Em alguns casos, foi ao contrário: alguns dos elementos distópicos das nossas músicas aconteceram na vida real e isso é que é realmente assustador. Algumas coisas em música metal soam muito bem enquanto batalha épica entre o bem e o mal, mas na vida real são desagradáveis. Não sou um Nostradamus ressuscitado, mas alguns dos problemas do nosso mundo são bastante óbvios. Veja-se, por exemplo, a canção "Oil's Well That Doesn't End Well" [Poço de Petróleo Que Não Acaba Bem]. É sobre tudo o que é disfuncional nos combustíveis fósseis, desde a escassez e as previsões do pico petrolífero à poluição ambiental, às alterações climáticas e à guerra. Escrevi-a há alguns anos e agora está tudo a acontecer em frente aos nossos olhos. Não é novidade, é um problema gigantesco que todos conhecemos há décadas, mas por vezes tendemos a ignorar estas coisas, ou algumas pessoas ocultas tentam fazer-nos esquecer, visando o lucro. De qualquer forma, pelo lado positivo, muitas das nossas músicas são puro escapismo de ficção científica e tenho quase a certeza de que não haverá Lizard Detectives [Detectives Reptilianos] a vasculhar as nossas ruas em busca de criminosos num futuro próximo, mas nunca se sabe... isso até seria bastante fixe! [risos]

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HellHeaven: Sem pobreza, sem crime, sem fome… esta é a utopia que vocês construíram, no entanto, no disco, isso não é necessariamente uma coisa boa. O que nos podem contar sobre este final?
Alessio: Digamos que a Trilogia Lizard Secrets é sobre desafios futuros. Em Utopia, quisemos retratar uma possível sociedade futura onde as empresas controlam tudo e tudo é como um anúncio de TV. Dizem-te que tens uma vida perfeita, mas não é bem assim. Na verdade, isto já está a começar, porque, neste momento, é possível polarizar qualquer debate artificialmente… acontece todos os dias. A história imagina que um dia os poderes instituídos na comunicação decidirão que a nossa sociedade está suficientemente fragmentada, apresentar-se-ão como os únicos salvadores e substituirão a democracia pelo controlo directo, em troca de uma aparente paz, riqueza e segurança. É claro que é uma daquelas previsões que esperamos que não aconteça, mas vejo-a como um risco real para o nosso futuro.

HellHeaven: Lizard Secrets pode ser o maior desafio da vossa carreira. Voltariam a fazer algo assim ou está na hora de algo novo?
Alessio: Infelizmente, não posso revelar o que aí vem, porque fizemos outra aposta ousada: escrevemos isto na última página do livrete do Lizard Secrets: Part Three - Utopia! Não posso estragar a surpresa aos fãs que comprarem o CD físico. Tudo o que posso dizer é: vai ser fantástico, os nossos fãs vão adorar e já começámos a trabalhar nisso!

HellHeaven: Com as formas atuais de ouvir música, e com tudo tão rápido, qual é o principal desafio ao criar não um, mas três álbuns conceptuais? Isso é possível porque os fãs de Metal se destacam?
Alessio: Admito que foi um pouco irresponsável da nossa parte planear uma trilogia de álbuns num mundo onde a capacidade de atenção musical se resume a dois ou três minutos de faixas em streaming. Mas, como disseste, os fãs de Metal são diferentes e tínhamos a certeza de que iria resultar. Quanto maior o âmbito, mais épico é o feedback. Provavelmente, o facto de o Metal ser um género musical de nicho nos dias de hoje (e o Power Metal ser um nicho dentro de um nicho) não é, afinal, algo mau. Isto dá-te a oportunidade para te aventurares por projetos ambiciosos como este sem medo, porque ao fim do dia o fazes por paixão e não por lucro ou fama, o que é algo libertador!

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HellHeaven: Os Airborn estão quase a completar três décadas. Como vês o vosso percurso até ao momento e o que ainda resta conquistar?
Alessio: Em retrospetiva, é incrível que tenhamos chegado tão longe e com relativamente poucas mudanças na formação. Estou extremamente orgulhoso. Não ficamos ricos e talvez não sejamos o nome mais conhecido do Power Metal, mas temos muitos fãs espalhados pelo mundo que adoram o que fazemos e nos apoiam. Acho que, a cada álbum, melhoramos em algum aspeto. É tudo o que poderíamos pedir.

HellHeaven: Em relação ao 30º aniversário, têm algo especial em mente para celebrar com os fãs? 
Alessio: No dia 5 de Outubro, celebrámos o nosso 30º aniversário com uma edição especial do nosso festival Born To Fly. Organizamos este festival na nossa cidade natal, Turim, desde 2017, e é totalmente dedicado às bandas de Power Metal. Este ano, será ainda maior e melhor. Convidámos os nossos amigos dos Scanner, da Alemanha, para serem cabeças de cartaz, o que por si só já é um feito incrível, pois são uma banda lendária e fundamental no nosso género. Para completar o cartaz connosco, convidámos os Drakkar e os Highlord, grandes bandas que fizeram história no Power Metal italiano e que têm mais ou menos a nossa idade. Por isso, sim, foi uma noite incrível!

HellHeaven: Se no início dos anos 90 te dissessem que ainda cá estariam em 2025, qual seria a tua reação? Além disso, que conselhos darias a quem sonha tornar-se músico? Existe algum segredo para a longevidade?
Alessio: O meu eu de 19 anos não acreditaria, mesmo que eu voltasse atrás no tempo e lhe contasse! Não sei se consigo dar bons conselhos às bandas jovens, porque o panorama mudou muito. Nessa altura, nem sabíamos a sorte que tínhamos. Chegámos a receber adiantamentos de editoras discográficas!!! Hoje em dia, tens sorte se não tiveres de pagar a editoras para lançarem a tua música. Adoro a nossa editora, a Fighter Records, não me interpretem mal, mas nem todas são tão justas. E temos a vantagem de sermos uma banda experiente, com mais apelo e uma base de fãs já estabelecida, em comparação com uma banda ainda desconhecida (ainda que talentosa). O mercado musical baseado no streaming também é muito complicado, porque não gera receitas significativas, e não se deixem enganar pelo cliché de que as bandas ganham dinheiro com os concertos ao vivo hoje em dia. As bandas grandes ganham, os jovens artistas pagam para tocar em digressões e festivais, e às vezes é muito, muito dinheiro! Por outro lado, quase toda a gente consegue lançar música com muito mais facilidade hoje em dia, por isso, se o fizerem por paixão, há espaço para todos. A inteligência artificial pode complicar ainda mais as coisas no futuro, de qualquer forma... bem, é uma vida dura. O único segredo para a longevidade que posso sugerir é: trabalhem arduamente, trabalhem arduamente, trabalhem arduamente, sejam vós mesmos e acreditem no que fazem e na música que adoram.

HellHeaven: Qual é a mensagem final que deixas a Portugal, aos nossos leitores e aos teus fãs?
Alessio: Foi fantástico falar com a HellHaven. Amigos e fãs em Portugal, adoramos-vos e pedimos desculpa por nunca termos conseguido tocar no vosso país, que eu pessoalmente adoro! Tentaremos no futuro. Se conhecerem promotores e salas de espetáculos, por favor insistam ao máximo para que aí levem os Airborn, e apanharmos logo o primeiro voo! Muito obrigado!

 

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