(Entrevista) ANIFERNYEN - "já não vejo o black metal como um estilo pouco comercial”

Quase sete anos depois de lançar o seu álbum de estreia, a banda nacional Anifernyen está de regresso com «Ex Tenebris Lvx». Para saber mais sobre este novo trabalho conceptual, a Hellheaven esteve à conversa com Daniel Lucas (voz) e Luís Ferreira (guitarra). Entrevista: João Gama 

129596_photo.jpg

HellHeaven: Olá, e parabéns pelo vosso novo álbum «Ex Tenebris Lvx». Já há reacções?
Daniel: Muito obrigado. Depois do longo e trabalhoso processo que foi, estamos mesmo muito satisfeitos com o resultado final. 
Luís: Lançamos um videoclipe de uma das faixas, “Fortuna”, e o feedback tem sido bom. Vamos aguardar pelo lançamento do álbum e ver o que as pessoas acham. Há muito a explorar no álbum. Muitas dinâmicas, novas abordagens e nove faixas muito pensadas e trabalhadas. Nada ficou ao acaso.

HellHeaven: Os Anifernyen foram formados em 2003, pelo que estão de parabéns por mais de duas décadas de existência! O EP foi lançado em 2008, o álbum de estreia saiu em 2019, e agora o seu sucessor em 2026. Tendo em conta a boa qualidade dos discos mas longos períodos entre eles, consideram-se uma banda perfeccionista?
Daniel: Não falaria exactamente de perfeccionismo, mas mais de brio. Os longos períodos entre edições também surgem porque todos na banda temos uma vida pessoal, que felizmente ainda vai permitindo estas aventuras. E o nosso empenho vem do facto de considerarmos Anifernyen mais do que um mero hobby. Temos prioridades bem estabelecidas. O emprego de cada um vem primeiro. E creio que parte dessa disciplina também carrega para o lado da banda. E a título pessoal, também prefiro fazer tudo com calma e bem estruturado. Já não tenho paciência nem vagar para corridas. Logo se é para fazer, que se faça bem. Definimos uma data limite para o lançamento e com mais trambolhão, menos trambolhão, conseguimos atingir o nosso objectivo.

HellHeaven: Apesar da vossa longevidade, da moderada actividade em termos de produção de discos, e especialmente tendo em conta que o black metal é um estilo pouco comercial, consideram-se uma banda underground?
Daniel: Somos uma banda underground, mas diria que os factores de que falas têm apenas algum peso. Como qualquer banda, mainstream ou underground, ser reconhecido pelo nosso trabalho é uma grande gratificação. Mas a nossa baixa produtividade discográfica vem de outros factores, como dizia antes. E nos dias que correm, já não vejo o black metal como um estilo pouco comercial, tendo em conta a proliferação de som adjacente ao black metal que se tem ouvido por aí. Aqui a questão do underground para nós fica-se mais pela projecção da banda, que, não tendo uma máquina de promoção por trás, por mais que nós tentemos pelas vias mais DIY, nunca alcançaremos números de following que é o que importa agora. Hoje em dia, com tanta oferta, é tão difícil deixar uma marca no underground como no mainstream. Se perguntares no underground se conhecem Anifernyen terás com certeza muitos ombros a encolher.

669630851_1391716259635349_419753999456205119_n.jp

HellHeaven: Para quem ainda não vos conhece, quem são os Anifernyen, e qual é a vossa missão enquanto banda?
Luís: Os Anifernyen são, acima de tudo, um projecto de expressão artística onde canalizamos ideias, emoções e narrativas que dificilmente teriam espaço no quotidiano. Encaramos isto com seriedade e compromisso, mesmo sendo um percurso paralelo às nossas vidas profissionais. A nossa missão passa por criar algo que seja autêntico, coeso e que consiga envolver quem ouve, idealmente levando a nossa música a mais pessoas sem nunca comprometer a nossa essência.

HellHeaven: «Ex Tenebris Lvx» é um disco muito rico em termos de conceitos. Liricamente, foi inspirado n’«O Clube Dumas» de Arturo Pérez-Reverte e cada faixa representa uma passagem por uma das nove portas do Reino das Sombras. O que vos suscitou a curiosidade ou inspiração? E quem teve a ideia de focar o disco na temática do livro?
Luís: A inspiração surgiu naturalmente a partir da obra «O Clube Dumas», mais propriamente da sub narrativa que está inserida no livro: «De Umbrarum Regni Novem Portis» (As Nove Portas do Reino das Sombras), que já por si tem uma forte componente mística e simbólica. O que nos atraiu não foi apenas a narrativa, mas sobretudo a estrutura conceptual das nove portas. A ideia de progressão, de travessia, quase iniciática. Isso encaixou perfeitamente na forma como gostamos de pensar um álbum. Como uma viagem, não apenas um conjunto de músicas. A ideia começou com o Daniel a nível lírico e foi sendo desenvolvida em conjunto, mas acabou por ganhar forma sobretudo durante a fase inicial de composição, quando percebemos que havia aqui um fio condutor forte o suficiente para sustentar todo o disco.

HellHeaven: Também a ilustração se enquadra na mesma temática, inspirada nas gravuras de «De Umbrarum Regni Novem Portis», transformando o disco num trabalho completo e coeso. As ilustrações foram feitas à mão, mas quem foi o artista por trás delas?
Luís: A componente visual sempre foi pensada como parte integrante do álbum, não como um complemento. A decisão de seguir uma abordagem manual, inspirada nas gravuras associadas ao universo do livro, foi deliberada. Queríamos algo orgânico, imperfeito (no bom sentido), que transmitisse autenticidade. O trabalho foi desenvolvido por um artista próximo da banda, o Gonçalo Sousa (@ash.and.debris), em colaboração connosco, garantindo que cada detalhe estivesse alinhado com o conceito. O tema é muito próximo ao Gonçalo já que a obra é um dos seus livros de cabeceira e a colaboração fez todo o sentido do início ao fim.

HellHeaven: Musicalmente, este álbum parece-me mais maduro. Sendo um álbum que sai cerca de sete anos depois do anterior «Augur», como diriam que evoluíram enquanto banda nesse período?
Luís: Houve uma evolução natural, não tanto forçada mas fruto do tempo, da experiência e das influências que fomos absorvendo. Tornamo-nos mais conscientes na forma como estruturamos os temas, mais atentos à dinâmica e ao espaço dentro da música. Há menos necessidade de provar algo e mais foco em servir a música em si. Isso acaba por se traduzir num som, na minha opinião, mais coeso e, talvez, mais confiante.

HellHeaven: Algo claro se nota na vossa sonoridade, a melodia, os coros, e a voz feminina. Estes detalhes de certo modo caracterizam a vossa sonoridade como mais acessível, ou talvez até moderna. Como balançam esse detalhe (que pode talvez alienar muitos fãs do “trve” black metal mais cru)?
Luís: Nunca encaramos esses elementos como uma tentativa de tornar a música mais acessível, mas sim como ferramentas adicionais de expressão. Se a música pede melodia, coros ou uma voz feminina, não vemos razão para limitar isso por questões de “pureza” estética. O equilíbrio surge de forma natural, porque a base, a agressividade, a atmosfera e a identidade continuam lá. Não sentimos que estamos a afastar-nos do black ou do death metal, mas sim a expandir a nossa forma de o interpretar. Não temos a preocupação de ficarmos ligados e catalogados a uma “caixa”.

HellHeaven: Podem falar-nos sobre as novas colaborações musicais que estabeleceram (coros, Sara Antunes)? 
Luís: Ambas as colaborações surgiram naturalmente durante a composição e gravação dos temas. Sentimos a necessidade de algo diferente que trouxesse algo de novo às faixas e também ao álbum como um todo. Ambas as participações foram primeiro idealizadas e testadas por nós e mais concretizadas com a ajuda de convidados. Na “Virtue Lies Defeated” procuramos um registo vocal feminino que conseguisse ter um alcance vocal que correspondesse à melodia que o Daniel idealizou. Aqui aparece a Sara (dos Earth Drive) por recomendação do Pedro Mau, que trabalhou na mix e master do nosso álbum. Acho que o resultado foi bastante bom.

HellHeaven: Antes referia a arte feita à mão, algo que se opõe à arte gráfica, ou até à AI que mais e mais se vê hoje em dia. Mas por outro lado também referia uma sonoridade menos crua. Como se equilibram estes conceitos de “modernização” para vós?
Luís: Para nós, a questão central é a intenção. A tecnologia é apenas uma ferramenta. O risco de algo se tornar “plástico” não vem da ferramenta em si, mas da forma como é usada. Tentamos manter um processo criativo honesto, onde as decisões são guiadas pelo que faz sentido artisticamente e não por tendências ou atalhos. Seja na música ou na imagem, procuramos sempre esse equilíbrio entre evolução e identidade.

1422291.jpg

HellHeaven: Incluíram no disco não um, mas sim dois temas cantados em português. Porquê estes dois especificamente? E para o futuro, podem-se esperar mais temas em língua lusa?
Luís: Esses temas surgiram de forma muito específica, tanto pela sonoridade como pela carga emocional que pretendemos transmitir. A língua portuguesa tem uma expressividade própria que encaixou perfeitamente nesses momentos do álbum. Não foi uma decisão estratégica, mas sim artística. Para o futuro, não fechamos portas. Se fizer sentido no contexto de um tema, voltaremos certamente a explorá-la.

HellHeaven: Com o disco quase a sair, quais são os vossos planos para o futuro?
Luís: Numa primeira fase, queremos promover o álbum da melhor forma possível. Lançamos recentemente um videoclipe. Será naturalmente lançado mais algum conteúdo, eventualmente vídeos, e sobretudo tentar levar estas músicas ao palco. Depois disso, naturalmente começaremos a trabalhar em novo material. Mas cada fase tem o seu tempo.

HellHeaven: Obrigado pela disponibilidade. Por fim, que mensagem deixam aos vossos fãs/nossos leitores?
Luís: Agradecemos a todos os que têm acompanhado o nosso percurso, seja desde o início ou mais recentemente. Este álbum foi feito com total dedicação e esperamos que consigam retirar dele algo significativo. Ouçam-no com tempo. É um disco para ser explorado.

129596_logo.jpg

 

0