Os noruegueses AVKRVST lançam em Junho o seu segundo álbum «Waving At The Sky» e nesse mesmo mês passaarão pelo nosso país para tocar no Comendatio Music Fest. Para saber um pouco mais, a HellHeaven trocou umas palavras com Simon Bergseth (guitarra, baixo, voz).

Hellheaven: Olá e parabéns pelo novo álbum «Waving At The Sky»! O disco será lançado em Junho, e já revelaram dois singles do mesmo: “The Trauma” e “The Malevolent”. Como estão eles a ser recebidos até agora? Podemos esperar mais singles até que saia o disco?
Simon: Obrigado. A resposta está a ser muito, muito boa. Penso que as pessoas estão a interpretar as músicas como pretendíamos: percebendo que o som tem mais maturidade, originalidade, e orquestrações do que antes. Estamos mesmo excitados por que saia o álbum! Mas até lá não haverá mais singles.
Hellheaven: Estão em actividade desde 2021, mas ao que parece a banda nasceu de um pacto que Martin e Simon fizeram quando tinham apenas 7 anos. Podem contar-nos mais sobre esta longa história?
Simon: Sim, os nossos pais são melhores amigos e conheci o Martin quando eu tinha um mês de idade e o Martin tinha zero. Os nossos pais tocavam numa banda de rock progressivo a vida toda e quando eles faziam ensaios, eu e o Martin subíamos para o loft durante o almoço e pegávamos nós nos instrumentos. Como sempre vivíamos a uma hora de distância, quando tínhamos sete anos, pensámos: “Ok, quando formos mais velhos, como os nossos pais, também vamos formar uma banda”. Mas não sabíamos que acabaria por ser rock progressivo. Mas, há alguns anos, durante a pandemia, juntamo-nos para caminhadas nas montanhas, e a uma dada altura numa noite enquanto bebíamos umas cervejas, sem termos abordado o assunto de outra forma, simplesmente olhamos um para o outro e entendemos que era o momento sobre o qual tínhamos falado há tipo uns 20 anos.
Hellheaven: Porque escolheram o nome “AVKRVST”? Como se pronuncia e qual o seu significado?
Simon: As nossas famílias têm cabanas numa pequena cidade, a quatro horas de Oslo, chamada Aldal. Foi aí que compusemos e gravamos os dois álbuns. E dessa mesma pequena cidade vem um famoso autor e pintor chamado Kjell Aukrust. Portanto, é basicamente o seu apelido, só que estilizando com “V”s em vez de “U”. Tivemos de mudar porque nunca nos encontrariam no Google e o nome dele está patenteado por isso seríamos provavelmente processados também. Mas esta estilização faz parte da cena metal, já há alguma familiaridade com esta estética.

Hellheaven: O novo álbum «Waving At The Sky» é, na verdade, uma prequela do anterior «The Approbation», podem dizer-nos um pouco mais sobre a história destes discos?
Simon: Sim, escrevemos o último álbum «The Approbation» durante a pandemia na cabana onde eu e o Martin basicamente nos isolámos para fazer música. E criámos uma personagem que é um tipo solitário que também se está a isolar nesta cabana e meio que enlouquecendo a certo momento. Mas para o novo álbum, nós pegamos num caso antigo e realmente horrível sobre duas famílias que abusaram dos seus próprios filhos e dos filhos uma da outra. Foi um grande caso na Noruega, há uns 15 anos, mas este caso voltou a surgir para mim e para o Martin. E desde o último álbum, tanto o Martin como eu, cada um de nós tem a sua própria filha. E esta história afetou-nos de uma forma diferente agora que a compreendemos por completo. Por isso, quisemos aprofundar um pouco mais esta história. O álbum é meio baseado e inspirado em coisas desse caso real. E nós focamo-nos um pouco na mãe, no padrasto e numa das filhas no caso. E, a dada altura do processo, percebemos que o padrasto poderia facilmente transformar-se neste tipo sobre quem estávamos a escrever para o primeiro álbum. Encontrámos assim essa linha condutora que permitiu que este novo álbum “Waving at the Sky” se tornasse uma prequela do primeiro álbum «The Approbation».
Hellheaven: Vocês tocam metal progressivo, rico em atmosferas e com histórias conceptuais. Nesse sentido, qual diriam ser a força motriz do vosso processo de composição?
Simon: Na verdade, a única razão pela qual eu e o Martin começámos esta banda foi para podermos sair juntos mais frequentemente, porque vivíamos um pouco afastados e não tínhamos muito tempo para sair. E depois pensámos: “com a banda, podemos estar juntos uns fins de semana, beber umas cervejas e fazer música”. E essa é ainda a essência da banda. É como que o nosso bebé e provavelmente continuaremos a tocar quando tivermos 70 anos, porque não é um projeto apenas para agora. É um bebé para a vida, que vai crescer. Temos de ser os pais. E quando se trata dos aspectos técnicos, fazemos tudo, a composição e as gravações. Tudo no álbum é feito na cabana, excepto a bateria, que é gravada, e também é misturada, posteriormente no meu estúdio em Oslo, mas tudo o resto é sempre feito nessa pequena cabana.
Hellheaven: O álbum de estreia, «The Approbation», foi muito bem recebido há alguns anos. Nesse sentido, sentiram alguma pressão adicional ao criar «Waving At The Sky»?
Simon: Na verdade não. E isto acontece sobretudo porque, quando vamos para a cabana, pomos os telemóveis de lado e estamos a curtir a cena juntos. Como somos melhores amigos desde que nascemos, temos uma forma rara de ler a mente um do outro, e isso torna todo o processo criativo bastante fácil. Ficamos na cabana, a beber cerveja, a comer, só a fazer música. Não pensamos em mais nada e não nos preocupamos realmente com o que os outros pensam sobre a música. A não ser que gostem, claro, aí ficamos felizes, claro! Mas, enquanto o fazemos, não estamos a tentar agradar a mais ninguém além de nós próprios, se é que isto vos faz sentido…
Hellheaven: E como sentem que o vosso som evoluiu desde o lançamento anterior? E qual foi o maior desafio na criação do novo álbum?
Simon: Tivemos de mergulhar um pouco mais nas nossas mentes criativas e em nós próprios, porque o primeiro álbum foi feito simplesmente por coisas que nos vinham à cabeça. O que quer que estivesse nas nossas cabeças e mentes, simplesmente escrevíamos, gravávamos e pronto. É por isso que acho que o «The Approbation» tem referências mais claras às bandas com as quais crescemos. Mas entretanto acho que amadurecemos um pouco, aliás, envelhecemos um pouco e criámos filhos! Divertimo-nos tanto a compor este novo álbum como o anterior, mas agora tivemos de nos aprofundar um pouco mais em nós próprios à medida que o escrevíamos, simplesmente tudo o que existia de fácil acesso das nossas mentes foi utilizado no primeiro álbum. Assim, tivemos de nos esforçar um pouco mais, mas acho que agora soamos mais maduros e um mais originais. E por todas as entrevistas que fizemos e reviews que lemos, parece-nos que os ouvintes estão a pensar exatamente a mesma coisa, o que nos deixa felizes porque conseguimos traduzir isso bem.
Hellheaven: Falando de referências, algures online alguém disse que soavam quase como se Opeth e Porcupine Tree tivessem um filho. Como se sentem em relação a isso?
Simon: Na verdade acho que discordamos, mas ao mesmo tempo concordamos que porque Porcupine Tree e Opeth são duas das nossas maiores inspirações, tendo sido daquelas grandes bandas enquanto crescíamos. E não estávamos a tentar fazer nada específico, nem sabíamos que íamos rock/metal progressivo quando começámos, só queríamos fazer música. Provavelmente através da influência dos nossos pais acabamos por soar assim. Mas como dizia, no novo álbum há referências menos claras, apesar de se poder perceber de onde vem alguma da inspiração.

Hellheaven: Colaboraram com Ross Jennings (Haken) na música “The Malevolent”. Como se sucedeu tudo isto?
Simon: Depois de sair «The Approbation» o Ross publicou uma foto dele com o disco na mão no Instagram, a delirar e só tendo coisas boas a dizer sobre o álbum, o que nos deixou muito felizes porque já ouvimos o Ross/os Haken há bastante tempo, sendo muito importantes para nós. “The Malevolent” é um pouco diferente das outras faixas do álbum e durante o processo de criação no disco estávamos a pensar pô-la de parte, mas ao mesmo tempo queríamos a faixa porque é tem um estilo mais tipo pimba ou cowboy rural, algo que retrata o padrasto do caso real muito bem porque ele era um cara que se vestia de cowboy ao ar livre apesar de ter uns 50 anos. Queríamos ter a faixa, mas não tínhamos uma melodia ou letra, até que pensámos em perguntar ao Ross Jennings se gostaria de colaborar nela. E ele aceitou e escreveu a letra toda e também as melodias para os vocais no refrão. Ele é um tipo impecável e a música ficou óptima!
Hellheaven: Em breve, irão tocar no Comendatio Music Fest. Sem revelarem algumas surpresas, o que pode o público esperar da história: um repertório mais focado no novo «Waving At The Sky» ou uma distribuição 50:50 entre os dois álbuns?
Simon: Vamos tocar algumas faixas novas de «Waving at the Sky», mas é muito difícil escolher quando tens apenas 60 minutos porque vais ter de deixar de fora algumas das favoritas. Mas temos de tocar uma boa parte do «The Approbation», e por isso devemos ficar à volta de uns em torno de 60:40.
Hellheaven: Sendo esta a vossa primeira vez em Portugal, estão familiarizados com a cena musical/metal portuguesa?
Simon: Conheço os Moonspell, mas para ser honesto não conheço muito além disso.
Hellheaven: E para além de tocarem em Portugal, de que outras formas planeiam continuar a promover o novo álbum?
Simon: Ainda não temos datas oficializadas que possamos partilhar, mas iremos em digressão e tocaremos em alguns festivais. Estamos mesmo contentes com o disco e excitados para que saia, mas até lá vamo-nos focando em dar entrevistas.
Hellheaven: Obrigado pelo vosso tempo! Por fim, que mensagem gostariam de deixar aos nossos leitores/vossos fãs/público do Comendatio?
Simon: Esperamos que ouçam e gostem do nosso álbum. Como é um disco conceptual, recomendamos que realmente que se sentem a ouvir o disco de uma assentada para absorver a narrativa. E como a história é realmente negra, esperamos que se sintam gratos por não ter experienciado nada assim.
