(Entrevista) AWAKE CONSCIOUSNESS- “As limitações que imaginamos na nossa mente [...] podem ser ultrapassadas”

Os Awake Consciousness, banda de Madrid formada em 2018, combinam metalcore, groove, djent e progressive metal. Após o bem recebido Into A Quantum Leap (2022) e novos singles, a HellHeaven falou com Ira, Danfred e Manu sobre o presente e o futuro. Entrevista: João Gama

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HELLHEAVEN: Olá, e parabéns pelos vossos novos singles “I Am” e “This is Our Time” (que conta com a colaboração de Lena Scissorhands dos Infected Rain).  Como estão a ser recebidos?

Manu: Muito bem. Estes singles têm por trás um nível de trabalho completamente diferente do que fizemos anteriormente. As opiniões de quem ouviu as músicas e viu os vídeos têm sido unânimes: estamos a dar um grande passo na nossa sonoridade. Os fãs estão a apreciar que as músicas soem a algo novo, mas sem se distanciar demasiado. Estamos a experimentar imenso na engenharia no estúdio, a gravar as coisas nós mesmos; estamos muito activos nas redes sociais com vídeos, reels, promos, etc. No fundo, estamos a trabalhar de uma maneira diferente, por isso estamos muito satisfeitos com a explosão de reacções. Estamos muito gratos, não só pela forma como os singles foram recebidos, mas por todo o apoio que temos recebido como banda. Isso é muito importante para continuarmos a trabalhar na nossa música.

HELLHEAVEN: Tendo em conta que são uma banda relativamente recente, o que nos podem contar sobre a vossa história?

Manu: O Danfred e a Ira já estavam envolvidos em vários projetos, mas queriam fazer algo novo – algo com propósito, com uma mensagem que as pessoas pudessem abraçar. Foram eles que criaram a banda em 2018. Eu conhecia o Danfred de outros projetos (desde 2014/15) e sabia que estavam a fazer algo novo. Dada a minha experiência, eles abordaram-me para as composições e gravações. Como achei o projeto mesmo muito fixe, aceitei e juntei-me à banda por volta do quinto single.

Depois aconteceu o COVID e foi a confusão total por causa do confinamento. Estávamos a tentar gravar no Metropolitan (estúdio em Madrid) com o Kappa - o nosso produtor e grande amigo da banda. Tivemos de lutar contra toda a situação – foi horrível. Gravar e compor «Into A Quantum Leap» foi muito difícil. Tínhamos algo que queríamos realmente fazer e partilhar com o público, tínhamos um projeto com uma mensagem que ajuda as pessoas, mas as condições eram simplesmente impossíveis. Tínhamos mesmo planos para tocar ao vivo, mas tudo parou. 

Não consigo explicar de uma forma melhor porque não há mesmo melhor forma de explicar. Nunca quisemos ser uma banda casual, queríamos algo sério e tivemos de nos adaptar. Por isso, focamo-nos em construir o projeto mesmo que não pudéssemos atuar ao vivo.

HELLHEAVEN: Referiste a evolução do vosso som quando falávamos dos novos singles. Essa evolução deve-se ao vosso crescimento/experiência como compositores ou mais ao trabalho de equipa (uma vez que a banda já não é só Danfred e Ira como no início)?

Manu: É uma combinação. Estamos a evoluir com a cena musical actual. A cena continua a explodir e algumas bandas (Sleep Token, por exemplo) estão a lançar novas sonoridades, e nós somos influenciados por isso. Além disso, o Danfred ainda mantém aquele plano inicial de não querer um projeto fácil e banal que não transmita sentimento. Quer continuar a inovar e ele consegue criar coisas realmente complexas e ritmos exagerados, mas expressivos. Às vezes nem percebo o que ele está a fazer [risos], mas sinto o groove da coisa. Ele tem todas estas ideias fixes enquanto eu tenho a composição em mente, e depois misturamos as coisas e as músicas nascem dessa forma. No geral, queremos algo novo e fresco, em vez de algo puramente técnico e aborrecido. Por exemplo, ouçam “Neptune” para perceber a ideia. Queremos que as músicas sejam divertidas de tocar ao vivo, queremos que as pessoas sintam realmente as dinâmicas e sintam a vibe, e pensem “isto é mesmo fixe”.

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HELLHEAVEN: Já que mencionaste Sleep Token, de onde vêm as vossas influências? Se tivessem de introduzir Awake Consciousness a alguém quais as bandas que refeririam para comparação?

Danfred: A intenção é sempre criar uma sonoridade própria e fixe. Mas claro há várias bandas que nos inspiram. Meshuggah definitivamente é uma delas! Mas também, Monuments, Veil of Maya, Periphery, Jinjer, Spiritbox... Actualmente também Sleep Token. De certeza que me estão a escapar muitas [risos]. Mas no fundo tudo começou principalmente com Meshuggah , Veil of Maya e Periphery.

HELLHEAVEN: Também o papel das mulheres no metal tem evoluído imenso no metal. No início havia Doro. Em meados dos anos 90 surgiam as female fronted metal bands (rótulo que lhes deu visibilidade na altura, que agora já não fará tanto sentido), muitas popularizando o estilo “Beauty and the Beast” enquanto vocalistas melódicas. Mas havia alguns pontos de contraste com Angela Gossow, por exemplo, remetendo a um estilo mais feroz. E actualmente, talvez com a explosão de Jinjer, nota-se cada vez mais a combinação de estilos. Ira, como sentes esta evolução e quão importante foi para ti?

Ira: A Angela Gossow sempre me inspirou, tendo sido para mim a principal. Penso que a sua influência no mundo do metal abriu as portas a mais mulheres e fortemente lhes deu importância na música pesada (death metal, metalcore, etc). Penso que há cada vez mais mulheres no metal, que antes era um estilo maioritariamente masculino. Há uns 10-15 anos seria algo estranho haver mulheres a combinar melódico e gutural, mas agora já é normal como dizias. Na verdade sou professora de canto, e noto que tenho várias alunas que querem aprender a combinar técnicas

HELLHEAVEN: Isso é algo que também se vê mais nos dias de hoje, os treinadores (inclusive youtubers) dedicados aos vocais mais agressivos. Parece haver uma maior atenção ao desenvolvimento de técnicas apropriadas. Pois ao contrário do que muitos (especialmente fora do metal) possam pensar, não se trata apenas de “gritar”. Queres comentar algo acerca disso?

Ira: Sim, é complicado combinar os dois estilos. É necessário ter aulas para aprender a controlar o corpo para combinar os estilos. Por isso penso que é mesmo muito importante ter um bom e rigoroso treino. Não é só gritar, há que controlar muito bem o diafragma, especialmente ao alternar registos. Se não estudares a técnica apropriada poderás acabar por danificar a voz. É realmente importante aprender as técnicas, perceber como funciona o teu corpo e, aprender a controlá-lo. No meu caso em particular, esse controlo é ainda mais importante, pois canto ao mesmo tempo que faço pole dance em palco.

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HELLHEAVEN: Isso é impressionante! Queres falar mais dessa combinação e como se integra na vossa música?

Ira: Queremos passar a ideia de que é possível fazer aquilo que se pensa ser impossível. É um processo e uma sensação transcendente. As limitações que imaginamos na nossa mente não são realmente intransponíveis e podem ser ultrapassadas. Quando praticas e treinas a sério, podes realmente alcançar os teus objetivos. É por isso que faço estas coisas que parecem tão diferentes. Pretendo abrir a mente dos espectadores e mostrar que têm um grande poder interior. E isto está relacionado com o conceito da banda “Awake Consciousness”. Na verdade, é a mesma mensagem que queremos partilhar nas nossas letras.

HELLHEAVEN: Como afirmavam não querer fazer espectáculos aborrecidos, esse parece ser mais um bom elemento para manter o público entusiasmado. E falando de espectáculos, vocês tocaram em Portugal em 2024. Que memórias guardam desse momento?

Manu: Foi fantástico! Apesar de não ter sido um evento grande, foi um evento em grande. Estávamos a tocar, e o público estava mesmo a sentir a nossa música e a fazer headbanging, foi uma loucura! A memória que ficou foi que o tamanho do palco ou da audiência não interessou, de todo, para a intensidade e energia que se sentiram.

Ira: Tivemos uma grande conexão com o público português. Sentimo-nos em casa… muita energia e paixão partilhadas. Podias sentir o feedback muito bem, a banda entusiasmada por tocar e o público a reciprocar de volta.

HELLHEAVEN: E agora, depois de terem lançado os últimos dois singles, quais são os vossos planos?

Manu: Estamos a planear mais singles para este ano e talvez até para o próximo. E estamos a trabalhar nos vídeos para alguns singles. Também estamos a procurar e tentar organizar alguns espectáculos por volta Setembro ou Outubro. Além disso, haverá um álbum novo a caminho. Queremos partilhar imenso material com os fãs e estamos a trabalhar muito para isso.

HELLHEAVEN: Obrigado pela disponibilidade. Em relação a entrevistas, há algo a que gostariam de responder, mas nunca ninguém vos perguntou (e qual é a resposta)? 

Ira: Talvez sobre o que gostamos de comer, se somos vegetarianos. Não, não somos vegetarianos. Temos respeito pelos animais. Sei que no mundo do metal muitos vocalistas são vegetarianos, e eu compreendo e respeito isso. Mas para mim, para estar em palco e poder dar o meu melhor, preciso de proteína.

Manu: Ela precisa mesmo de desenvolver os músculos para fazer aquelas coisas todas em palco!

Ira: Pelo menos para nós, para nos prepararmos para um concerto precisamos de carne ou peixe. Gostamos de comida saudável e não consumimos drogas, não bebemos álcool, excepto uma cerveja ocasional. Somos uma banda muito saudável e desportiva. 

HELLHEAVEN: Por fim, que mensagem deixam aos vossos fãs/nossos leitores em Portugal? 

Manu: Neste preciso momento a mensagem é: Preparem-se! O que está para vir será muito, muito louco. Temos muitas ideias em mente neste momento. Fiquem atentos. Será algo diferente. Vai ser absolutamente fantástico!

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