(Entrevista) DEMOCRASH - “Não classificaria a nossa música como de intervenção mas mais como um conjunto de reflexões”

Os Democrash lançaram em Maio «Important People», que como não poderia deixar de ser, é um trabalho sem fronteiras musicais, e repleto de reflexões sociais. A HellHeaven esteve à conversa com o Octávio Nunes, vocalista e guitarrista da banda lisboeta, para saber mais sobre o lançamento deste seu segundo longa-duração. Entrevista: João Gama

democrash-mai25-1200.webp

HellHeaven: Olá, vou começar por vos dar os parabéns pelo novo álbum «Important People». Quais as vossas expectativas para este disco? 
Octávio Nunes: Olá! Como sempre, chegar ao maior número de pessoas, que ouçam e passem a palavra mesmo que tenham feito download ilegal...

HellHeaven: Foi apresentado o mês passado ao vivo, a 16 de Maio no Tokyo, em Lisboa. Como foi a recepção? E como recordam o espectáculo em si? 
Octávio Nunes: As reações ao disco foram muito boas. O espetáculo foi uma enorme reunião de amigos que nos acompanham há quase 11 anos e além do mais correu bem – o som estava bom e o espaço é ótimo para espectáculos desta dimensão. 

HellHeaven: Este é o vosso segundo longa-duração, e nota-se que apesar de seguir na onda do anterior «Propelled By Gas From Cans Of Soda» também se distingue dele. Por palavras vossas, como vêem esta evolução? 
Octávio Nunes: Sem desprimor para os anteriores, este foi misturado com mais cuidado da nossa parte e também com a imprescindível sabedoria do Francisco Santos que tomou conta dessa parte tão importante num disco. A evolução também está relacionada com a nossa maior rodagem, que nos permitiu explorar outros caminhos a partir das bases que já tínhamos. 

HellHeaven: «Important People» é um disco que desafia o status-quo. Quão importante é para vós que exista “música de intervenção”? E qual a importância que a música (não só a vossa, mas em geral) transmita uma mensagem?
Octávio Nunes: Não classificaria a nossa música como de intervenção mas mais como um conjunto de reflexões que convidam a pensar sobre assuntos que me (nos) preocupam e que deveriam estar na lista dos “to think” de toda a gente que vive neste planeta e que ainda não percebeu que as baratas, os ratos, os gatos, as gaivotas, os vírus, as vespas asiáticas, as formigas de fogo e outras cenas de que ainda não sabemos, só estão à espera do momento certo... (vd. “the great takeover”). A mensagem é crucial: como letrista as letras estão lá porque fazem sentido ou então as músicas eram instrumentais ou as vocalizações eram apenas suportes rítmicos da própria música. A música em si também transmite uma mensagem mas obviamente que são as palavras que nos distinguem dos outros seres vivos e são elas que fazem a diferença – e temos de as usar e aproveitar enquanto servem para alguma coisa.

500x500-000000-80-0-0.jpg

HellHeaven: No disco anterior já tinham música em inglês, mas agora surge aqui uma em francês. Porquê o francês?
Octávio Nunes: Todas as músicas em todos os trabalhos anteriores são cantadas em inglês. A escolha linguística – francês no “le toit de la maison” - foi apenas uma experiência, para não cantar sempre em inglês... e também porque a música, na sua estrutura original vai buscar influências a “Ça planne pour moi” de Plastic Bertrand e “Wake up the nation” do Paul Weller (aqui na parte “...the cracks from the pavement...” que corresponde ao “...le craquement du trottoir...”). Mas basicamente, o “Le toit de la maison” é um tema sobre claustrofobia sentimental, um pesadelo em que nós somos o tecto da casa e esmagamos os que dela estão dentro. 

HellHeaven: O conceito de liberdade é algo que se reflete na vossa tão flexível abordagem sonora, sem fronteiras estilísticas, onde se pode encontrar de tudo um pouco (rock, jazz, funk, punk, etc). Em termos de processo criativo, como é encontrar estas ideias e encaixá-las de maneira a que façam sentido?
Octávio Nunes: Correcto, é uma mistura sem limites, eclética, punk, no wave, diy, wtf, o que lhe quiserem chamar. A mistura surge tão naturalmente que nem damos por ela e de onde vêm as influências. Quando chegamos ao estúdio as músicas já vão (quase) todas suficientemente rodadas ao vivo e ensaiadas, por isso as bases normalmente vão pré-cozinhadas – depois no estúdio e a seguir pomos apenas alguns temperos. As ideias têm também duas vertentes distintas: as músicas, que surgem dessa junção de estilos dos cinco elementos da banda, que “atiram” para o caldeirão as suas influências mais diversas; Já as letras são pessoais e reflectem sempre questões autobiográficas ou preocupações insolúveis: a identidade é nossa mesmo ou somos apenas o produto do que os outros acham de nós e a forma como nos vêem? E o que dizer da realidade? Como dizíamos no nosso primeiro trabalho, no tema “State of the Nation”: “Nothing’s really there, when I’m not looking...” 

HellHeaven: «Important People» saiu com selo da Raging Planet em conjunto com a Vinil Experience? Porquê esta união?
Octávio Nunes:  Para usar linguagem futebolística: em equipa que ganha não se mexe! É uma fórmula a manter, além do mais somos amigos (do Jota da Vinil e do Makosh da Raging), o que é que poderia ser melhor?! 

HellHeaven: Agora que o disco já saiu, quais são os vossos planos para o futuro? Vão continuar pela estrada? Já estão com vontade de preparar outro disco?
Octávio Nunes: Vamos ver o que acontece, dar concertos em sítios fixes e onde valha a pena tocar. Na estrada, sim, mas com calma porque andar a carregar amplificadores não é – para mim pessoalmente e cada vez mais – uma coisa que me entusiasme… Não estamos a preparar outro disco, estamos a começar algumas músicas e a ver o que sai de concreto...

HellHeaven: Em relação a entrevistas, há alguma questão a que gostassem de responder mas que nunca vos foi feita? Se sim, qual (e qual a resposta)?
Octávio Nunes: Sim, por acaso até tenho uma: se a banda de repente fosse convidada para fazer uns quantos concertos fora de Portugal e isso fosse divulgado nas redes e meios de comunicação em Portugal, quantas pessoas nos passariam a ligar de maneira diferente, não pelo conteúdo das nossas músicas e letras, mas só porque tínhamos passado a ser uma banda “internacional”? A resposta infelizmente é que isso seria altamente provável, dando razão ao porquê do título do álbum «Important people»!

Important-People-Front-768x768-jpg.webp

HellHeaven: Por fim, resta-me agradecer a disponibilidade, e pedir uma mensagem para os fãs/leitores?
Octávio Nunes: Se tiverem uma banda toquem aquilo que vos der na gana, sem barreiras, sem imitações, sem cedências e digam o que for importante, nestes tempos em que não se diz ou não se pode dizer o que se pensa.

 

0