(Entrevista) FAEMINE - "Além da música, a vida em si é uma grande fonte de inspiração."

“Alluvion” é o lançamento que marca estreia deste “supergrupo" nacional que dá pelo nome de Faemine. Ainda na ressaca do lançamento e apresentação do disco, a HellHeaven esteve à conversa com a banda. Entrevista: João Gama

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HellHeaven: Olá, e parabéns pelo vosso disco de estreia “Alluvion”! Como se sentem com o resultado final e quais as vossas expectativas?
Oz: Antes de mais, queremos agradecer a oportunidade de podermos falar um pouco sobre nós e o nosso trabalho. Estamos realmente muito satisfeitos com o resultado final do “Alluvion”. Foi um processo longo, mas essencial para amadurecermos os temas e garantir uma maior coesão no disco. As nossas expectativas são bastante positivas — o feedback tem sido muito bom e, de certa forma, até tem superado aquilo que inicialmente esperávamos. O nosso foco agora é continuar a promoção do disco e levá-lo para a estrada e partilhar o nosso trabalho com o maior número de pessoas possível.

Ivo: Foram muitas horas a “cozinhar” e afinar detalhes, também soubemos rodear-nos com as pessoas certas que nos guiaram e contribuíram para o trabalho que hoje podem ouvir. As nossas expectativas são principalmente levar este trabalho para os palcos, chegar a novos públicos e atingir novos patamares.

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HellHeaven: “Alluvion” foi apresentado ao vivo no passado dia 19 de Abril, no RCA em Lisboa. Como foram o disco e banda recebidos?
David: Felizmente para nós, a receção ao nosso trabalho tem superado as expectativas, enchendo-nos de orgulho e motivação. Após o concerto de estreia, ficou ainda mais claro que conseguimos mostrar ao público o nosso verdadeiro potencial e que, de facto, temos a capacidade de alcançar um nível de excelência. Este reconhecimento, no entanto, traz também uma responsabilidade acrescida: é imprescindível que continuemos a trabalhar de forma consistente, com dedicação e espírito de superação, para consolidar o que já alcançámos e elevar ainda mais a qualidade do que oferecemos. O caminho é exigente, mas a recompensa de ver o nosso esforço refletido no entusiasmo de quem nos acompanha faz tudo valer a pena.
Ivo: Não podíamos ter pedido uma estreia melhor. Correu tudo lindamente — tivemos uma excelente adesão e o feedback foi extremamente positivo, sobretudo considerando que muitas pessoas ainda nem tinham ouvido o EP. É incrível ver alguém que veio “à descoberta” dizer que adorou o concerto. Houve momentos marcantes, como termos pessoas à nossa espera no final para conversar, pedir autógrafos, partilhar o que sentiram com a nossa música... foi mesmo especial. Uma noite que vou guardar para sempre.
 

HellHeaven: “Alluvion” é um disco interessante, é moderno, é melódico, e não amolece tendo um nível preciso de peso e guturais. Tentado categorizar um pouco, diria ser uma espécie de mistura entre metalcore melódico e progressivo. Não querendo forçar rótulos, estes ainda são de certo modo necessários para atrair ouvintes, especialmente no início de uma nova banda. Nesse sentido, que rótulos vos parecem mais adequados?
Oz: Cada um de nós traz consigo um background musical diferente, e é precisamente essa diversidade que nos permite criar uma fusão única, fora do convencional. As influências individuais acabam por se refletir de forma natural na nossa música, contribuindo para um som mais distinto e com identidade própria. Já nos descreveram como uma espécie de metalcore melódico — e provavelmente será essa a gaveta onde melhor nos encaixamos — mas, para ser sincero, não estamos muito preocupados com rótulos. Diríamos que estamos, sim, sob o grande chapéu do metal moderno, mas sem nos limitarmos a um único estilo. A nossa sonoridade inclui nuances de diferentes quadrantes musicais, o que nos permite explorar novas direções e fugir às limitações de uma abordagem mais rígida ou tradicional.

HellHeaven: Quais diriam ser as vossas fontes de inspiração (musicais ou não)?
Oz: As minhas fontes de inspiração são bastante variadas. Ouço de tudo, desde a Gisela João até Slayer, passando por muitas outras sonoridades diferentes. Também sou fascinado por bandas sonoras de filmes, que têm uma capacidade única de evocar emoções e criar atmosferas. Acredito que os detalhes mais subtis, como uma melodia, uma mudança de harmonia ou um som inusitado, podem ter um grande impacto, por isso estou sempre atento a esses pequenos elementos. Além da música, a vida em si é uma grande fonte de inspiração. Todas as experiências, desafios e momentos pelos quais passei — ou que estou a atravessar — acabam por se refletir nas minhas composições. Para mim, a música não é apenas uma forma de expressão artística; é também uma terapia, um escape onde posso liberar todas as emoções e pensamentos que transbordam de dentro. Cada música que faço é uma forma de transformar a vivência pessoal em algo que possa ser partilhado e compreendido por quem a ouve.
Ivo: Quando era miúdo, devorava CDs de bandas sonoras de cinema — lembro-me especialmente de uma coleção que saiu com o Jornal de Notícias ou Diário de Notícias, algures no final dos anos 90. Isso acabou por me abrir portas para outras sonoridades, como Led Zeppelin, Dire Straits, guitarristas de blues como Gary Moore, e até nomes mais complexos como Pat Metheny. Mais tarde, através da coleção do meu irmão, mergulhei em registos mais pesados como Metallica, Sepultura e Iron Maiden. No fundo, sou um verdadeiro caldeirão de gostos e influências. Costumo dizer que boa música não tem género.

HellHeaven: Com este disco, estavam simplesmente focados em fazer o que gostam, ou procuraram também preencher um “nicho de mercado” se calhar pouco explorado no nosso país?
Oz: Nunca foi, nem nunca será, nossa intenção fazer música a pensar em preencher um nicho pouco explorado em Portugal. Fazemos música, acima de tudo, para nós próprios — porque é isso que nos move — e só depois a partilhamos com os outros. Desde o início, a ideia sempre foi criar algo com várias camadas, que equilibrasse peso e melodia de forma natural. Se esse som acaba por ser menos comum por cá, talvez se deva ao facto de existir uma comunidade muito forte ligada a sonoridades mais extremas, o que respeitamos e até ouvimos. Mas o que quisemos fazer com o “Alluvion” foi exatamente aquilo que se ouve: uma expressão honesta daquilo que somos e do que sentimos como músicos. O nosso foco está na autenticidade — queremos que quem ouve perceba isso.

HellHeaven: Falávamos de este som ser moderno. Algo que noto na audiência do metal é que existe uma união ou irmandade, mas parece também que existe uma certa divisão entre aqueles que tentam procurar o que de novo se vai fazendo e as sonoridades inovadoras, enquanto outros se fecharam no que era feito há várias décadas e dizem que o rock está morto. Como se costuma dizer, não se pode agradar a gregos e troianos, mas como é que estas perspectivas vos afectam?
Oz: Não há ninguém capaz de agradar a toda a gente, e estamos perfeitamente conscientes disso. Ficamos naturalmente felizes se conseguirmos chegar a um público alargado, mas, honestamente, nem pensamos muito nisso. O nosso foco está em criar a música que sentimos e que nos diga algo, música que seja emocionalmente verdadeira, e que consiga estabelecer uma ligação com quem a ouve. Sabemos que há quem esteja sempre à procura de novas sonoridades e também quem prefira manter-se fiel ao que foi feito no passado. E tudo isso é válido — faz parte da riqueza do metal enquanto género. Mas para nós, a evolução é essencial. O que nos interessa é explorar, experimentar e continuar a crescer como músicos. Se isso significar fugir a certas fórmulas mais tradicionais, que seja. No fim do dia, o mais importante é que a nossa música carregue autenticidade, emoção e identidade. Se quem nos ouve sentir isso, já estamos a cumprir o nosso propósito.
Ivo: A Arte é, e sempre será, algo profundamente subjetivo. Não há como nem razão para lutar contra isso — cada pessoa interpreta à sua maneira. Há elementos que tocam mais umas pessoas do que outras, e está tudo certo com isso. No nosso caso, estamos tranquilos com essas diferentes perspetivas. Valorizamos muito o apoio que recebemos, mas também respeitamos as críticas. Faz parte do processo e do crescimento enquanto banda e enquanto artistas.

HellHeaven: Voltando a “Alluvion”, algo que também sobressai no disco é a qualidade da produção. Nota-se claramente que o som foi polido, mas sem ficar demasiado plástico ou estéril. E no resultado final, o EP tornou-se num daqueles discos em que se descobre um ou outro detalhe a cada nova audição. Pelo que percebo, foram vocês mesmos que o produziram. Como foi este processo? Quão difícil foi, e quais foram os principais desafios?
Oz: A produção e gravação de Alluvion foi, sem dúvida, um processo intenso e exigente, mas também profundamente recompensador. Desde o início, o nosso objetivo foi criar algo que nos representasse de forma honesta — explorando diversas influências, fundindo elementos distintos, mas sempre com o cuidado de manter uma identidade clara e coesa. Cada tema teve uma génese própria: alguns nasceram de riffs ou melodias, outros a partir de atmosferas ou ideias líricas. A sala de ensaio tornou-se o nosso laboratório criativo, onde tudo foi moldado com rigor e experimentação. Dedicámos muita atenção aos detalhes para garantir que cada faixa tivesse o impacto emocional e sonoro que procurávamos.  Para mim, assumir a mistura e masterização do disco foi, ao mesmo tempo, uma vantagem e um enorme desafio. Por um lado, deu-nos total liberdade criativa para moldar o som ao pormenor, alinhado com a nossa visão. Por outro, estar tão mergulhado no processo pode dificultar a objetividade — é fácil cair no perfeccionismo e perder a noção do “basta”. Encontrar o equilíbrio entre detalhe e instinto, entre técnica e emoção, foi talvez o maior desafio. No fim, sentimos que Alluvion soa exatamente como devia: intenso, autêntico, polido na medida certa, mas com alma.

Ivo: Quando entrei, os temas já tinham esqueleto e até alguma massa muscular, mas ainda fui a tempo de acompanhar e contribuir para o processo. Como referi antes, tivemos as pessoas certas ao nosso lado nesta fase — o Fernando Matias com as vozes, o Mário Rodrigues na captação da bateria que além de excelentes profissionais, são pessoas incríveis. Com o Oz a liderar a produção, houve um enorme espaço para explorar ideias. Foram muitas horas, muitos ajustes ao detalhe — às vezes uma simples subida ou descida de dBs — mas tudo com o objetivo de garantir que Alluvion fosse um registo coeso, equilibrado e verdadeiramente nosso.

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HellHeaven:  Quem ficou a cargo da arte? Há alguma associação especial com o título ou conceito do disco?
Oz: A arte da capa ficou a cargo de um artista que preferiu ser identificado apenas como PR, e respeitamos esse pedido. Quanto ao título, Alluvion remete ao fenómeno natural da aluvião — a força da água que transporta fragmentos, sedimentos e memórias, depositando novas camadas e moldando a paisagem. É um processo simultaneamente destrutivo e criativo, de transformação constante. E esse conceito reflete exatamente o que quisemos fazer com este disco: reunir tudo aquilo que nos moldou — emocional e musicalmente — e canalizar essa carga num som honesto, intenso e com identidade.A figura central da capa é o corvo, que entra aqui como símbolo essencial. Para nós, o corvo representa mais do que o misticismo ou o lado sombrio normalmente associado a ele — é também um arquétipo de inteligência, de transição e de observação. Move-se entre a morte e o renascimento, entre o que é arrastado e o que é deixado para trás. Tal como a aluvião, carrega consigo camadas de significado oculto: introspeção, lucidez no meio do caos e a capacidade de encontrar beleza nos escombros. Juntos, Alluvion e o corvo formam o núcleo estético e lírico deste disco — um ciclo onde peso e melodia coexistem, onde o ruído se encontra com o silêncio, e onde cada fragmento, por mais pequeno, contribui para reconstruir algo maior.

HellHeaven: Há alguma razão especial por detrás da decisão de lançar “Alluvion” como EP em vez de se ficarem num álbum completo?
Oz: Sim. A forma como as pessoas consomem música hoje é completamente diferente do que era há 10 anos. Vivemos na era do streaming, onde é fácil saltar de faixa em faixa, quase sem compromisso. Além disso, a própria dinâmica da vida moderna tornou mais difícil para muita gente parar e absorver um álbum completo de uma só vez. Sendo uma banda nova, sentimos que lançar um álbum com 8 ou 9 temas de uma assentada seria arriscado — não por falta de confiança nas músicas, mas porque sabíamos que nem todas teriam a visibilidade que merecem. Há sempre o risco de algumas faixas ficarem para trás, simplesmente porque não há tempo ou meios para promovê-las com a mesma força. Olhámos para o que bandas como Jinjer ou Spiritbox têm feito. Mesmo com uma base de fãs consolidada, optam por lançar EPs ou singles de forma estratégica, mantendo uma presença constante e ativa junto do público. Isso faz com que cada lançamento tenha o seu momento de destaque, e que a banda esteja sempre no radar.

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HellHeaven: A música “Salvation” teve direito a vídeo. Porque escolheram esta música em concreto a título de apresentação visual?
Ivo:  Penso que a “Salvation” é uma boa apresentação para quem não nos conhece, tem praticamente todos os elementos que fazem parte do registo geral do “Alluvion”, muito “in your face” se é que podemos dizer e reflexo disso é o número de visualizações que tem neste momento.
Oz: E foi uma escolha bastante natural. Foi a primeira música que compusemos para o projeto e, de certa forma, tornou-se o ponto de partida para aquilo que viria a ser o som da banda. É um tema que concentra várias das nuances que definem a nossa identidade: tem peso, tem groove, tem variações de intensidade, refrão melódico, berros viscerais, orquestrações densas e elementos de música eletrónica. É uma música com dinâmica, que cruza bem as várias camadas sonoras que exploramos no EP — por isso sentimos que funcionava perfeitamente como cartão de visita. Queríamos que quem nos conhecesse pela primeira vez através do vídeo tivesse uma ideia clara daquilo que FAEMINE representa.

HellHeaven: E agora que o disco já saiu, há planos para se fazerem à estrada?
Oz: Sim, sem dúvida. Com Alluvion cá fora, o próximo passo é levá-lo para os palcos. Queremos apresentar estas músicas ao vivo, onde tudo ganha uma nova dimensão — mais crua, mais intensa, mais próxima. O nosso foco é proporcionar uma experiência que vá além da música, onde cada nuance, cada palavra e cada silêncio tenham um peso real e criem uma ligação autêntica com quem está a assistir. A médio prazo, ambicionamos também levar a nossa música além-fronteiras, partilhar palcos com outras bandas e chegar a novos públicos. Cada concerto é uma oportunidade de crescer, de aprender e de deixar uma marca — tanto em nós como em quem nos ouve. Preparámos um espetáculo coeso, imersivo e emocional, não só em termos sonoros mas também visuais. Queremos que quem nos vê ao vivo leve algo consigo — uma memória, uma sensação, um momento que fique.

HellHeaven: Por último, em relação a entrevistas, há alguma questão a que gostassem de responder, mas que nunca vos foi feita? Se sim, qual (e qual a resposta)?
Ivo: - Talvez “Têm algum amuleto de boa sorte para os concertos?” E a resposta é: Sim, chama-se Jurema, a nossa galinha de borracha. (risos)
Oz: Sim. A pergunta é: Quem é o mais teimoso da banda? A resposta é: Eu, mais que todos os outros juntos! (risos)

HellHeaven: Muito obrigado! Gostariam de deixar uma mensagem para os fãs/leitores?
Ivo: Antes de mais agradece à HellHeaven por esta oportunidade. A quem nos está a ler espero que tenham gostado do nosso “Alluvion” e que o mesmo se mantenha em rotação nos vossos ouvidos e corações durante muito tempo, estejam atentos às nossas redes sociais pois vamos ter mais datas anunciadas que certamente não vão querer perder! 
Oz:Gostava de deixar uma mensagem de agradecimento a todos os que nos têm apoiado até agora — a vossa energia, o vosso entusiasmo e a vossa dedicação são o que nos mantém motivados a continuar. Para quem ainda não nos conhece, convidamos-vos a explorar Alluvion e a descobrir o que FAEMINE representa. Cada canção, cada acorde, cada palavra tem um pedaço de nós, e queremos que vocês sintam isso também. Continuem connosco nesta jornada, porque o melhor ainda está por vir. Estamos juntos nisso — e esperamos ver-vos em breve nos palcos.

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