Frozen Ocean é o projecto a solo de Vaarwel, com cerca de duas décadas de carreira e vários discos editados. Em 2026 lança «Askdrömmar», um álbum com atmosfera de banda sonora urbana e sombria. A HellHeaven conversou com o músico russo sobre o projecto, a sua evolução e o novo trabalho. Entrevista: João Gama

HellHeaven: Olá, e parabéns pelo novo álbum «Askdrömmar». Como te sentes em relação a ele? Já tens algum feedback?
Vaarwel: Olá. Muito obrigado, foi um longo caminho até chegar aqui e fico feliz com o final que teve. Todos os esforços valeram a pena e o trabalho não foi em vão. Recebi alguns comentários, as pessoas parecem estar a gostar e a imprensa tem sido benevolente.
HellHeaven: Atuas como Frozen Ocean desde 2005. Como vê estes cerca de vinte anos em retrospectiva? Quais foram os altos e baixos?
Vaarwel: Seria errado dizer que a biografia do projeto é geralmente diferente de qualquer outra semelhante. Comecei, trabalhei, trabalhei, trabalhei, parei, trabalhei, parei e agora estamos aqui. Tive um grande aumento de inspiração e motivação no início de 2010, fazendo álbuns uns atrás dos outros, o que foi certamente um alto; e vi-me de alguma forma exausto depois de lançar «The Prowess Of Dormition» em 2016, pelo que a próxima pausa até 2026 foi uma queda. Mas agora estou de volta e ainda tenho muito a declarar, quer haja ou não alguém para ouvir.
HellHeaven: Frozen Ocean possui uma vasta discografia, tanto álbuns de estúdio como EPs, lançando diversas vezes vários álbuns no mesmo ano, como dizias. No entanto, já passaram cerca de 10 anos desde o último álbum. Podes falar mais dessa pausa?
Vaarwel: Houveram várias razões diferentes. Um simples esgotamento – romance, ideias acutilantes esgotadas, terminar álbuns que já tinham sido iniciados há muito tempo deixou-me doente, e também surgiram muitas novas oportunidades, como atuações ao vivo noutras bandas minhas, especialmente onde posso simplesmente tocar guitarra sem pensar em mais nada. Foram lançados alguns trabalhos inéditos ou ocasionais, mas não se poderia chamar a esta uma atividade decente até março de 2025, quando comecei a gravar “Askdrömmar”.

HellHeaven: Este é um projeto só teu. Na tua opinião, quais são as vantagens (e desvantagens) de trabalhar sozinho? Já pensaste em expandir o projeto a banda (talvez apenas para tocar ao vivo)?
Vaarwel: Foi um projeto a solo desde o início, uma vez que é muito difícil para mim criar arte com outra pessoa. Existem vários projetos de colaboração como Goatpsalm, Heather Grave ou Léan, onde o nosso processo de criação obedece a algumas regras naturalmente estabelecidas de trabalho mútuo, mas a one-man band continua a ser o formato mais preferível. Para mim foi mais simples aprender alguns instrumentos novos (como o baixo ou os instrumentos étnicos) sozinho em vez de ter outro músico na banda. Não gosto de atuações ao vivo e duvido seriamente que Frozen Ocean faça uma. Talvez no caso de algum aniversário como 30 ou 35 anos, se ainda estiver vivo nessa altura; mas mesmo assim reunia uma formação de sessão sem qualquer influência na composição e nos trabalhos de estúdio.
HellHeaven: Qual é o estado atual do metal/música extrema na Rússia? Como é que o teu trabalho é recebido quer lá, quer internacionalmente?
Vaarwel: Diria que o estado do metal e da música extrema na Rússia é excepcionalmente bom. Tendo em conta todos os géneros, desde o brutal death metal e black metal ao heavy metal e doom, é possível encontrar uma série de bandas e projetos decentes que satisfazem completamente os padrões mundiais e alguns até os superam (como os Arkona). Falando do meu trabalho, não reuni quase nenhum público na Rússia durante estes 20 anos, por isso a maior parte das poucas pessoas familiarizadas com o legado de Frozen Ocean vive no estrangeiro.
HellHeaven: O novo álbum é descrito como uma viagem por uma paisagem urbana. Ao ouvi-lo tive realmente a sensação de que este é um verdadeiro álbum conceptual, no sentido em que há um fio condutor e todas as peças se encaixam. O que podes contar sobre o teu processo criativo? Como escolheste todos os diferentes elementos e os combinaste? Tinhas um plano de antemão ou foi mais uma questão experimental de tentativa e erro?
Vaarwel: Um pouco de tudo. Havia um fio condutor de conceito, e eu segui-o durante a composição e a gravação. O trabalho foi feito faixa a faixa, ou seja, tinha uma ideia e baseei uma faixa nela, terminei, depois fiz outra, etc. Claro que não foi totalmente impecável: tive várias faixas que não foram incluídas na edição final do álbum, porque se desviavam do conceito geral, do género e das restantes faixas no seu todo.
HellHeaven: Esta obra inspira-se na escrita de John Ajvide Lindqvist e as letras são em sueco. Podes falar mais sobre essa inspiração? E já a agora revelar a origem dos discursos suecos usados como samples em algumas das canções?
Vaarwel: A inspiração geral veio de monumentos do rock depressivo sueco, bandas como Lifelover e Apati, Ofdrykkja (um pouco menos) e Katatonia (ainda menos), e pode-se considerar este álbum como uma homenagem a estas bandas, apesar de, claro, haver mais. Tentei refletir o seu legado através do prisma do meu próprio método artístico, alargando-o, por exemplo, através do uso mais amplo de elementos de música eletrónica, do que costumo fazer. A imagem da cidade como uma armadilha ontológica, um poço gravitacional que nos captura sem nunca nos largar, prospera a partir dessa estética. Os romances de Lindqvist reflectem muito bem este sentimento. Depende do romance, claro, e o mais brilhante foi “O Movimento. O Segundo Lugar” da trilogia “Platserna”: refleti logo ali a imagem do túnel de Brunkeberg como um epítome da inquietação e do desconforto urbano. Em relação às samples, na primeira e na quarta faixas, têm respectivamente origem em cenas de Ingmar Bergman “Vargtimmen” (filme) e “Spöksonaten” (TV, ato teatral). Já a faixa sete foi buscar um fragmento à série de TV “Broen”.
HellHeaven: Há algo na forma como o álbum flui e as músicas se ligam que faz lembrar Ulver. Foste em algum momentos influenciado por eles? Quais foram as inspirações para este álbum?
Vaarwel: Ulver teve uma das influências mais importantes na música dos Frozen Ocean, de modo geral, não em nenhum álbum em particular. A sua música de qualquer período é impecável, desde os primeiros álbuns de black metal até folk e trabalhos eletrónicos posteriores, mas isso não é o principal. O principal é a sua coragem imprudente de liberdade artística que lhes permitiu fazer álbuns de géneros completamente diferentes, sendo a personificação literal do princípio criativo “nós fazemos o que queremos” e não dando a mínima para como essa reviravolta seria aceite pelo público. Inspirou-me tanto que, como podes ver, Frozen Ocean segue o mesmo princípio, faço apenas a música que quero fazer, sem me agarrar a nenhuma etiqueta, mesmo que isso afaste o público do projeto.

HellHeaven: Estas músicas poderiam realmente funcionar como banda sonora, porque (e talvez apesar dos vocais de black metal) criam um ambiente ou atmosfera que poderia acompanhar um filme. Era esse o plano? E, já pensaste em trabalhar com bandas sonoras?
Vaarwel: Passa algum tempo a ver o videoclipe de “Börtkastade Dödsrunor”, pois é uma curta-metragem completa. Alguns álbuns anteriores de Frozen Ocean poderiam dar uma boa banda sonora, por exemplo. “The Moon Of Subterranea” é basicamente isso. Cheguei a contribuir para algumas bandas sonoras de várias iniciativas independentes: para um filme de animação baseado num conto de fadas pós-soviético, parte de uma série; o tema principal de um filme independente chamado “Why Does New Federative Alliance Need the Old Military Bot?” (está no IMDB); e mais alguns. Mas, claro, um dos meus sonhos é um dia fazer uma banda sonora completa para um filme.
HellHeaven: Por último, gostarias de deixar uma mensagem aos teus fãs/nossos leitores em Portugal?
Vaarwel: Tanto quanto me lembro, a língua e a cultura portuguesas no seu todo têm uma noção especial chamada “saudade”, que dificilmente é traduzível para outras línguas e muito difícil de descrever para pessoas de outras culturas. De alguma forma sinto intuitivamente (não completamente, mas enfim) o significado da saudade, e isso permite-me expressar um grande respeito pelas pessoas que formularam esta bela noção e com ela convivem. O povo de Portugal é soberbo. Cuidem-se!
No seguimento da conversa com Vaarwel, convidámos o músico para nos descrever os temas de «Askdrömmar» em Discurso Directo:

“Mångata”: serve como introdução – esta palavra sueca significa “rua da lua”, um reflexo da lua na superfície do mar aberto à noite. Pode-se ver isto como uma rua onde ninguém mora, o que é uma imagem inicial incrível para um álbum de estética urbana sombria.
“Bortkastade dödsrunor”: Significa “Obituários descartáveis” e é um hino lento e triste de como o meio urbano consome o valor da vida e o nosso ethos pessoal com a sua frieza e indiferença.
“Andas in neonregn”: dá uma ideia mais direta com algumas associações cyberpunk, falando de sujidade comum escondida num embrulho brilhante.
“Gristimmar”: Literalmente “Horas dos Porcos”. É um hino venenoso e alucinante de simbolismo simples: cada hora que alguém não dorme é hora do porco.
“Jag sover”: Significa “Eu durmo” e inverte o conceito popular da privação de sono, apresentando os sonhos como o único lugar onde se pode encontrar abrigo e salvação dos horrores mundanos
“I lyktornas sken”: descreve a vida noturna da cidade como um ecossistema baseado na iluminação, onde apenas são habitados locais de luz, tendo em redor uma terra incógnita de escuridão.
“Köttkvarn”: Significa “Moedor de carne” e é possivelmente a música mais inquietante do disco. Fala sobre a máquina social da vida quotidiana e do trabalho, relações e condições ambientais que lentamente cortam e processam as nossas vidas em algo em que a própria sociedade prospera.
“Långt lopp genom mörkret”: Significa “Longa corrida pela escuridão” e retrata uma contínua sensação de fuga desesperada.
“Brunkebergstunneln”: serve como um ponto de transição: do fim para o início novamente, uma entidade que conecta as coisas, até mesmo uma espécie de psicopompo – e, claro, o Lugar.