Formados em 2010, os britânicos Fury trazem honestidade e frescura ao cenário do Heavy/Hard Rock. A HellHeaven trocou umas palavras com a baixista Becky Baldwin (ela que acumula as mesmas funções nos Mercyful Fate) acerca do seu mais recente «Interceptor» que promete ser um dos discos do ano. Entrevista: Nuno C. Lopes

HellHeaven: Obrigado pelo vosso tempo e parabéns pelo novo «Interceptor»! Quais são os vossos pensamentos e expectativas em relação a este disco?
Becky: Obrigado! Esperamos que este disco seja apelativo a longo prazo e que os fãs de longa data entendam que as mudanças são naturais para a banda e que há uma necessidade de seguir em frente. Não há sentido em reescrever o mesmo tipo de música em todos os álbuns, sem fazer progressos de um ano para o outro. Portanto, o som mudou bastante e esperamos que isso e a colaboração com a nova editora, a Mighty Music, ajudem a chegar a novos fãs, especialmente na Europa continental.
HellHeaven: Para quem não vos conhece, quem são os Fury? Como começaram e, como descrevem a vossa música?
Becky: O Julian Jenkins, o nosso principal compositor, toca sob o nome "Fury" provavelmente desde 2007, quando ainda estava na faculdade. As formações mudaram significativamente desde então. Os estilos musicais têm visto muitas variações, desde o power e thrash metal ao rock, incluindo também power ballads. Mas sentimos que há uma linha de rock ‘n’ roll old school presente em todos os álbuns. Penso que nos anos 70 e 80, havia uma grande exploração de uma variedade de géneros, que me parece saudável para uma banda. Não somos uma banda extrema, por isso não temos motivos para destilar o nosso som num único subgénero, preferimos explorar todos estes diferentes tipos de música que nos inspiram.
HellHeaven: Ao longo dos anos, tiveram a oportunidade de tocar em alguns dos maiores palcos da cena metal, bem como o reconhecimento dos media e dos fãs. Como encaram a carreira actual e, perante as reações, sentem alguma pressão ao lançar música nova?
Becky: Acho que grande parte da pressão vem de nós próprios. A resposta dos media ao novo álbum, até agora, tem sido óptima. Sabemos que há muitos fãs agradados com os nossos álbuns anteriores, apesar disso não se traduzir numa grande resposta por parte da imprensa. Por isso, acho que, ainda nos vemos no underground. Talvez quando sentirmos alguma pressão mediática, saibamos que “conseguimos!”.

HellHeaven: Ao longo dos anos, especialmente após o Brexit, temos visto muitas bandas do Reino Unido a interromperem as suas carreiras, principalmente por questões financeiras. Quão difícil é para uma banda do Reino Unido sobreviver e quais são os desafios quando se trata de fazer digressões?
Becky: Há muitos outros desafios enfrentados pelas bandas do Reino Unido desde o Brexit. Infelizmente, os Fury não tiveram muitas oportunidades de fazer uma digressão pela Europa antes disso, e esforçamo-nos para que isto funcione desde 2022. Algumas das limitações foram ajustadas a bandas pequenas, o que é óptimo para nós, pois agora podemos mais facilmente trazer o nosso próprio equipamento para a UE sem precisar de muita papelada (para a qual nenhum rocker tem paciência). Porém, estamos limitados à quantidade de mercadorias que podemos importar (não se choquem ao ver uma mesa de merch limitada!), tal como ao número de dias que nós, como indivíduos, podemos passar na UE. Já fizemos as pazes com estes elementos, mas cada vez que atravessamos a UE ainda sentimos que algo vai correr mal, como se tivesse sido colocada uma nova barreira que desconhecíamos!
HellHeaven: «Interceptor» é o vosso mais recente álbum e os primeiros singles foram muito bem recebidos. Posto isto, quais são as vossas expectativas em relação ao álbum?
Becky: As pessoas têm gostado dos singles, o que é um alívio, pois é difícil saber ao certo quais serão as melhores músicas para lançar primeiro. Agora que o álbum completo foi lançado, tenho algumas dúvidas sobre outras músicas que poderiam ter sido singles – especialmente “DTR”, que se tornou uma das minhas favoritas!
HellHeaven: O último single tem um “toque gospel”, e tem uma mensagem forte que pode ser ouvida como um wake up call. Qual é a história de "Don't Lie to Me"?
Becky: É sobre a frustração da crescente desigualdade da riqueza. Particularmente no Reino Unido, apesar de ser um problema global. Está a tornar-se cada vez mais comum que as pessoas que trabalham a tempo inteiro dependam de bancos alimentares. Muitas pessoas da nossa geração nunca conseguirão comprar uma casa com os preços das rendas a disparar, e os investidores ricos colhem todos os benefícios das horas de trabalho reais. Os banqueiros provocam crises financeiras e são socorridos pelo governo, enquanto as pessoas que realmente fazem a sociedade funcionar têm de apertar o cinto e lutar por migalhas. Na letra, a parte "14 million and more each week" ["14 milhões ou mais por semana"] refere-se ao número de pessoas que vivem na pobreza no Reino Unido, que, segundo todos os critérios, é um “país rico”. O resultado é uma nação de pessoas frustradas, e tudo o que os media tentam fazer é atribuir a culpa a outra pessoa. Lutamos entre nós, criando “guerras culturais”, que nos distraem dos poderes que desviaram dinheiro dos nossos bolsos e dos serviços públicos, para as corporações que tudo farão para manter e expandir o seu poder.
HellHeaven: No entanto, não é só esta música que tem um significado tão forte. Qual é o conceito principal do disco? E, onde estão quando se trata de compor, mentalmente falando?
Becky: O álbum não tem um tema tão abrangente como alguns dos nossos anteriores. Mas há muitas músicas que são mais introspectivas e autorreferenciais... Como "Walk Away" e "Look At Us Now". Falam sobre as dúvidas, os medos e o amor que um artista tem pela sua arte. A música é uma indústria difícil, por vezes os contratempos são demasiados para suportar. Mas quando lanças algo novo e percebes que se estabelece conexão com as pessoas, lembras-te de que tudo vale a pena.
HellHeaven: Uma coisa que o Fury tem vindo a melhorar é o desafio entre as duas vozes. São duelos, não duetos. Qual é o desafio de combinar isto?
Becky: Com a abordagem de vozes duplas, Julian e Nyah quiseram dar razão a cada voz. O objetivo não era terminar uma música e simplesmente dividi-la a cada verso ou linha; encontraram formas de usar as duas vozes para fortalecer as palavras cantadas ou para dar um melhor contexto. Particularmente em "Can't Resist", a história não poderia ser contada de outra forma.

HellHeaven: Enquanto ouvia o disco, pensei como mantiveram aquela “resistência” que o rock sempre trouxe e perguntei-me se este tipo de sentimento está a desaparecer nas bandas mais novas. Como vês a cena rock hoje em dia? Achas que tem a “responsabilidade” de manter a humanidade desperta e pronta a “disparar” contra o que está mal?
Becky: Obrigado! Sim, achamos que a música e a arte em geral têm sempre de responder ao que as rodeia. São produtos do seu tempo. Embora a maior parte da nossa música tenha um feeling de estilos que eram mais populares há décadas, algumas das dificuldades são as mesmas. Por vezes sinto-me um cansada de bandas que a maioria dos meios de comunicação prefere divulgar, que são mais visuais do que substanciais, ou adoptam um artifício ou fazem ou dizem algo controverso apenas para obter mais “cliques”. Podem ser divertidas para um festival, mas as bandas fabricadas refletem o triste estado da indústria. Já nos disseram inúmeras vezes para reformularmos a marca e começarmos de novo, fingindo ser algo que não somos... Mas acho que isso é um insulto para os fãs que apoiam o nosso progresso há décadas.
HellHeaven: Qual será o vosso próximo passo? E que mensagem deixam aos fãs portugueses?
Becky: Esperamos que este novo álbum abra algumas portas e que possamos aparecer em mais festivais europeus e fazer digressões mais caras nos próximos anos. Adoraríamos ir a Portugal!