Os nacionais Glasya lançaram a 24 de Outubro o novo «Fear» através da Scarlet Records, que é o sucessor do aclamado «Attarghan». A HellHeaven discutiu o novo álbum com Davon Van Dave (teclados, orquestrações), abordando a sua criação e impacto, especialmente depois do grande sucesso do disco anterior. Entrevista: João Gama

HellHeaven: Olá, e parabéns pelo vosso novo álbum «Fear»! Como se sentem com o resultado final e quais as vossas expectativas? Já receberam algum feedback?
Davon: Olá! Muito obrigado pelo convite! Estamos bastante satisfeitos, é o álbum que tínhamos idealizado, mais direto mas não menos épico, onde pudéssemos contar uma nova história sem repetir o que tínhamos feito em «Attarghan». As críticas estão a ser excelentes, as reviews que têm aparecido vão do excelente ao quase perfeito!
HellHeaven: Este é o místico terceiro disco, dito crucial para marcar a identidade de uma banda. Houve alguma pressão maior em torno dele (especialmente depois do sucesso que foi «Attarghan»)?
Davon: Pressão há sempre, mas interna, pois queremos sempre fazer o melhor possível, e isso só se consegue com dedicação e muito foco no trabalho a fazer. O sucesso do «Attarghan» não nos assustou para fazermos este «Fear», apenas quisemos que a qualidade se mantivesse mas explorando algo diferente.
HellHeaven: Neste disco, a voz da Eduarda Soeiro parece mais controlada e empoderada (dada a menores extensões operáticas) e o som em geral parece também ter refrões mais orelhudos e um power mais directo. Dirias que seguiram aqui o ditado “menos é mais”?
Davon: Pode dizer-se que sim. Nós precisávamos de explorar algo mais moderno, mais directo, mas sem perder a grandiosidade do que fizemos nos álbuns anteriores. Não gostamos de repetir fórmulas, por mais arriscado que isso seja. Esta nova abordagem vocal foi um desafio para a Eduarda, mas superou-a de uma forma incrível.
HellHeaven: Especialmente em comparação com o anterior, este disco parece-me ser menos conceptual. Ainda assim parece haver um um fio condutor em «Fear» devido às narrações. Como conceptualizam então o novo álbum?
Davon: Este álbum não deixa de ser conceptual, apenas não é tão épico e tão cinematográfico. Como é uma luta interior introspectiva de superação dos medos, quisemos que fosse mais direto e pessoal. Basicamente estamos dentro da cabeça da Sarah e ouvimos os seus pensamentos e o mundo exterior pelos seus ouvidos e assim, o ouvinte quase encarna a personagem.

HellHeaven: E sobre o nome «Fear», qual a motivação deste título? Enfrentaram algum medo em particular com este lançamento?
Davon: Medo é um sentimento universal, é algo que todos experienciamos na vida, e muitos de nós em diversas fases da vida… E se há algo que aprendemos nessas fases, é que a melhor forma de superar um medo é enfrentá-lo…. Preferimos na maioria das vezes fugir aos medos, é uma opção lógica, mas aqui em Fear criámos uma situação em que se é obrigado a enfrentá-los…. E nós, se o tivessemos de fazer, conseguiríamos? Este álbum foi desafiante, mas medo, não o tivemos de todo.
HellHeaven: Surpreendeu-me a última faixa “No Teu Abrigo” pelo facto de ser (se não estou em erro) a vossa primeira canção em Português . Qual foi a motivação por trás da mesma? E podemos esperar mais?
Davon: É de facto a nossa primeira música original em português, já tínhamos feito a versão da «Canção do Mar», mas foi noutro contexto. Era uma lacuna que tínhamos vontade de concretizar, a língua portuguesa é deveras poética e gratificante de cantar e recitar. Não será certamente a última música em português.
HellHeaven: A vosso ver, cantar em Português hoje em dia ainda trará consequências em termos de alcance e mercado (nacional ou internacionalmente)?
Davon: Não diria consequências, mas tem tido o seu impacto, diversas revistas e críticos têm elogiado imensamente a “No Teu Abrigo”, quase que não há crítica que não a mencione, o quer dizer que tem impressionado quem a ouve.
HellHeaven: Como já bem nos habituaram, tiveram imensos convidados (Fernando Ribeiro, Michele Guaitoli, Sara Leitão, Filipe de Moura, Catarina Póvoa) a deixar importantes contributos que enaltecem este álbum. Podes dizer-nos um pouco mais acerca de cada uma destas escolhas e o seu papel no resultado final?
Davon: Termos convidados nos nossos álbuns já passou a fazer parte da identidade da banda. Acreditamos que temos sempre a aprender e de enriquecer aquilo que fazemos com a energia de outras pessoas que respeitamos e idolatramos. Temos também a sorte de temos a Eduarda que tem esta versatilidade de criar duetos com diversos tipos de vozes e vocalistas, sabemos sempre de antemão que os duetos irão funcionar super bem. O Fernando Ribeiro é alguém com quem já tínhamos vontade de trabalhar há algum tempo e o destino levou-nos até ele através da Eduarda e tivemos a imensa sorte de ele gostar do nosso trabalho e ver potencial em nós e querer participar e ajudar. Tem isso ouro! O Michele foi alguém também com quem já tínhamos pensado vir a trabalhar, dado que temos proximidade com ele e com os Visions of Atlantis. Quando compusemos a «Glimpse of Memory» pensamos imediatamente nele e a contribuição dele foi deveras fantástica. Quanto à Sara Leitão, surgiu a ideia de a convidar após o Festival Um Metaleiro Também Chora onde partilhamos palco com os Dark Oath. Já estávamos a pensar numa voz feminina agressiva para a «Rising Wildfire» e após a prestação da Sara sentimos que seria a pessoa ideal. O Filipe de Moura surgiu pela vontade de ter uma voz diferente no álbum e sendo amigo da Eduarda, foi fácil chegar a ele e o resultado ficou extraordinário. A Catarina Póvoa já é amiga de longa data e quando pensamos em violinos, pensamos logo nela.
HellHeaven: Tanto a faixa-título (com o Fernando) como “Glimpse Of Memory” (com Michele Guaitoli dos Visions Of Atlantis) foram escolhidos como singles de avanço. Podes falar-nos acerca destas escolhas?
Davon: Foram escolhas lógicas para nós, uma mais imponente e uma mais calma, mostrando as diversas facetas do álbum. Além disso, têm o peso adicional dos convidados. A “Fear” abre o álbum e a parceria com o Fernando ficou tão incrível, que não poderia ser outro single de apresentação.
HellHeaven: E agora com o disco já nas lojas, quais são os planos para o apresentar ao vivo?
Davon: Vamos ter o concerto de apresentação do álbum dia 12 de Dezembro na primeira Alma Mater Nights juntamente com os Inhuman, um evento a que convidamos toda a gente a ir e onde poderão adquirir o vinil de «Fear». Temos várias situações em negociação que ainda não podemos adiantar, mas 2026 será certamente um ano bastante preenchido e de crescimento.
HellHeaven: Por último, em relação a entrevistas, há alguma questão a que gostasses de responder mas que nunca te foi feita? Se sim, qual (e qual a resposta)?
Davon: Felizmente temos tido entrevistas muito interessantes, tal como esta, que muitas vezes fazem questões pertinentes e surpreendentes. Por isso não creio existirem perguntas por fazer.
HellHeaven: Muito obrigado! Gostarias de deixar uma mensagem para os fãs/leitores?
Davon: Já que falamos de medos, nunca tenham medo de apoiar, de estarem presentes. Juntos somos uma voz que precisa de ser ouvida. Venham aos concertos, o metal português está vivo e bem vivo, só precisa que todos estejamos em comunhão. Obrigado pela excelente entrevista!