“Sick of the Scene” é o título da mais recente proposta dos Junkbreed, e foi esse o ponto de partida para a conversa com Miranda e Pica, guitarista e vocalista, respectivamente, de uma banda que não se conforma com o estado actual de muitas “cenas”. Entrevista: Nuno C. Lopes

HellHeaven: Começo por dar os parabéns pelo mais recente “Sick of the Scene”, qual a vossa opinião sobre o resultado final?
Miranda: Obrigado! Seria estranho dizer outra coisa que não estarmos extremamente satisfeitos. Apesar de alguns contratempos durante a gravação, com a ajuda do Mau acabou por ficar tudo como queríamos.
Pica: No meu caso, satisfeito e surpreendido ao mesmo tempo, sabia que tínhamos um bom disco nas mãos, mas o processo de gravação fez com que ele crescesse ainda mais.
HellHeaven: Os Junkbreed começaram durante os, conturbados, tempos da pandemia e este novo disco, ainda que urgente, afirma-se como um manifesto anticonformismo. Qual o fio condutor deste “Sick of the Scene”? E de que “cena” estão a falar neste disco?
Miranda: A “cena” aqui são várias “cenas”. O fio condutor é a crescente intromissão da IA na criação artística, mas pelo meio há também crítica social, parece que a sociedade está cada vez mais desliga de valores básicos e empenhada em destruir-se a si própria.
Pica: E preguiçosa a todos os níveis. O acesso fácil a tudo fez com que as pessoas se esquecessem de que temos cérebro e vontade própria.

HellHeaven: Olhando, de forma meramente social, parece existir um antes e depois da pandemia e, de certa forma, parece que o mundo está mais feio, mais egoísta e, ao mesmo tempo, mais cruel e onde pensar pela própria cabeça está mais difícil. Concordam? Como olham para estado das coisas na actualidade?
Miranda: Concordo com quase tudo. Pensar pela própria cabeça tornou-se perigoso porque vivemos rodeados de desinformação. Toda a gente acha que tem razão em assuntos para os quais não têm habilitações nenhumas para falar, muita gente hoje acredita que a sua opinião vale tanto quanto um facto científico.
Pica: Muito pouco critério quando se busca informação, e isso é perigoso, o sentido crítico das pessoas está desligado.
HellHeaven: Num mundo, cada vez mais, fragmentado e extremado a arte deveria ser um escape dessa realidade, contudo, também aí parece existir algum conformismo, como olham para o estado da arte em Portugal e de que forma a arte pode ajudar a unir e a despertar consciência?
Miranda: O conformismo é real. Achamos que fazer um post com uma hashtag bonita tipo #acabemafomenomundo é o suficiente. Durante décadas, a arte uniu pessoas em torno de causas importantes. Hoje, se houvesse um Live Aid, apareceria um mar de gente a criticar que achavam mal apoiar só a Etiópia quando existem mais países a passar fome.
Pica: Como é que a arte pode unir, quando nem os artistas são unidos? Menos "umbigos" e mais amizade daquela a sério e seria diferente.

HellHeaven: Por outro lado, há quem defenda que a arte, e a música em particular, se deve abster de ser um retrato ou de se retratar e, no limite, que os artistas se devem abster de ter uma opinião. Contudo, como diria o artista “a canção é uma arma”. Qual a vossa opinião?
Miranda: A arte é uma expressão pessoal. Se não tens nada a dizer, talvez seja melhor ficares calado. Mas se expressas algo verdadeiro e sentido, haverá sempre alguém que se identifique contigo.
HellHeaven: Este novo álbum, ainda que siga as coordenadas do antecessor, mostra novos “ingredientes” na sonoridade Junkbreed. Dirias que este disco é mais maduro e “crescido” que “Music For Cool Kids”? Como comparam os dois discos?
Miranda: Sim. É uma evolução natural. O primeiro disco foi composto 100% sem nunca nos vermos pessoalmente. O Music for Cool Kids era um escape ao caos da altura; este novo pega no que fizemos e expande em todas as direções. Penso que enquanto banda evoluímos bastante nestes últimos anos.
Pica: Este disco retrata uma banda segura, que já encontrou o seu caminho, mas que não teme arriscar coisas diferentes, desde que as saiba fazer.
HellHeaven: Entretanto a IA apareceu em grande na sociedade e nas artes, como é que vocês, enquanto múcis olham para este upgrade? Será que se corre o risco de desumanizar a música em prol de algo que retira a autenticidade à música em vez de a usar de forma consciente e util para chegar a um fim?
Miranda: Para mim, a IA não deve ter lugar na arte. A arte é pessoal, é sentimento, é erro, tudo o que a IA não tem. O problema é que quem ouve não quer saber se estiveste um mês a fazer uma música ou se a fizeste em um minuto numa app. Nós continuamos a acreditar que nada substitui cinco tipos numa garagem a descobrir uma música no meio de todo o barulho.
Pica: Acredito que seja cíclico, mas parece-me que ainda estamos a entrar na pior fase.

HellHeaven: Já tiveram oportunidade de apresentar os novos temas ao vivo, que feedback receberam do público com os novos temas?
Miranda: Até agora a recepção tem sido óptima, o facto dos novos temas serem um pouco mais “directos” facilita a quem está do outro lado a desfrutar mais dos nossos concertos.
HellHeaven: Como está a vossa agenda em termos de concertos e o que podemos esperar dos Junkbreed no futuro?
Miranda: Já estamos a planear 2026 e temos algumas datas marcadas. Gostávamos de chegar a todos os cantos do país, mas infelizmente isso está cada vez mais difícil de fazer de forma sustentável.
HellHeaven: Qual a mensagem que deixam para os vossos fans e nossos leitores?
Miranda: “Fãs” é uma palavra que nos causa alguma comichão! A mensagem é para quem gosta de música: continuem a apoiar as bandas. Sabemos que os tempos são difíceis, mas sem o vosso apoio teremos cada vez menos música verdadeira e nada bate uma noite com amigos, uns copos e um bom concerto e voltar para casa com os ouvidos a zumbir.