(Entrevista) MORS PRINCIPIUM EST - "fiz as orquestrações (...) numa PlayStation 1 usando um jogo chamado “Music” "

Passaram recentemente pelo Milagre Metaleiro! Os finlandeses Mors Principium Est não se mostram prontos a parar após duas décadas e meia. Outra prova disso é o novo álbum «Darkness Invisible», onde a banda se renovou com um toque mais moderno. A HellHeaven esteve à conversa com o guitarrista Jori Haukio para saber ainda mais acerca do percurso da banda. Entrevista: João Gama

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HellHeaven: Olá, e parabéns pelo vosso novo álbum, «Darkness Invisible». Quais são as vossas expectativas para este novo trabalho?
Jori: Olá, e obrigado! Ainda não temos muito feedback, mas estou muito curioso para ver reações. Este álbum marca uma nova era para a banda – foi feito com a nossa formação "nova/velha" e, musicalmente, distancia-se do estilo dos álbuns da época de Andy Gillion. Soa a MPE, mas com uma energia e uma abordagem criativa diferentes. Sinto que é o nosso trabalho mais ambicioso e dinâmico até agora. Estou entusiasmado e um pouco nervoso por finalmente o deixar ser ouvido.

HellHeaven: Já revelaram algumas faixas: "Monuments" e "Of Death". Queres explicar porque escolheram estas como singles? Podemos esperar mais até ao lançamento do disco?
Jori: "Of Death" é a faixa de abertura e dá realmente o mote com o seu ritmo acelerado e ambiente agressivo que preenche a maioria do disco. Tem também um refrão bastante orelhudo, o que a tornou uma escolha forte para primeiro single. "Monuments", por outro lado, é a música mais descontraída do álbum e marca um contraste de ritmo e dinâmica com o resto das faixas. Tem também um refrão melódico que tende a ficar na cabeça! Também já lançámos "Summoning the Dark", que é a mais rápida do álbum e das minhas favoritas. Preparamos um vídeo para a mesma, filmado nas florestas da Finlândia, com uma pequena narrativa de terror/fantasia que eu próprio criei. O último single, "All Life Is Evil", é uma besta completamente diferente, onde o ritmo é quase doom, com alguns riffs ao estilo de Morbid Angel e poderosos vocais clássicos de Anna Dinyes.

HellHeaven: Em 2022, lançaram «Liberate the Unborn Inhumanity», onde regravaram temas das vossas primeiras demos e álbuns, dando-lhes um toque mais moderno. E agora «Darkness Invisible» revela-se como um passo ainda mais moderno, sinfónico e ambicioso no vosso catálogo. Diriam que, criativamente, «Darkness Invisible» é uma consequência do exercício de modernização do lançamento anterior? Ou, pelo contrário, o álbum de 2022 já era um trabalho que preparava os fãs para o que estava por vir?
Jori: A modernização das músicas antigas de «Liberate the Unborn Inhumanity» foi, em grande parte, feita porque teria sido aborrecido para nós recriá-las exatamente como eram há 20 anos. Todos crescemos enquanto músicos desde então, por isso empregamos essa experiência, para pelo menos tornar o processo de gravação mais divertido e inspirador. Compreendo que não seja fácil a alguns ouvintes habituados às versões originais aceitar as alterações, mas as versões originais continuam disponíveis se as preferirem. Outro motivo para regravar foi dar aos novos ouvintes uma porta de entrada atualizada para o material antigo, uma vez que os padrões de produção mudaram bastante desde o início dos anos 2000. Quanto à ligação entre «Liberate...» e «Darkness Invisible»: sempre tive a visão de combinar orquestrações épicas com black e death metal, tudo envolto em melodias sombrias e melancólicas. Esta visão, na verdade, já lá estava desde o início, sendo "Valley of Sacrifice Part 1 and 2" (duas das primeiras canções dos MPE alguma vez escritas, incluídas em «Liberate») bons exemplos disso. Curiosidade: fiz as orquestrações para as mesmas numa PlayStation 1 usando um jogo chamado “Music”. Na altura, a nossa editora não gostava muito deste estilo e pediu-me para escrever música de melodeath mais simples e direta – e foi assim que surgiu “Inhumanity”. Mas agora, 25 anos depois, ainda me sinto atraído por esta visão original. Assim, “Darkness Invisible” continua o que poderia ter sido, se eu tivesse tido carta branca desde o início.


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HellHeaven: É comum começar um álbum com uma intro, mas dão aqui mais uso a "interlúdios" na forma de "Tenebrae Latebra" e "An Aria of the Damned". A mim, parecem que dividem e organizam o álbum em capítulos, onde cada novo conjunto de faixas se torna mais sombrio/pesado. Concordas com a interpretação? Era essa a vossa intenção original?
Jori: Sim, é uma observação muito precisa. Gosto muito destes "interlúdios", por várias razões. Em primeiro lugar, ajudam a construir o ambiente geral do álbum, sendo como pontes atmosféricas que guiam o ouvinte para um certo espaço emocional ou sonoro antes do próximo conjunto de músicas começar. Por exemplo, "Tenebrae Latebra" prepara o terreno para uma secção mais sombria e intensa do álbum. Em segundo lugar, acrescentam uma dinâmica importante ao fluxo do disco. Sem estes momentos de respiração, o álbum corre o risco de parecer demasiado implacável ou unidimensional. Os interlúdios criam contraste, fazendo com que as partes pesadas sejam ainda mais impactantes. Em terceiro lugar, com a produção moderna tão elevada e intensa, arrisca-se a fadiga auditiva se tudo for constantemente levado ao máximo. Estes interlúdios ajudam a suavizar esse efeito, permitindo ajustar os ouvidos antes de mergulhar novamente. E, por fim, gosto muito de compor este tipo de material. Especialmente "An Aria of the Damned" – embora possa soar suave à primeira vista, na verdade tem raízes no black metal. A progressão é baseada em acordes menores adjacentes, e a letra é invulgarmente sombria. É apenas arranjada de uma forma completamente diferente. Esta mistura de subtileza e obscuridade toca-me realmente como compositor.

HellHeaven: O álbum fecha com o cover "Makso Mitä Makso" de Isac Elliot. O que nos podes dizer acerca desta escolha e como se encaixa no álbum?
Jori: O Ville [vocalista] fez uma lista enorme de possíveis músicas para cover, e "Makso Mitä Makso", de Isac Elliot, foi provavelmente a mais louca de todas. No início, parecia quase impossível transformá-la numa música de death metal melódico – e foi exatamente por isso que a seleccionámos. O resultado final é um contraste louco entre letras descontraídas e temáticas de festa e instrumentação intensa de death metal. Originalmente, deveria ser uma faixa bónus exclusiva para o Japão, mas aparentemente acabou por fazer parte do álbum – pelo menos em algumas versões. Pessoalmente, não acho que combine muito bem com o álbum, para ser sincero. Preferia que o álbum terminasse com "All Life Is Evil", pois seria um encerramento muito mais forte e adequado.

HellHeaven: Estão no ativo desde 1999, e ter uma carreira de mais de 25 anos não é coisa pouca - parabéns! Que momentos recordas? Com esta experiência, como vês a cena metal?

Jori: Uma das minhas melhores recordações, pessoalmente, foi conseguir o nosso primeiro contrato discográfico com a Listenable Records. Foi um momento incrível e fez com que tudo se tornasse realidade. O nosso primeiro grande concerto nos EUA também é algo que me ficou na memória. Outros dos melhores momentos da minha carreira nem sequer estão ligados a concertos ou álbuns ao vivo, mas sim a avanços criativos e particulares. Quando estou a compor e, de repente, me deparo com algo que me toca verdadeiramente – algo de que gosto muito – é uma sensação difícil de ultrapassar. Quanto à cena metal em geral, para ser sincero, sinto que não mudou muito durante o tempo em que estive fora. Muitas das mesmas bandas ainda andam por aí, a tocar os mesmos estilos, muitas vezes para o mesmo público. Não parece que tenha havido uma grande mudança ou evolução. Mas talvez seja assim com o metal – resiste à mudança, para o bem e para o mal.

HellHeaven: Mas tens os anos 90 que parecem ter sido um período em que certas regiões desenvolveram estilos muito próprios. Por exemplo, "The Peaceville Three" (Paradise Lost, Anathema e My Dying Bride) no Reino Unido, ou os pioneiros do death metal de "Gotemburgo" (At the Gates, Dark Tranquillity e In Flames). E agora, ao ouvir este álbum, ocorreu-me que algo semelhante, talvez não tão frequentemente mencionado, aconteceu na Finlândia no (final dos) anos 90. Há o género melódico de Insomnium e Swallow The Sun. E por outro lado vocês, mais próximos de Eternal Tears Of Sorrow, Children Of Bodom, Omnium Gatherum e Shade Empire. É sempre uma tarefa desagradável categorizar música e etiquetar as bandas, mas qual é a tua opinião sobre este comentário?
Jori: Sim, ainda ouço muito metal dos anos 90 – foi definitivamente uma época de inovação para música mais pesada. Na Finlândia, os anos 90 viram a ascensão de muitos estilos diferentes de metal: bandas de power metal como Stratovarius e Sonata Arctica, de influência folk como Amorphis, Ensiferum e Finntroll e, claro, black metal com bandas como Impaled Nazarene e Barathrum. Depois vieram os Children of Bodom, que abriram completamente as portas ao death metal melódico finlandês com “Something Wild” no final dos anos 90. Depois disso, surgiram muitas bandas semelhantes. Os COB trouxeram também um novo nível de virtuosismo, o que não era tão comum no melodeath de outros países escandinavos. Nós, nos anos 90, estávamos originalmente mais enraizados no black metal. Mas, no início dos anos 2000, começámos a incorporar algumas influências do melodeath sueco no nosso som – e temos continuado por esse caminho. Os Omnium Gatherum surgiram mais ou menos na mesma altura que nós e tinham elementos algo semelhantes na sua música. Hoje em dia, pessoalmente ouço muito black metal finlandês. Bandas como Horna e Korgonthurus destacam-se realmente para mim. Há algo de muito autêntico e puro na forma como expressam o sofrimento existencial – é cru, honesto e poderoso.

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HellHeaven: Voltemos ao presente. «Darkness Invisible» tem estreia prevista para o final de Setembro. Fala-nos sobre os planos de digressão, e da vinda a Portugal.
Jori: Há alguns planos de digressão agendados para depois do lançamento do álbum, mas a realidade é que todos nós temos família e empregos fixos, por isso fazer digressões longas com a formação completa é bastante difícil hoje em dia. Dito isto, ainda fazemos o possível para tocar o máximo possível sempre que a agenda o permite. Quanto a Portugal, acabámos de tocar no Milagre Metaleiro Open Air, e foi uma experiência muito gira para mim, pessoalmente, uma vez que não tocava metal ao vivo há 20 anos. Só tenho boas recordações dessa viagem.

HellHeaven: Obrigado pela disponibilidade. Em relação a entrevistas, a que pergunta gostarias de responder, mas que nunca ninguém te fez (e qual é a resposta)?
Jori: O que pensas – ou a banda em geral – sobre a IA? Pessoalmente, embora compreenda perfeitamente as preocupações, o cepticismo e até o medo em torno da IA ​​– especialmente a ideia de que pode assumir empregos e deixar pessoas desempregadas – eu, em geral, sou a favor e uso muitas ferramentas de IA no meu dia a dia. Mas, como músico, ainda não lhe encontrei grande utilidade. Testei algumas das ferramentas disponíveis e, para ser honesto, estão longe de ser capazes de criar o tipo de música metal que eu gostaria de ouvir ou fazer. Mas se, um dia, estas ferramentas evoluírem ao ponto de me ajudarem a criar algo melhor do que aquilo que consigo fazer sozinho, não vejo razão para não as utilizar. A criatividade não é apenas sobre a ferramenta, é sobre como a usar. Para ilustrar: se 50 pessoas pressionarem o dó central num piano, o som será muito semelhante – muito genérico. Não há muita criatividade nisso. Mas se 50 pessoas tocarem 200 notas num piano à sua maneira, provavelmente ouvirás expressão individual, emoção e criatividade. O mesmo acontece com os prompts na IA. Gerar uma imagem a partir de um prompt curto e simples não é particularmente criativo. Mas construir algo detalhado – digamos, combinar 200 prompts cuidadosamente construídos numa única ideia visual coerente – isso torna-se um processo expressivo, misturando arte verbal e visual. No outro dia, perguntei-me: se pudesse escolher viver em qualquer época da história da humanidade, qual seria? E acabei com esta. Estamos a viver numa época que está a acelerar em direção ao que pode tornar-se uma explosão de inteligência. Como alguém profundamente curioso por natureza, parece-me muito emocionante.

 

 

 

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