HellHeaven: Olá, e obrigado pela disponibilidade. Falem-nos do nome da banda, pois parece ter muitos significados.
Igor: Olá! Sim, e todos encaixam na banda. Há obviamente a referência ao demónio Murmur, que faz sentido dentro do universo post-black metal, mas também há a ideia do “murmúrio”. Notámos que (nas partes calmas das músicas) em concertos mais atmosféricos há sempre alguém a falar na plateia, e ouvem-se esses murmúrios. Achámos piada, e ficou como uma homenagem a quem não se cala nos concertos. Há ainda a referência ao jogo World of Warcraft de que eu e o Alex somos fãs. Existe lá um demónio chamado Murmur.
Beatriz: E não é um demónio qualquer. Está ligado ao som, à filosofia, à música e ao conhecimento - são todas ligações que se juntam perfeitamente ao conceito da banda.
HellHeaven: Estão listados em tudo, do metal melódico ao black. Como se definiriam?
Igor: Isso é difícil até para nós. O objectivo nunca foi encaixar num género. O primeiro EP foi muito mais virado para melodic death, porque era o estilo que todos tínhamos em comum. Incorporamos influências de post-metal, post-rock, doom, black metal e até folk. Gostamos dessa vertente ligada à nossa terra e às nossas raízes, e fica bem na música.
Beatriz: Foi também uma altura muito experimental em que ainda estávamos a aprender e a perceber o que funcionava melhor. Penso que com o tempo fomos criando uma identidade mais própria, mas ainda assim hoje é difícil colocar uma etiqueta no nosso som.
HellHeaven: Mencionaram o World of Warcraft. Diriam que as bandas sonoras vos inspiram? Que influências gostariam de referir?
Igor: Sim, adoramos a componente atmosférica e emocional das bandas sonoras de jogos e filmes. Aliás, a banda sonora de Diablo influenciou a composição de “Red Hill II”.
Alex: Mas claro, são influências que aparecem de forma subtil, em pequenos detalhes melódicos ou ambiente, pois não somos uma banda sinfónica como Dimmu Borgir.
Beatriz: Ao contrário do resto da banda, eu estou mais virada para o gótico dos 80/90. Dentro do metal, pessoalmente gosto de bandas que fogem ao estereótipo do black metal tradicional e que acima de tudo tentam transmitir emoções. Deafheaven, Amenra, Alcest, Moonspell são bons exemplos. Mais do que riffs ou temas “catchy”, interessa-nos criar atmosferas e fazer música com sentimento.
Igor: Adoramos bandas que experimentam. Espero estarmos a conseguir fazer o mesmo!
HellHeaven: Houve uma evolução entre «Pvtrefactio» e «Red Hill». O primeiro era mais “tradicional” e ligado à alquimia, enquanto o segundo mais rico em atmosferas e aposta na crítica social focado na guerra civil. Como vêem essa evolução?
Alex: Há uma evolução, sim. Mas a componente esotérica e crítica social estão presentes em ambos, apenas em proporções diferentes. Queríamos ter a mesma essência, e ter ligações entre os nossos trabalhos. Aliás, «Pvtrefactio» contém o princípio alquímico do Rubedo, e esse conceito da cor vermelha permeia integralmente o novo álbum, ligando-os.
Igor: No primeiro álbum ainda estávamos a aprender muito sobre composição e trabalho em estúdio. Em «Red Hill», já tínhamos mais experiência. Voltamos a colaborar com o Victor do California Studios, que já nos conhecendo tinha uma ideia mais clara do que pretendíamos. Também houve mudanças na formação, e isso trouxe novas influências.
Beatriz: O estilo de composição nem foi muito diferente. Mas tendo mais experiência ganhámos confiança. Penso que isso se nota no novo disco, que parece mais maduro.
HellHeaven: O primeiro álbum surgiu na altura da pandemia. Como foram afectados?
Igor: Parece algo tão distante. As gravações nem foram tão afectadas. O pior foram os concertos cancelados, pois até já tínhamos as primeiras datas fora de Madrid marcadas.
Beatriz: Foi frustrante, mas em retrospectiva penso que tivemos muita sorte. Acabamos por ter mais tempo para trabalhar no álbum e preparar melhor a banda. Aproveitamos também para trabalhar com pessoas ligadas a festivais e ao meio musical, o que nos abriu portas para tocar em palcos maiores.
Igor: E o Alex também aproveitou muito esse período para compor material novo.
HellHeaven: «Red Hill» é um disco que gira em torno da guerra civil espanhola. Podem revelar mais sobre o conceito do álbum?
Alex: «Red Hill» é uma ideia que já existia, mas que só podemos desenvolver mais tarde. É uma trilogia centrada em algo muito particular da nossa terra e da nossa História, e cada tema representa um momento diferente. O primeiro segue acontecimentos passados e serve de introdução. O segundo entra directamente para a guerra civil, que é o tema central, apesar de o disco não falar apenas apenas disso. Embora tenha sido uma guerra civil, houve muitos voluntários estrangeiros que lutaram aqui, e usamos a música para os homenagear. O terceiro tema é mais pessoal e actual, abordando como ainda hoje sentimos as consequências de tudo aquilo, como uma ferida que nunca realmente sarou.
Igor: No fundo, «Red Hill» é tanto um trabalho histórico como emocional e político. Fala da memória, da identidade, de como certos acontecimentos continuam presentes, mesmo passadas décadas. Para que a ferida realmente sare é necessário admitir responsabilidade.
Alex: Outro facto interessante é que a Red Hill [“Cerro Rojo” (“Colina Vermelha”) como foi chamada temporariamente, actualmente retomou o nome original “Cerro de Los Ángeles”] marca o centro geográfico da Península Ibérica.
HellHeaven: Na segunda faixa usam uma sample de um discurso. Podem-nos falar da sua origem e sobre esta escolha?
Igor: Vem de um documentário antigo sobre a guerra civil espanhola, mais concretamente de propaganda franquista. Já queríamos usar algo do género há algum tempo porque gostamos quando uma música cria contexto logo desde o início e estabelece a atmosfera.
Alex: Aqui a intro com as sirenes e o discurso funciona como o anúncio de uma tragédia. Como dizia, foi uma batalha importante com voluntários estrangeiros e muitos mortos. Interessava-nos explorar o lado simbólico, político e humano da história em vez de ter um foco puramente militar. E é importante ressalvar que não defendemos essa propaganda.
Beatriz: Antes pelo contrário, usamo-la como uma antítese. A música funciona como uma resposta a essa visão fascista e nacionalista.
HellHeaven: O vosso espectáculo ao vivo é muito visual e expressivo. Algo em que reparei foram os adereços, que pareciam ser uma espécie de uniforme militar. Isso faz parte dessa antítese de que falavas?
Beatriz: Sim, exactamente. Tudo o que fazemos em palco tem um significado por trás; não queremos que seja apenas estético. Queríamos realmente expressar o sentimento do disco. Eu visto-me de carpideira que simboliza as vítimas e todos os mortos que lutaram pelo que acreditavam. Quanto às roupas, muita gente interpreta-as como militares, mas a ideia era precisamente a oposta. Durante a guerra civil, muitos dos que combateram não eram soldados profissionais - eram trabalhadores, pessoas normais, gente do povo. Por isso usamos roupas simples, inspiradas nessa realidade. No fundo, toda a estética da banda procura representar o lado humano da história e não uma glorificação da guerra.
HellHeaven: Recentemente abriram em Espanha os vários concertos dos Harakiri For The Sky. Como recordam essa experiência?
Igor: Há uns anos, nós os três fomos vimo-los em Madrid, quando ainda não eram muito conhecidos. Foram uma influência para nós e agora tocar com eles foi muito especial, como o fechar de um ciclo. E tivemos óptimas experiências em cidades como Barcelona e Bilbao, onde não tínhamos tocado muitas vezes. Vendemos muito merchandising, tivemos contacto directo com pessoas depois dos concertos, e sentimos realmente um forte apoio do público.
Beatriz: Eles foram extremamente profissionais e acessíveis. O Matthias, em particular, foi sempre muito fácil de abordar e mostrou-se disposto a ajudar-nos e a dar-nos dicas sobre digressões pela Europa. Estávamos nervosos por serem uma banda grande. Mas foi uma experiência muito positiva, e claro também algo que nos abriu o caminho a palcos maiores.
HellHeaven: E agora que vão ter a vossa própria digressão europeia, quais são as vossas expectativas? Como mencionaram Moonspell e já que passam por Portugal, quão familiarizados estão com a nossa cena?
Beatriz: Não temos expectativas muito definidas e há algum nervosismo, pois é a primeira digressão fora de Espanha, mas estamos muito felizes por poder viver esta experiência.
Igor: Tenho curiosidade em ver como é que o público europeu vai reagir à nossa música. Já contactámos algumas bandas com quem vamos tocar e, até agora, todas têm sido super simpáticas.
Beatriz: Mais do que grandes expectativas, queremos sobretudo que corra bem, conhecer pessoas e partilhar a música. Vai ser a minha primeira vez em Portugal, e por isso ainda mais especial. Conheço os Moonspell e já os vi duas vezes. Falamos com algumas bandas, como os Music In Low Frequencies. Mas não conheço muito a cena, vai ser surpresa!
Alex: A meu ver a cena metal em Portugal está bem melhor que em Espanha: há melhores festivais, trazem melhores bandas, e parecem ter mais apreciação por estilos mais underground como o post-black metal.
Beatriz: Queixamo-nos muito quando as digressões Europeias não passam por Espanha.
Alex: Aí relaciona-se com cruzar os Pirinéus, e afecta tanto Espanha como Portugal.
Beatriz: E é por isso que devíamos colaborar mais aqui na península. Estamos mesmo felizes por tocar em Portugal. Aliás, foi a primeira data confirmada fora de Espanha. Nunca tínhamos conseguido tocar aí antes. Estamos mesmo curiosos, vai ser ainda mais especial.
HellHeaven: O vosso espectáculo, dada a sua temática, funciona muito bem num ambiente escuro. Mas agora no Verão, provavelmente tocado ao ar livre, a sensação será diferente. Estão a planear fazer adaptações?
Igor: Já tivemos de adaptar isso no passado, e temos adereços escuros para a noite e claros para o dia. Somos uma banda mais virada para a noite, mas como ainda somos um grupo pequeno temos de tocar mais cedo.
Beatriz: O nosso espectáculo é ritualístico mas não tem um simbolismo pagão. Se pensares bem, um funeral acontece à luz do dia. E nesse sentido, a atmosfera advém mais da intenção do que do ambiente em si.
HellHeaven: Algo que também sobressai bastante ao vivo são os vocais, realmente vindos das profundezas. Como desenvolveste este estilo?
Beatriz: Obrigado! Fico mesmo contente que tenhas gostado da experiência ao vivo. Nunca tive aulas de técnica vocal, foi tudo por tentativa e erro. Ouvi bandas que usam vocais guturais, e fui experimentando até desenvolver algo que funcionasse para mim. E sinto que neste álbum também evoluí como vocalista. Tenho mais controlo e alcance, e gosto de explorar isso de forma diferente em cada concerto. E tomei uma decisão prática: não falo em palco. Sou soprano, tendo demasiado contraste com a voz gutural, e não quero quebrar a “magia” da actuação. Prefiro manter o foco no misticismo do ritual.
Igor: No início, fomos pressionados para falar com o público ou para sermos mais expansivos em palco. Mas isso não nos representava e optamos por sermos fiéis a nós mesmos. A contenção também é uma escolha estética. Preferimos algo mais elegante e coerente com a atmosfera do que uma abordagem mais convencional.
HellHeaven: Já há planos para um próximo disco?
Alex: Sim, mas numa fase inicial. Já definimos ideias e um conceito, algumas músicas já têm as suas bases de músicas construídas, mas ainda há muito a fazer, digamos que ainda estamos em fase de experimentação. Estamos entusiasmados com o que já temos e trabalharemos no disco a pouco e pouco. Mas agora temos de nos focar na digressão.
Beatriz: Estou optimista e gostaria que fosse possível lançar algo no próximo ano. Mas não há garantias. E claro, o lado positivo de não ter editora é que também não há prazos.
HellHeaven: E nesse sentido, estão à procura de editora?
Igor: Depende. Contactámos várias na altura de «Red Hill». Muitas não responderam, e não conseguimos concordar com os termos de outras. Enquanto banda pequena, parecia não haver um benefício suficiente para compensar as limitações. Naturalmente gostaríamos de uma editora, imagina uma Season of Mist ou AOP Records. Estamos abertos a falar, mas terá de ser algo que faça sentido para ambos os lados.
Beatriz: Todos nós temos trabalhos e não vivemos disto. A música é algo que fazemos para nos divertirmos, não para sermos famosos. Por isso também gostamos da nossa liberdade sem pressões. O mais importante é crescer de forma orgânica, e temos visto essa evolução natural desde os primeiros concertos até ao álbum mais recente e agora à digressão europeia.
HellHeaven: Por fim, que mensagem deixam ao vossos fãs / nossos leitores?
Beatriz: Obrigado por nos terem dado este espaço e pela oportunidade de falar convosco. Como mensagem, diria simplesmente: obrigado, a quem nos ouve — e a quem ainda não nos conhece, espreitem o nosso novo álbum. Esperamos ver-vos em breve num concerto.
Alex: E obrigado também a quem, como vocês, divulga a música e dá espaço às bandas. Vocês dão-nos a voz de que precisamos para chegarmos às pessoas. Sabemos que não é só o tempo que despendem durante uma entrevista, pois há muito trabalho por trás disso. É importante reconhecê-lo, e estamos muito gratos.